sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A humanidade capturada


Economistas apontam que Acordo do Pacífico pode dar a empresas mais importância que a Estados

Bloco com 12 países concentrará 40% do PIB mundial; especialistas afirmam que é a hora do Mercosul se repensar política e economicamente.

Bruno Pavan

Após cinco anos de negociações, Estados Unidos e Japão selaram, na última segunda-feira (5), o Acordo Transpacífico (TPP, sigla em inglês). O presidente Norte-americano Barack Obama comemorou o acordo como “o marco comercial do século XXI”.

A parceria envolve 12 países banhados pelo oceano pacífico. Além de Estados Unidos, Japão e Canadá, que estão entre as 15 maiores economias do mundo, Austrália, Nova Zelândia na Oceania; México, Peru e Chile, na América Latina; e Malásia, Brunei, Singapura e Vietnã na Ásia fazem parte do bloco.

“Ainda é muito cedo falar em efeitos porque não dá pra saber a totalidade do acordo, os termos dele ainda não estão claros. Além do que ele precisa ser referendado nos respectivos congressos nacionais, isso não é simples. Basta lembrar que os EUA propuseram a Alca e ela nunca saiu do papel”, ponderou o professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Moisés Marques.

Para especialistas, um dos principais interesses norte-americanos no bloco é montar uma alternativa para a Organização Mundial do Comércio. Uma das grandes questões de entrave é a Rodada Doha que há 14 anos tenta derrubar as barreiras comerciais no mundo. O doutor em economia e especialista em Políticas Públicas e Gestão governamental Paulo Kliass explica que, por conta da diplomacia ter um “ritmo mais lento” que os processos econômicos, as grandes potências tentam caminhos alternativos como acordos bi e plurilaterais.

“Nesse descompasso acontecem iniciativas que são tomadas por blocos de interesse. A China, por exemplo, consegue entrar nos países asiáticos, africanos e sul americanos oferecendo recursos financeiros pra esses países sem muitas contra partidas, ela só pede abertura comercial para os seus produtos”, explicou.

Empresas como Estados

Inúmeras críticas ao acordo partem, justamente, de economistas norte-americanos no que diz respeito ao papel das empresas transnacionais. Robert Reich, da Universidade da Califórnia, explica que “o acordo foi decidido pelas transnacionais, Wall Street e advogados. A sociedade será obrigada a compensar quaisquer perdas de lucros resultantes de regulações das nações. Qualquer empresa poderá desafiar regulações do governo, sob alegação de redução injusta dos seus lucros, mesmo se os seus produtos forem inseguros, provocarem emissões tóxicas e prejuízos para os trabalhadores”, apontou.

Para se ter uma ideia do poder econômico que as multinacionais terão, basta pesquisar que muitas delas tem o faturamento maior que o PIB de países que pertencem ao bloco. O Bank of America, por exemplo, em 2011, teve um faturamento de US$ 134 bilhões, o Vietnã, no mesmo ano, teve um PIB de US$ 103 bilhões. A General Eletric, teve um faturamento maior que todas as riquezas da Nova Zelândia somadas, enquanto a Fannie Mae, líder do mercado secundário de hipotecas nos EUA e que chegou a sofrer intervenção do governo em 2008, fatura mais que o Peru. Veja relação completa aqui.

“O risco estratégico de se oferecer tamanho poder ao capital nas relações diplomáticas é o retrocesso na mediação e a imposição da lógica explícita do lucro nas negociações internacionais”, criticou Kliass.

Mercosul

Um estudo da Fundação Getulio Vargas apontou que o bloco criará um cenário incerto para os países que não fazem parte do acordo, como os Bricse a Europa. Em entrevista ao jornal valor Econômico, o gerente de comércio exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Diego Bonomo alerta que os países participantes do acordo correspondem a 24% das exportações totais do país.

Kliass explica que a questão não é tão simples, já que precisaria saber se o Brasil foi mesmo convidado para entrar no bloco e quais os interesses que os Estados Unidos teriam nessa aproximação. “Para os EUA, não interessaria, porque o Brasil iria exigir muito, já o Brasil sabe que eles não iriam ceder em nada, então fica um jogo que não vale a pena ser jogado”.

Além disso, o economista explica que não valeria a pena para o país jogar fora as relações diplomáticas que foram construídas com a África e com os Brics, por exemplo, por conta dessa aproximação com os EUA. “Se for pra participar tem que tem algum ganho, não faz sentido sacrificar tudo o que nós conseguimos de apoio aqui no Mercosul por uma “saidinha” pro pacífico através do Chile. O que que a gente teria a ganhar acrescentando esses países, num gesto que seria romper com toda a África, a grande maioria da América latina e nossos parceiros dos BRICS?”, questionou.

Na opinião de Marques a assinatura do acordo pode ser a oportunidade para que o Mercosul aumente a sua presença comercial realizando, por exemplo, acordos com a China e com a União Europeia, que estão fora do TPP, além de repensar e sua estratégia política.


“O Mercosul vem desde a cúpula do Rio de Janeiro em 1999 negociando com a União Europeia e essa tendência de blocos plurinacionais pode criar uma janela de oportunidade. Além disso, nós nunca conseguimos superar a fase de união aduaneira, ele faz 25 anos em 2016 e está na hora de pensar um projeto. O parlamento do Mercosul, por exemplo, deveria estar funcionando desde 2011, a integração política que se esperava não aconteceu, então ele precisa ser repensado”, encerrou.

Um comentário:

  1. Gilson, se esse parlamento do mercosul for semelhante a comissão europeia, com certeza, será melhor que nunca venha a existir.

    ResponderExcluir

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.