domingo, 11 de outubro de 2015

SOBRE MORALIDADE - qual delas te serve?

Pablo Picasso -   Man with a Pipe, 1915 at the Art Institute of Chicago IL:
Pablo Picasso - Man with a Pipe, 1915 
Leon Trotsky

Quem não quiser voltar a Moisés, Cristo ou Maomé, nem satisfazer-se com um ecletismo arlequinesco, deve reconhecer que a moral é um produto do desenvolvimento social; que ela não tem nada de imutável; que serve aos interesses da sociedade; que esses interesses são contraditórios; que, mais que qualquer outra forma ideológica, a moral tem um caráter de classes.

Não existem, então, preceitos morais elementares elaborados pelo desenvolvimento da humanidade e indispensáveis à vida de qualquer coletividade? Existem, sem dúvida, mas sua eficácia é muito incerta e limitada. As normas "obrigatórias para todos" são tanto menos eficazes quanto mais áspera se torna a luta de classes. A guerra civil, forma culminante da luta de classes, suprime violentamente todos os laços morais entre as classes adversas.

Posto em condições "normais", o homem "normal" observa o mandamento: "não matarás". Mas, se mata em condições de legítima defesa, o tribunal o absolve. Se, pelo contrário, cai vítima de uma agressão, seu assassino será condenado à morte. A necessidade de tribunais, bem como da legítima defesa, deriva do antagonismo dos interesses. No que se refere ao Estado, em tempos de paz ele se limita a legalizar a execução de simples indivíduos, para, em tempos de guerra, transformar o "não matarás" em mandamento diametralmente oposto. Os governos mais "humanos", que em tempo de paz "detestam" a guerra, em tempo de guerra fazem do extermínio do maior numero de homens o primeiro dever de seus soldados.

As normas da moral "geralmente reconhecida" conservam no fundo um caráter algébrico, isto é, indeterminado. Elas exprimem apenas o fato de que o homem, em seu comportamento individual, está ligado a certos normas gerais, já que pertence à sociedade. O "imperativo categórico" de Kant é a alta generalização dessas normas. Mas, não obstante a posição eminente que este imperativo ocupa no Olimpo filosófico, ele não tem nada, absolutamente nada, de categórico, porque não implica nada de concreto. É uma forma sem conteúdo.

A causa dessas normas universalmente válidas serem vazias é que, em todas as circunstâncias importantes, os homens têm um senso muito mais imediato e profundo de seu pertencer a uma classe do que de seu pertencer à "sociedade". As normas morais "obrigatórias para todos" adquirem, dentro da realidade, um conteúdo de classe, isto é, um conteúdo antagonístico. A norma moral é tanto mais categórica quanto menos é "obrigatória para todos". A solidariedade dos operários, especialmente nas greves ou por detrás das barricadas, é infinitamente mais "categórica" que a solidariedade humana em geral.

A burguesia - cuja consciência de classe é muito superior, pela sua coesão e intransigência, à do proletariado - tem interesse vital em impor sua moral às classes oprimidas. Por isso mesmo, as normas concretas do catecismo burguês são mascaradas com a ajuda de abstrações morais postas sob a égide da religião, da filosofia, ou daquela coisa híbrida que se chama "bom senso". A invocação das normas abstratas não é um erro desinteressado da filosofia, mas um elemento necessário ao mecanismo da luta de classes. Fazer ressaltar essa tramóia, cuja tradição tem milênios, é o primeiro dever do revolucionário proletário.A

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.