quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Cultura Inútil: Seja homem, já que sua mãe não foi!


Mouzar Benedito.

A frase que intitula este texto era, numa época, em alguns lugares, uma forma brincalhona de chamar um sujeito à responsabilidade, a tomar uma atitude decente.

Bem, o que é “ser homem”? Há muitos conceitos: sociológico, biológico e outros funcionando mais como adjetivos.

Quando se fala “homem” pode se estar referindo a toda humanidade, ao ser masculino da espécie humana ou a esse ser masculino com certa qualidade que varia conforme quem a enuncia. Geralmente, alguém que fala “seja homem” se refere nessa condição ao sujeito que tem alguma qualidade que ele mesmo julga ter.

Por exemplo: o valentão. Homem é aquele que não foge de uma briga. Outro exemplo: o machão que não broxa nunca e que “dá várias” em seguida, de preferência “sem tirar”. Tem também quem julgue que só são homens os “honestos”, que fazem negócio “no fio do bigode”. Tem ainda os que acham que homem não chora. Chorou, não é homem. E quem ache que homem não pode ser brincalhão, tem que ser sério; brincalhões são “moleques”.

Gosto sempre de lembrar para quem tem conceitos muito próprios sobre o que é “ser homem” o caso de um conterrâneo meu, o João Grosso, que era baixinho e magrinho, mas um comilão de primeira. As pessoas faziam apostas para ver se ele conseguia comer uma certa quantidade de coisas e quem apostava contra sempre perdia. Uma vez ele entrou num bar em que eu estava e, não sei porque, dois caras discutiam se ele seria capaz de comer um quilo de goiabada e três dúzias de banana prata. Apostaram, pagaram pra ele comer ali na frente de todo mundo e ele comeu!

Pois bem, qual era o conceito de homem, do João Grosso? Numa festa de Reis, com comida de graça à vontade, sempre em pratos fundos bem cheios, com uma serra de comida em cima, ouvi o João Grosso dar sua definição: “Homem que não come cinco pratos de comida, pra mim não é homem”.

Frases e ditados

Andei fuçando por aí, procurando frases de gente famosa ou às vezes nem tanto, sobre “homem”, em todos os sentidos. Os conceitos são contraditórios. Se a gente for considerar todos, procurar alguém que preencha os requisitos de cada um, é impossível achar alguém que seja “homem”. Nenhum homem é Homem. Mas vamos socializar essas frases e esses ditados:

Hilda Roxo: “Quanto mais inútil o homem se sente, mais proclama a virilidade”.

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Trotski: “Os homens não têm muito respeito pelos outros porque têm pouco até por si próprios”.

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Marques Rebelo: “Os pássaros nascem para voar, o homem para trair”.

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José Martí: “Quem não se sentir ofendido com a ofensa feita a outros homens, quem não sentir na face a queimadura da bofetada dada noutra face, seja qual for a sua cor, não é digno de ser homem”.

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José Martí, de novo: “O homem que honra a si mesmo é capaz de ver as virtudes de outro homem”.

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Hemingway: “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”.

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Vão Gogo: “O homem é o único animal que ri. E rindo é que mostra o animal que é”.

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Machado de Assis: “O homem é um alfabeto de sensações”.

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Machado de Assis, de novo: “O papagaio e o macaco são duas contrafrações da pessoa humana”.

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Bernard Shaw: “Quando um homem estúpido faz alguma coisa de que tem vergonha, ele sempre declara que estava só cumprindo seu dever”

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Confúcio: “O mestre disse: por natureza, os homens são próximos; a educação é que os afasta”.

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Confúcio, de novo: “Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo”.

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Confúcio, mais uma vez: “Um homem de virtuosas palavras nem sempre é um homem virtuoso”.

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Eu: “O homem é um bípede sem plumas. Mas os menos fanáticos, no Carnaval, são bípedes com plumas e paetês”.

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Eu, de novo: “A coisa mais sólida que o corpo do homem produz é bosta”.

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Eu, mais uma vez: “Atrás de todo grande homem, e de pequeno também, sempre tem uma bunda”.

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Humberto de Campos: “Os homens se repetem nos homens”.

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Ortega y Gasset: “Desconfio do respeito de um homem com seu amigo ou sua bandeira quando não o vejo respeitar o inimigo ou a bandeira deste”,

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Freud: “O caráter de um homem é formado pelas pessoas que escolheu para conviver”.

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O povo (ditado popular): “O homem é o lobo do homem”.

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Barão de Itararé: “O homem é um animal que pensa. A mulher é um animal que pensa o contrário”.

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Barão de Itararé, de novo: “Todo homem que se vende recebe muito mais do que vale”.

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Provérbio chinês: “Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar”.

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Thomas Jefferson: “Os homens temerosos preferem a calmaria do despotismo ao mar tempestuoso da liberdade”.

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Karl Marx: “De nada valem as ideias sem homens que possam colocá-las em prática”.

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Medeiros de Albuquerque: “Se se acredita no que dizem todos os antropologistas, o homem é mais bonito que a mulher”

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Samuel Johnson: “Os homens são mais constantes no ódio que no amor”

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O povo (ditado popular): “Três coisas destroem um homem: muito falar e pouco saber, muito gastar e pouco ter, muito presumir e pouco valer”.

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Mark Twain: “Se você pega um cachorro faminto e o torna próspero, ele não morderá você. Esta é a principal diferença entre um cachorro e um homem”.

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Rosalina Coelho Lisboa: “Homem… grão de poeira, que o tempo atira à poeira e arrasta na eterna evolução dos seres e das coisas”.

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Rui Barbosa: “O homem, que é o erro em procura da verdade, não pode traçar a divisória entre a verdade e o erro”.

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Rui Barbosa, de novo: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

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Provérbio oriental: “O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute”.

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Publílio Siro: “Para um homem azarado, não tomar iniciativa é sempre o melhor”.

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Madame de Staël: “O desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem”.

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Einstein: “A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará a vida sem ver nada”.

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Roberto das Neves: “Conheço os homens e os macacos, e da comparação entre uns e outros recolho largo crédito a favor dos segundos”.

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Xiquote: “O homem é o superlativo da Criação: somos uns grandes animais”.

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Henry Fielding: “A sede ensina a beber a todos os animais, mas a embriaguez só pertence ao homem”.

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Miguel de Cervantes: “As tristezas não foram feitas para os animais, mas para os homens; mas se os homens se sentem muito, tornam-se animais”.

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Anônimo: “99% dos homens dão uma má reputação ao resto”.

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Simone de Beauvoir: “Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez”.

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Carlos Drummond de Andrade: “Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”.

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Fernando Pessoa: “O Homem é do tamanho do seu sonho”.

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Walther Waeny: “O homem é um animal racional. Racional, às vezes; animal, quase sempre”.

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Gabriel García Márquez: “Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um  outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”.

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Provérbio chinês: “O grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”.

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Goethe: “A multidão não pode ficar sem homens valentes, e os valentes são sempre um peso para ela”.

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Maquiavel: “Os homens, quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”.

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Maquiavel, de novo: “Os homens esquecem mais facilmente a morte do pai que a perda dos bens”.

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Selma Lagerlof: “Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer neles a coragem para a suportar”.

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Balzac: “Um homem poderia ser o melhor amante de sua mulher – se fosse casado com outra”.

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José C. Alves Neves: “O homem, quando está satisfeito, pensando que vai andar por si, está ele sendo carregado. É um grande iludido, convencido de que é um sujeito, quando não passa de um objeto”.

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Jean Paul Sartre: “Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo”.

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Jean-Jacques Rousseau: “Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz”.

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Francisco de Bastos Cordeiro: “Eterna criança, o homem, como as crianças, é fácil de contentar e de ser iludido”.

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Marcel Pagnol: “O segredo mais difícil de ser guardado por um homem é a opinião que tem de si mesmo”.

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Dostoievski: “O que o homem quer é simplesmente a livre escolha, não importa o que isso possa custar e onde quer que possa levar”.

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Max L. Forman: “Uma das calamidades da vida é sonhar apenas quando estivermos dormindo. O homem mais pobre não é o homem sem dinheiro: é o homem sem sonhos”.

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Provérbio russo: “Para todo homem, como para toda fechadura, é preciso encontrar a chave certa”.

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Godofredo Alencar: “Os homens, como Deus os fez, só não odeiam as esperanças”.

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Stephen Stills: “Existem três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas, ou torná-las literatura”.

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Immanuel Kant: “O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”.

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Philippe Deslouches: “Quanto aos defeitos dos outros, o homem tem olhos perspicazes”.

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Marcel Proust: “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem”.

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Anônimo: “O maior prazer de um homem inteligente é bancar o idiota diante do idiota que quer bancar o inteligente”.

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Vicente Avelino: “Todo homem existe, mas nem todo homem vive… Existir é um ato puramente animal, viver uma ação eminentemente espiritual”.

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James Cook: “Um homem que quer reger uma orquestra precisa dar as costas à plateia”.

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Schopenhauer: “O destino é cruel e os homens são dignos de compaixão”.

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Vitor Caruso: “Um homem casado, com amante, tem qualquer coisa de militar, pode passar da efetiva para a reserva”.

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Charles de Gaulle: “Os homens, tão enfadonhos quando se trata de manobras da ambição, são atraentes ao agirem por uma grande causa”.

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Anônimo: “O homem que jamais errou é aquele que jamais fez coisa alguma”.

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Jonathan Swift: “Um homem nunca deve envergonhar-se por reconhecer que se enganou, pois isso equivale a dizer que hoje é mais sábio do que era ontem”.

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Adão Myszak: “Uma das maiores razões da intolerância do homem é porque ele reconhece na mulher todas as qualidades que perfeitamente rivalizam as suas”.

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Marie von Ebner-Eschenbach: “Os homens se assemelham aos vinhos: a idade estraga os maus e melhora os bons”.

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Blaise Pascal: “Há duas espécies de homens: uns, justos, que se consideram pecadores, e os pecadores que se consideram justos”.

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Max Aub: “Há três categorias de homens: a) os que contam a sua história; b) os que não contam; c) os que não a têm”.

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Berilo Neves: “O homem casado sonha na rua e acorda em casa. O homem solteiro sonha em casa e acorda na rua…”.

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Galileu Galilei: “Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo”.

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Anônimo: “O homem, na ânsia de buscar felicidade, se esquece de ser feliz”.

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Leon Tolstoi: “No coração do homem é que reside o princípio e o fim de tudo”.

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Platão: “A paz no coração é o paraíso dos homens”;

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Joracy Camargo: “A humanidade se compõe de miseráveis, falsos ricos e ricos falsos”.

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Eu: “O homem é o melhor amigo do cachorro”.

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Luís Felipe Algell de Lama: “O melhor amigo do homem é outro cachorro”;

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Camilo Castelo Branco: “O homem é a desonra do Criador”.

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Camilo Castelo Branco, de novo: “O homem é um verme. Deus não tem nada a ver com este grão de areia, que lançou no oceano, a turbilhões, com a ponta dos pés”.

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Camilo Castelo Branco, mais uma vez: “Quanto a mim, o homem é um pedaço de asno”.

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Albert Schweitzer: “O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos”.

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Oscar Wilde: “Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame”.

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Eugen Rosentock-Huessey: “Até o homem que não crê em nada precisa de uma namorada que creia nele”.

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Giacomo Leopardi: “O sentimento de vingança é tão agradável que muitas vezes o homem deseja ser ofendido para poder se vingar, e não falo apenas de um inimigo habitual, mas de uma pessoa indiferente, ou até mesmo, sobretudo em alguns momentos de humor negro, de um amigo”.

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Afrânio Peixoto: “O homem não é outra coisa além de um fabricante de dogmas, dogmas de todas as variedades”.

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Nietzsche: “Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho”.

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Nietezche, de novo: “O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso”.

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Nietzsche, mais uma vez: “O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar a existência”.

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Alexandre Herculano: “Das definições possíveis do homem, uma só é verdadeira: o homem é um animal que disputa”.

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Elbert Hubbard: “Todo homem é um tolo por pelo menos cinco minutos todos os dias; a sabedoria consiste em não exceder este limite”.

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Álvaro Moreyra: “Não é a razão que agrada aos idiotas; é o eco das suas ideias. Somos todos iguais. A humanidade é uma só; são as aparências que variam”.

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Humberto de Campos: “Não há homens perfeitos, como não há diamantes sem falha”.

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Marquês de Maricá: “Os homens são como relógios: uns se atrasam, outros se adiantam, poucos regulam bem”.

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Miguel Couto: “O homem é uma máquina feita expressamente para a dor; só lhe deram cinco sentidos para o gozo, e todo o corpo para o sofrimento”.

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Miguel Couto, de novo: “O homem é um animal maligno, como todos os animais. Viver é fazer mal”.

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Josué de Castro: “Na paisagem virgem, o homem é sempre um intruso que só se pode manter pela força”.

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Carmen Sylva: “As mulheres são más, especialmente por culpa dos homens; os homens são maus, especialmente por culpa das mulheres”.

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Charles Chaplin: “O homem é um animal com instintos primários de sobrevivência. Por isso, seu engenho desenvolveu-se primeiro e a alma depois, e o progresso da ciência está bem mais adiantado que seu comportamento ético”.

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Konrad Lorenz: “Aquele que conhece verdadeiramente os animais é por isso mesmo capaz de compreender plenamente o caráter único do homem”.

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Eça de Queiroz: “O homem nem sequer é superior ao seu venerável pai — o macaco — exceto em duas coisas tenebrosas: o sofrimento moral e o sofrimento social”.

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Mário Quintana: “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é esse sentimento de que ele venha a ser nosso futuro”.

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Abraham Lincoln: “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes”.

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Abraham Lincoln, de novo: “Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.

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Martin Luther King: “A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio”.

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O povo (ditado popular): “Três coisas mudam o homem: a mulher, o estudo e o vinho”.

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Júlio César, imperador de Roma: “Normalmente os homens preocupam-se mais com aquilo que não podem ver que com aquilo que podem”.

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Galeão Coutinho: “O homem, no seu feroz egocentrismo, se considera o fim, quando é apenas o meio. O meio de perpetuar a espécie”.

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Saint Exupéry: “O homem se descobre quando se mede com um obstáculo”.

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Bertolt Brecht: “Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam um ano e são melhores; existem aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Porém existem os que lutam a vida toda. Estes são os imprescindíveis”.

cultura inútil seja um homem

Para terminar, poesia!

Quando completei 16 anos, migrei de Minas para São Paulo, para trabalhar e estudar, morando em pensão e depois em república, com outros migrantes. Tínhamos que passar por muitas durezas, encarar muitas situações difíceis e injustiças. Nessas ocasiões, cada um reagia de uma maneira. Havia quem agüentasse tudo calado. Eu xingava e protestava. Uns lamentavam, outros achavam injusto mas “normal”; outros, ainda, procuravam superar preconceitos e injustiças pelo estudo e pelo trabalho. Um amigo, apelidado Antônio Poeta, declamava o poema “Se”, de Rudyard Kipling. Eu me lembrei dele quando escrevia este texto. Claro que não o decorei. Peguei na internet. Aí vai:

Se és capaz de manter a tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso.
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que só a isso te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores,
Se, encontrado a Desgraça e o Triunfo, conseguires
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste,
e as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
e perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

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Ou clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.


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