sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A guerra contra os BRICS



Alfredo Serrano Mancilla
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti
Alai

A guerra contra os BRICS continua. O país hegemônico, Estados Unidos, junto com seus satélites centrais, persiste na tentativa de explicar o atual esfriamento da economia global culpando os países emergentes. Isso não vai parar. O FMI aproveita seu relatório anual de previsões de crescimento econômico para situar o foco fora do epicentro capitalista. E ele faz isso da forma que sabe: abusando  de sua posição dominante para projetar um panorama preocupante para China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul. Dessa forma, pretende desviar a atenção dos verdadeiros problemas estruturais do sistema capitalista mundial. Evita-se discutir sobre a subordinação da economia real diante da financeirização neoliberal. O que diz o FMI como fiador de um sistema econômico que permite que 90% dos movimentos de capitais sejam não produtivos? Qual é a política econômica do FMI para um setor financeiro que é 18,1 vezes superior à economia real? Por que ele não proíbe a existência dos fundos abutres que agridem e desestabilizam as economias de muitos países? Por que não dedica seus relatórios para exigir o cumprimento de normas concretas para acabar com a conexão privilegiada entre as multinacionais e os paraísos fiscais? Não. O FMI prefere não esclarecer  nada sobre a evasão de 11,5 bilhões de dólares, que quase ninguém sabe onde estão. É exatamente o contrário: o FMI aponta  para todos aqueles países que não o obedecem com o único propósito de salvar “seu sistema”, que não é nem por sombra benéfico para as maiorias sociais.   

Nessa ofensiva contra os BRICS, vale tudo, inclusive tergiversar as cifras de crescimento econômico para aparentar uma relativa estagnação das economias emergentes em comparação com as potências tradicionais. Contudo, a letra  pequena não engana. Os dados falam por si mesmos, e é absolutamente incerto que os países emergentes sejam os que menos crescem, e sequer são os responsáveis atuais pela contração econômica mundial. O mesmo FMI estima que o PIB desse Grupo de Países crescerá 4%, enquanto que os denominados países avançados ficarão em 2%. Mais anda, se compararmos a China com a Alemanha ou o Japão, o resultado é ainda mais revelador: O Fundo estima que o PIB chinês crescerá 6,8% neste ano de 2015, enquanto que a Alemanha ficará em 1,5% e o Japão em 0,6%.

As contas não fecham, apesar do FMI se esforçar em repetir insistentemente a mesma manchete: “a estagnação dos emergentes esfria o crescimento mundial” (El País, 6 de outubro de 2015); “os emergentes ameaçam arrastar o mundo para uma nova recessão” (Financial Times, 7 de setembro de 2015). Esse assédio contra os BRICS não é casual. Os Estados Unidos procuram ganhar a batalha das expectativas com a intenção de frear a atual transição geoeconômica (em direção a um mundo multipolar). A Reserva Federal do EUA há meses vem anunciando uma alta das taxas de juros que nunca termina por acontecer. O objetivo é criar expectativas a nível global para que os capitais que foram embora há uma década agora voltem para casa pelo Natal. Nem os EUA nem o FMI ficam satisfeitos com os BRICS continuando a consolidar um espaço geoeconômico tão amplo, tão sólido e tão difundido pelo mundo. A recente criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (BAII), ao qual já aderiram cerca de 57 países (entre eles, os BRICS, além de Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Austrália, Espanha, Coréia do Sul e Israel), também incomoda. A mova diplomacia financeira chinesa incomoda especialmente ao FMI. O Consenso de Pequim, como muitos o denominam, atua como contrapeso ao Consenso de Washington. O FMI não está só neste mundo. Ele sabe disso, e por isso reage contra os BRICS e contra todo aquele país que não siga seus preceitos. Assim, tenta construir um senso comum global em questões econômicas, no sentido de que tudo é culpa dos BRICS e dos países emergentes.  Desse modo, o FMI, com os Estados Unidos à frente, tenta com desespero uma restauração conservadora a nível mundial para que tudo volte à hegemonia de antes, a do século XX, embora às vezes esqueça já estamos no século XXI.  

Hoje, mais do que nunca, a disputa geopolítica se transfere para o terreno do geoeconômico, embora também possa se dizer o contrário, como assim o manifestou a própria presidente argentina Cristina: “não é a economia, é a geopolítica, estúpido!”.

Alfredo Serrano Mancilla é Diretor do CELAG, e Doutor em Economia.



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