sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Statu quo, narcotráfico e guerra suja

Via Rebelión

Destinos encontrados: Indochina, Colômbia e México

Statu quo, narcotráfico e guerra suja

Hernando Calvo Ospina (*)

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Na noite de 26 de setembro de 2014, uma nova atrocidade foi cometida pelo Estado mexicano: a repressão contra jovens estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa. Dessa ação, resultaram 6 pessoas assassinadas, 20 feridos e 43 desaparecidos forçados, fato que tem provocado a indignação mundial. A Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade e a Editora Ocean Sur acaba de puvblicar no México “Ayotzinapa: Um grito da Humanidade”. Aqui oferecemos o texto escrito por Hernando Calvo Ospina, que conta como se reproduz no México a utilização de paramilitares e narcotraficantes como parte de uma guerra suja estatal, estratégia desenvolvida pelas forças especiais francesas durante a guerra colonial na Indochia e no Vietnam pelas norte-americanas, e mais posteriormente na Colômbia.

I

Humilhada pela guerrilha, a França aceitou retirar-se do Vietnam em 1954. Entretanto, os Estados Unidos não estavam dispostos a que o “comunismo” se apoderasse do Sudeste Asiático. Acelerou-se então a passagem para operações militares, principalmente as clandestinas.

Essencial foi multiplicar a formação de forças paramilitares tribais no Laos, Birmânia e Vietnam. Elas foram denominadas Unidades de Reconhecimento Provincial (URP). Sua especialidade foram a guerra de guerrilhas e a tortura.

Foi durante a Campanha de Pacificação Acelerada, mais conhecida como Programa Fênix, dirigida por uma equipe especial estadunidense que elas mais demonstraram sua capacidade de destruição. A partir de 1967, elas foram lançadas para semear o terror entre a população civil, com o objetivo de destruir a infraestrutura logística e de apoio dos rebeldes. Os médicos e professores, principalmente do campo, foram objetivos cobiçados. A Fênix durou uns quatro anos e deixou quase 40 mil assassinados, incluindo mulheres e crianças. 

Como o Congresso em Washington tinha proibido esse tipo de operações “sujas”, os especialistas do Pentágono e da CIA, com o aval dos presidentes Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon, utilizaram uma fonte alternativa de financiamento, seguindo o exemplo deixado pelos serviços especiais franceses: o tráfico de ópio e heroína.  

As ruas da Europa e dos Estados Unidos se encheram dessas drogas, e com o dinheiro da sua venda foram feitas as ações clandestinas de terror.  Elas continuaram sendo moda quando o presidente Nixon, que apoiava a agressão ao Vietnam, declarou hipocritamente a guerra ao comércio internacional de heroína. A imprensa acreditou nele e fez as pessoas acreditarem.

II

Alguns anos depois, o presidente Ronald Reagan considerou o narcotráfico como o inimigo principal da segurança de seu país e lhe declarou guerra. A midiatização universal foi enorme, e para a Colômbia foram dirigidos todos os holofotes da culpabilidade.

Recém acabava de triunfar a Revolução Sandinista na Nicarágua (julho de 1979), que Reagan também declarou problema de Segurança Nacional. Foram duas “guerras” que se cruzaram.

Chegaram à Colômbia alguns “especialistas”, particularmente da CIA e da DEA com a pretensa tarefa de ajudar a capturar traficantes e carregamentos de cocaína. Jornalistas de todas as partes do planeta desembarcaram às centenas nos oito anos da tal guerra reaganiana.

Enquanto isso, a Nicarágua era rodeada por uma força mercenária conhecida como os “contras”, que entrava no país para semear o terror entre a população civil. Essa força tinha sido criada na Casa Branca. Como o Congresso se negou a financiar suas necessidades militares, Reagan dispôs que isso fosse feito de qualquer forma.  George Bush pai, vice-presidente e “czar” anti-drogas e anti-terrorismo, encarregou-se disso.

Em 1986, uma Comissão do Senado, encabelada pelo hoje Secretário de Estado John Kerry, deixou claro que Bush e o Conselho Nacional de Segurança formaram uma sociedade entre a CIA e os produtores colombianos de cocaína. A droga saía da Colômbia para a América Central e em seguida era transportada  para aeroportos militares na Flórida.  Colocada nas ruas, seus lucros serviam para armar os “Contras”. Aos colombianos se lhes permitia entrar com seus carregamentos e adquirir armas.

Pode-se afirmar que, sem a guerra suja anti-sandinista, esse grupo de colombianos, que até aquele momento dependia dos grandes traficantes norte-americanos, não teria conseguido ter tanto poder em tão pouco tempo.

III

Coincidentemente, o paramilitarismo como estratégia nacional contra-insurgente nasceu na Colômbia quando a década de 80 mal e mal estava iniciando. Seu embrião tinha sido as “autodefesas”. Estas foram organizadas a partir dos conselhos deixados em 1962 por uma missão militar estadunidense, como método para terminar com grupos de campesinos liberais e comunistas que exigiam pão e terra. Ainda faltavam dois anos para o surgimento das guerrilhas, mas o fantasma da Revolução Cubana estava rondando e era preciso acabar com ele.  

O paramilitarismo foi encarregado das ações de guerra suja para que as Forças Armadas não aparecessem tão implicadas nela, e entidades como a Anistia Internacional  ou a ONU não continuassem acusando-as como responsáveis. O dinheiro para  subvencioná-lo não foi problema, por que estava ao alcance da mão: o narcotráfico.  

A grossa cortina de fumaça que a quase totalidade dos meios de informação no mundo ajudou a levantar distorceu a realidade: o narcotráfico não foi combatido, por que este era um aliado na guerra contra o “comunismo”. 

Na Colômbia, os paramilitares se transformaram em parte essencial do terrorismo de Estado, esse que não combate as guerrilhas, mas sim assassina a todo aquele que se opões ou critica o status quo ou é considerado apoiador das guerrilhas. Esvaziaram especialmente de campesinos as regiões ricas em recursos estratégicos e se apoderaram delas ou as entregaram a caciques políticos, militares e multinacionais. Na realidade, existiu uma violenta reforma agrária ao contrário. Em 30 anos, são quase um milhão de assassinados e desaparecidos com base em terríveis matanças e seis milhões de refugiados, e quase ninguém sabe disso. É uma barbárie como poucas na história da  humanidade a cometida pelos narco-paramilitares, planejada desde as altas instâncias do poder político, econômico e militar em Bogotá e em Washington.

Washington e Bogotá sabem que sem o narco-paramilitarismo, a guerrilha estaria às portas do poder.

De vinte anos para cá o paramilitarismo é o máximo cartel produtor e exportador de cocaína no paneta. De vez em quando tiram do caminho “capos” que já incomodam por má imagem ou aos narcos que não atendem a seus interesses, e disso fazem uma notícia sensacional para mostrar que se está em guerra contra as drogas. 

IV

Pablo Escobar caiu em desgraça diante dos estadunidenses quando se negou a continuar entregando cocaína aos contras; além disso, começou a exigir da elite colombiana o poder político que merecia seu poder econômico. Transformaram-no no pior dos piores, quando na realidade rapidamente foi demonstrado que eram outros narcos os poderosos e assassinos piores.

Comenta-se que o general Oscar Naranjo o procurou até matá-lo. E mais: foram seus homens que o perseguiram e o encurralaram, muito particularmente um grupo, que não pertencia à polícia nem às Forças Armadas, nem à CIA ou à DEA: eram narcotraficantes. Antigos aliados na conformação do terrorismo de Estado. Com eles, Naranjo, a CIA e a DEA planejavam cada passo da caçada, até que os capos chamaram o general, a presidência de República, a CIA e a DEA para contar-lhes que tinham matado Escobar. Assim, Naranjo foi promovido a herói. Depois, ele mesmo negociou com eles a entrega a baixo preço, e esse general ficou como se tivesse terminado com os cartéis da droga. Logo, os EUA lhe deram o título de “melhor policial do mundo”, sem citar que ele respondia mais à CIA e à DEA do que ao presidente colombiano, nem que ele era um dos responsáveis da estratégia do terror imposta ao povo colombiano.

V

Aposentados, o general Naranjo e muitos outros policiais e militares foram contratados em vários países para aproveitar sua “vasta” experiência.  Sempre sob a falsa bandeira que tudo pode e tudo permite: lutar contra as quadrilhas do crime organizado, em particular narcotraficantes.  

Poucos questionaram a real capacidade desses “especialistas”, pois qualquer um pode constatar que o narcotráfico e o narco-paramilitarismo na Colômbia chegaram a um crescimento e poder nunca antes conhecidos. Quase ninguém levantou a voz para dizer que a polícia e as Forças Armadas colombianas estão classificadas como das mais corruptas, repressivas e sanguinárias do planeta pela Comissão de Direitos Humanos da ONU. 

Em junho de 2012, Naranjo foi contratado pelo México, por sugestão ou pressão de Washington. Também foram chegando outros oficiais colombianos para encarregarem-se de formar 7 mil policiais.  

Simples casualidade? Quando houve o massacre dos estudantes em Ayotzinapa já estava sendo denunciado o surgimento de polícias comunitárias, autodefesas e paramilitares. Em cada uma delas há uma mescla de civis, forças da ordem e narcotraficantes... muito ao estilo colombiano.

Simples casualidade? A atroz forma com que foram assassinados e desaparecidos os estudantes é típica do narc0-paramilitarismo colombiano.

Sabe-se que a situação de pobreza está transformando o México em uma panela de pressão com a válvula de escape fechada, e os narcos são aliados estratégicos para tratar de conter a explosão social através do terror.

O México e Washington repetem que estão em guerra contra os narcotraficantes mexicanos. Embora esse discurso seja repetido  desde o tempo das guerras do sudeste asiático, especialmente por Washington, parece que sempre surte o efeito como cortina de fumaça...

(*) Hernando Calvo Ospina. Jornalista e escritor. Colaborador de Le Monde Diplomatique.

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