sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Síria: Rússia estabelece um novo cenário


Lorenzo Carrasco 

Aviões russos Su-25 em ação (RIA Novosti)

Aviões russos Su-25 em ação (RIA Novosti)
Trocar a mentalidade de confrontação por uma estratégia de cooperação para o desenvolvimento. Abandonar de vez a mentalidade de blocos da Guerra Fria e as ambições de expansão geopolítica, que resultam em políticas baseadas na arrogância e nas ideias de excepcionalismo e na impunidade. Restabelecer o primado da soberania dos Estados nacionais, em casos como os conflitos que incendeiam o Oriente Médio. Organizar uma coalizão internacional para a luta contra o terrorismo do Estado Islâmico, semelhante à formada para a luta contra o nazifascismo na II Guerra Mundial, com o devido respaldo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, seguida pela reconstrução econômica de toda a região afetada.
Em essência, esses foram os pontos chave do discurso do presidente russo Vladimir Putin, na abertura da 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na segunda-feira 28 de setembro. Discurso que, para o jornalista Pepe Escobar, correspondente itinerante de vários meios eletrônicos, propôs os lineamentos de uma Nova Ordem Mundial, “o artigo genuíno, não aquela ‘coisa’ concatenada por Papai Bush, no período pós-colapso da União Soviética”. Para ele, “seria uma ordem mundial equitativa e justa – onde a soberania dos Estados seja respeitada, as sanções não teriam sentido, a OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] deixaria de se expandir ad infinitum e o excepcionalismo não se aplicaria (Sputnik News, 30/09/2015)”.
Em passagens particularmente relevantes, o líder do Kremlin disparou contra o excepcionalismo estadunidense:
Todos nós sabemos que, após o fim da Guerra Fria, o mundo ficou com um único centro de dominação e aqueles que se encontraram no topo da pirâmide ficaram tentados a pensar que, uma vez que eram tão poderosos e excepcionais, eles sabiam melhor o que precisa ser feito e, assim sendo, não precisam se preocupar com a ONU, que, em vez de carimbar as decisões de que eles precisam, com frequência, fica em seu caminho.
É por isso que dizem que a ONU se esgotou e, agora, é obsoleta e ultrapassada. É claro que o mundo muda e que a ONU também deveria passar por transformações naturais. A Rússia está pronta para trabalhar junto com os seus parceiros, para desenvolver a ONU com base em um amplo consenso, mas nós consideramos como extremamente perigosas quaisquer tentativas de se diminuir a legitimidade das Nações Unidas. Elas podem resultar no colapso de toda a arquitetura de relações internacionais e, depois, não haverá regras, exceto a da força. O mundo será dominado pelo egoísmo, em vez de por um esforço coletivo, por ditames, em vez de equidade e liberdade e, em vez de Estados verdadeiramente independentes, haverá protetorados controlados do exterior.
Qual é o significado da soberania dos Estados, o termo que tem sido mencionado aqui por nossos colegas? Basicamente, ele significa liberdade, com cada pessoa e cada Estado sendo livre para escolher o seu futuro.
Até mesmo a rede estadunidense CNN se viu forçada a admitir que “a mensagem de Putin no pódio da ONU, na segunda-feira, foi simples: as intervenções e o unilateralismo dos EUA deram para trás no Oriente Médio, e é hora de se tentar algo novo (CNN, 29/09/2015)”.
O recado de Moscou foi transmitido em paralelo com uma série de iniciativas concretas para mudar o cenário no Oriente Médio, no tocante à luta que o governo do presidente sírio Bashar al-Assad trava contra a oposição armada, concentrada em grupos jihadistas como o EI e a Frente al-Nusra. Por solicitação oficial de Damasco, a aviação russa começou a participar de ações de apoio ao Exército sírio, ao mesmo tempo em que militares e oficiais de inteligência russos, sírios, iraquianos e iranianos estabelecem um centro de coordenação em Bagdá.
Com isso, o Kremlin estabelece para a sua intervenção um quadro bem diferente do oferecido pela coalizão ocidental encabeçada pelos EUA, que chamamos o “Clube das Bombas”, que, além de ilegítima em suas ações na Síria, não produziu qualquer resultado de monta para impedir a expansão do EI. Além de ter sido solicitada pelo governo sírio, a ação russa preenche todos os critérios de “guerra justa” necessários em tais casos, ademais de ser devidamente coordenada com as forças terrestres sírias, iraquianas, iranianas, curdas e libanesas (Hisbolá), que levarão o combate aos jihadistas – requisitos observados por esta Resenha já há um ano, na edição de 10 de setembro de 2014.
Após os respectivos discursos na ONU, nos quais não economizaram nas críticas mútuas, Putin e seu colega estadunidense Barack Obama se reuniram durante uma hora e meia, em um esforço para algum entendimento sobre as operações militares contra o EI. Posteriormente, tanto o secretário de Defesa Ashton Carter como o secretário de Estado John Kerry deram declarações públicas, afirmando que haveria trocas de informações entre os comandos militares dos dois países, para evitar entrechoques indesejáveis, apesar de algumas imprescindíveis bravatas e palavras de ordem, para salvar as aparências de que Washington está atuando a reboque dos acontecimentos, em vez de encabeçá-los, como determina a ideologia “excepcionalista”.
Até mesmo a obsessiva insistência estadunidense com o afastamento de Assad parece ter sido amenizada, a julgar pela posição apresentada por Kerry em uma entrevista à CNN, na qual afirmou que uma saída imediata do presidente sírio provocaria uma virtual implosão das instituições civis do país. “O que necessitamos é uma transição ordenada, manejável, para que não haja medo diante de uma vingança, medo pela vida, um vazio, uma implosão (CNN, 29/09/2015)
Na ONU, Putin foi enfático ao afirmar que “deveríamos, finalmente, admitir que as forças do governo do presidente Assad e as milícias curdas são as únicas forças que estão realmente combatendo terroristas na Síria”. E, com o início das operações militares contra o EI, aprovadas pela Duma (Parlamento), ele eleva a um nível superior a determinação de evitar que a Síria se convertesse em uma nova Líbia, antecipada com a “linha vermelha” traçada em agosto de 2013, quando bloqueou um iminente ataque estadunidense contra alvos militares sírios.

A iniciativa russa, indiscutivelmente, estabelece um novo cenário no conflito na Síria e no combate ao EI, criando condições concretas tanto para um encerramento da guerra civil como a neutralização da supergangue jihadista, em um futuro próximo. A lamentar apenas que a obstinação dos belicistas que dominam a política exterior de Washington e a submissão das principais potências europeias à sua agenda hegemônica tenha se feito perder um ano inteiro, com pífias operações aéreas pirotécnicas que pouco produziram de efetivo no terreno, enquanto as hordas do EI ampliavam e consolidavam o seu reino de terror. Mas, antes tarde do que nunca.

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