sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Jovens palestinos com facas são 'filhos do desespero', diz ex-chanceler Celso Amorim



Guila Flint

Ex-ministro analisa nova crise entre Israel e Palestina, o enfraquecimento do Itamaraty e critica Dani Dayan como possível embaixador israelense em Brasília
     
No dia 14 deste mês, o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim se encontrou com o presidente palestino Mahmoud Abbas, em Ramallah, e recebeu dele a Ordem da Estrela de Jerusalem, considerada a condecoração mais importante outorgada pela Autoridade Palestina a personalidades nacionais e internacionais.


O ex-chanceler recebeu a homenagem por seus esforços pela aproximação entre o Brasil e a Palestina, por seu apoio à luta do povo palestino por liberdade e independência e pelo seu desempenho a serviço da paz no Oriente Médio.
“Foi uma condecoração dada pelo reconhecimento do que eu fiz no passado”, disse Amorim. “Já se passaram cinco anos desde que deixei o Itamaraty. Fiquei muito honrado e também foi um reconhecimento da politica externa brasileira naquele período, por defender a existência de um Estado palestino, mas, sobretudo a paz na região”.


Wilson Dias/Agência Brasil


Celso Amorim defendeu o congelamento da criação de assentamentos israelenses em solo palestino
“Para mim, foi uma sensação forte chegar lá em um momento em que a paz está mais do que sob ameaça, ela está em xeque, com as ações que têm ocorrido. Eu vejo a solução de dois estados cada vez mais longe e isso também me entristece”.


Amorim chegou ao Oriente Médio depois de duas semanas de violência entre israelenses e palestinos, em uma nova onda que está sendo definida como a “terceira Intifada”.


A primeira Intifada, que começou em 1987, foi um levante amplo contra a ocupação israelense, com a participação da população palestina, desde crianças até idosos, e foi caracterizada como “Intifada das pedras”.


A segunda, que começou no ano 2000, foi a “Intifada dos suicidas”, que se explodiram nas grandes cidades israelenses, matando centenas de civis, em ônibus, restaurantes e mercados.
No levante atual, que está sendo chamado de “Intifada das facas”, os principais protagonistas são jovens palestinos, de menos de 20 anos de idade, que nasceram após o acordo de Oslo, assinado em 1993.


Restituir a esperança


Desde o inicio de outubro, já houve dezenas de casos de jovens palestinos, de Jerusalém Oriental, da Cisjordânia e mesmo cidadãos israelenses palestinos, que saíram às ruas armados com facas, chaves de fenda e até, em um caso, um descascador de batatas, para atacar civis e soldados israelenses.
Essa nova onda de violência deixou pelo menos 48 mortos do lado palestino e 9 do lado israelense.
“Esses jovens são filhos do desespero, decorrente da ausência de qualquer avanço em direção à paz”, disse Amorim. “Não justifico de maneira alguma o que eles estão fazendo, mas é preciso entender que a única maneira de impedir que a violência se agrave ainda mais é restituindo a esperança a esses jovens”.


“Eu vejo uma condição indispensável para retomar as negociações, que é congelar a construção de assentamentos. A partir daí, poderia haver um diálogo que desse alguma esperança, porque o que se vê hoje é que, com os assentamentos que foram construídos, a Palestina está ficando inviável como país. Segundo as últimas informações que obtive, já há cerca de 600 mil colonos israelenses morando nos territórios ocupados”, disse Amorim.


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“Isso inclusive é ruim para Israel. Acho que chegamos a um ponto que é preciso que lideranças espirituais intervenham para acalmar um pouco esse ódio recíproco, botar um pouco de água nesse fogo, e olha que eu sempre fui mais do lado materialista, do lado da politica”, opina. “Senti, que apesar das dificuldades, o presidente Abbas continua manifestando disponibilidade para voltar às negociações com Israel, mas Israel também precisa dar algum sinal positivo”.
“Impertinência diplomática”
Para Amorim, o ato do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de nomear Danny Dayan, ex-lider dos colonos na Cisjordânia, ao cargo de embaixador no Brasil, foi um sinal “negativo” e um ato de “impertinência” do ponto de vista diplomático.
“Eu acho esse ato de Netanyahu muito errado, muito errado”, disse. “Isso não é uma coisa casual, mas sim um reflexo dessa politica mais extremada que Israel está adotando, e é uma tentativa de, começando pelo Brasil, influir em todos os países da América Latina para, progressivamente, desistirem da ideia dos dois estados e de apoiar o Estado Palestino”.

ANP


Amorim recebeu de Abbas a Ordem da Estrela de Jerusalém


“Dayan é um líder justamente dos movimentos que provocam a principal causa da obstrução das negociações”, continua. “A nomeação, da maneira que foi feita, foi diplomaticamente muito indelicada, pois foi anunciada antes de se pedir o agrément - em geral se consulta o país para saber se há algum problema e depois é que se anuncia – e foi uma atitude incorreta, acho inclusive uma certa impertinência, você indicar um embaixador antes de consultar o país. Mas, enfim, independentemente dos procedimentos diplomáticos, essa nomeação é sinal dessa politica, que inclusive foi analisada por jornalistas brasileiros, de tentar forçar uma mudança sul americana na posição de dois estados”.
Erosão na politica externa “ativa e altiva”


Amorim descreve o período em que serviu como chanceler (2003-2010) no livro que lançou em março deste ano, “Teerã, Ramalá e Doha – Memórias da Politica Externa Ativa e Altiva”.
Na conversa com Opera Mundi ele lamenta a “erosão” que se deu, nos últimos anos, tanto na atividade como na “altivez”.


“É difícil ser ativo e altivo se você não consegue pagar a conta de luz”, disse, em referência às dificuldades que os diplomatas brasileiros no exterior têm enfrentado após o corte das verbas. “Há uma erosão da politica externa, não por mudança de posições, mas por um enfraquecimento do Itamaraty e o corte de recursos”, disse, “e isso acaba tendo um reflexo no conteúdo também”.
Para o ex-chanceler, o enfraquecimento do Itamaraty pode ter um efeito negativo sobre a economia do país.


“Nesta situação de estagnação e até recessão em que estamos agora, a exportação é importante e, para exportar, tem que se estar presente nos lugares, tem que se aproveitar as oportunidades que foram criadas no papel, por intermédio de acordos que fizemos, por exemplo na África e no Oriente Médio, inclusive em Israel, e transformá-las em realidade”.


“Enfim, dias melhores virão, como o diz o título do filme do Cacá Diegues”, concluiu Amorim.

 (*) Guila Flint cobre o Oriente Médio para a imprensa brasileira há 20 anos e é autora do livro 'Miragem de Paz', da editora Civilização Brasileira.

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