sábado, 24 de outubro de 2015

Japão: governo reconhece "1ª vítima de câncer" pósFukushima


A primeira vítima de câncer em Fukushima não foi a primeira nem será a última



Job Moya

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

              
O governo japonês reconheceu, pela primeira vez, um caso de câncer provocado pela exposição à radiação na sinistrada central nuclear de Fukushima. O fato das autoridades terem reconhecido isso não significa que tenha sido nem o primeiro nem o único caso. Em termos de saúde ambiental, pode-se afirmar que o pior de Fukushima ainda está por vir. Esse primeiro caso reconhecido refere-se a um paciente masculino, de 41 anos, que entre 2012 e 2013 participou dos trabalhos de limpeza e descontaminação da central.  Um ano depois de realizar essas tarefas, desenvolveu  leucemia (câncer da medula óssea), em função do que foram avaliados os níveis de radiação acumulados em seu medidor ou dosímetro pessoal, resultando em uma exposição anual  três vezes superior (15,7 milisieverts) ao legalmente permitido (5 mSv). As autoridades japonesas não tiveram mais remédio do que reconhecer a contaminação  e indenizar o sujeito como vítima de doença do trabalho [1]. Contudo, é necessário lembrar que os efeitos cancerígenos da radiação são estocásticos, ou seja, não dependem somente da dose, mas também do azar ou “falta de sorte”; a incidência de uma partícula radioativa no local mais inapropriado e no momento menos oportuno. 

Que esse seja o primeiro caso reconhecido não significa que seja o primeiro nem o último até esta data. Em julho de 2013 faleceu, por câncer no esôfago, Masao Yoshida, que dirigiu as operações no interior da central desde o momento em que soaram os alarmes pelo   maremoto. Nove meses depois da catástrofe/acidente, ele se viu obrigado a deixar seu posto  para receber tratamento médico [2]. A maioria dos tipos de câncer associados à radiação tem um período de latência (assintomático) que pode estender-se de 1 a 20 anos após a exposição, com um pico máximo de casos entre 4 e 10 anos após, em função do que se pode dizer que o pior está por vir [3].
A radiação nuclear danifica nossas células e as moléculas que as compõem. Se a célula não morre, mas seu código genético (ADN) é danificado pela radiação, ela pode se reproduzir  e dar lugar a uma estirpe celular anômala, ou seja, pode originar uma neoplasia ou câncer. Isso acontece com mais freqüência  nos tecidos que apresentam maiores taxas de reprodução, como a medula óssea, onde são formadas as células sanguíneas e linfáticas. Por isso, leucemias e linfomas são tumores frequentemente associados à exposição a radiações ionizantes, embora não sejam os únicos.  

A fusão descontrolada no núcleo dos reatores de Fukushima e a explosão dos edifícios de contenção ocasionou a liberação no ambiente de enormes quantidades de iodo radiativo (iodo 131), substância muito volátil e efêmera, mas altamente cancerígena. Um mês após a catástrofe, os níveis de iodo radioativo no mar superavam 5 milhões de vezes os limites máximos permitidos.  A glândula tireoide, encarregada de regular nosso metabolismo, precisa de iodo para funcionar; se houver a ingestão  ou inalação de iodo radioativo, este se acumula facilmente na glândula e termina ocasionando câncer. Em agosto de 2014, já tinham sido detectados 57 casos de câncer na tireoide em crianças dos arredores de Fukushima, 15 vezes mais do que os que ocorrem em outras regiões do país não afetadas pela radiação[4].

Por isso, a Máfia japonesa (Yakuza) tem conduzido uma peculiar e macabra seleção de pessoal para as tarefas de limpeza das imediações da central nuclear: indigentes, aposentados sem recursos, desempregados em apuros, todos homens com mais de 40 anos e preferivelmente sem filhos, com a finalidade de economizar custos e evitar ações e indenizações por doenças adquiridas durante os referidos trabalhos[5].     

Desnecessário dizer que a grande maioria desses custos ambientais, médicos, sociais, etc, são assumidos pelo Estado, ou seja, por todos os japoneses/as, e não pela companhia de eletricidade TEPCO, que é a que tem se beneficiado durante anos pela exploração da central. Atualmente, temos 130 mil pessoas evacuadas que jamais poderão regressar a seus lares, semear suas terras nem pescar em suas águas sem arriscar sua vida. Por desgraça, nada nem ninguém pôde evitar o maremoto e suas vítimas diretas, mas o maior acidente nuclear da história poderia ter sido evitado: não foi muito prudente instalar seis reatores nucleares junto à falha tectônica mais ativa do planeta.
 
Apesar de tudo isso, a Agencia Internacional de Energia Atômica, dirigida por Yukiya Amano, se propõe  incentivar a construção de novas centrais nucleares em todo o mundo “para reduzir emissões de gases de efeito estufa e combater o aquecimento global”[6]. É possível que elas emitam menos gases que a mineração e combustão do carvão, mas a energia nuclear gera os resíduos mais duradouros e cancerígenos que se conhecem, sem atualmente existir nenhuma forma satisfatória de armazená-los ou desativá-los, isso sem mencionar a ameaça militar/terrorista que eles supõem.

A Agência também não faz referência à responsabilidade dos não assumíveis custos de uma catástrofe como a de Fukushima, que já custou aos japoneses 1,6 bilhões de euros, e cujo custo integral superará os 80 bilhões de euros [7].   O referido relatório a AIEA ignora intencionalmente a eficácia e o menor impacto das energias renováveis como substitutas dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás), assim como do urânio. Nesse sentido, é oportuno assinalar que a Alemanha tem sido capaz de produzir, somente através da energia fotovoltaica, 33 gigavats/hora nos nove primeiros meses de 2015, o equivalente à produção de 30 centrais nucleares[8]..

Notas

[1]http://politica.elpais.com/politica/2015/10/21/actualidad/1445405808_005093.htm

[2]http://www.elmundo.es/elmundo/2013/07/09/internacional/1373368567.html

[3]http://optimalprediction.com/wp/fuku4-cancer-rates-start-taking-off

[4]http://www.abc.es/sociedad/20140825/abci-cancer-tiroides-fukushima-201408250522.html

[5]http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/12/30/actualidad/1388428242_330917.html

[6]https://www.iaea.org/newscenter/news/iaea-report-highlights-nuclear-power%E2%80%99s-role-combating-climate-change

[7]http://europapress.es/epsocial/naturaleza-00323/noticia-coste-accidente-fukushima-superara-80800-millones-euros-casi-doble-previsto-2011-20140826144945.html

[8] http://elperiodicodelaenergia.com/la-produccion-renovable-alemana-bate-nuevos-records-y-dobla-la-generacion-nuclear/

Job Moya  é membro da  "Plataforma Contra el Cementerio Nuclear en Cuenca" (na Espanha, N.do T.),e porta-voz da mesma.

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=204851&titular=la-primera-v%EDctima-de-c%E1ncer-de-fukushima-no-ha-sido-la-primera-ni-ser%E1-la-


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