quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os europeus estão a forçar uma mudança nas políticas dos seus governos amedrontados

Via Publico.pt

TERESA DE SOUSA

António Guterres, o alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, assiste, esperançado, à impressionante onda de solidariedade e sentido de urgência que cresce entre os cidadãos da Europa perante a tragédia dos refugiados, prevendo que isso vai ter consequência nas decisões da União Europeia

Guterres critica a falta de visão estratégica da Europa DENIS BALIBOUSE/REUTERS

Há meia dúzia de dias, António Guterres dirigia palavras duríssimas à forma como a União europeia estava a lidar – a não lidar – com a crise dos refugiados, ao fim de seis meses de tragédia contínua. Hoje, o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados vê na reacção das sociedades civis e na opinião pública de praticamente todos os países europeus uma força que acabará por mudar a política europeia.

Está a enfrentar a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra, com meios que muitas vezes são escassos tendo em conta a dimensão da tragédia. A quatro meses do fim do seu segundo mandato não tem mãos a medir. A União Europeia, diz ele, tem de enfrentar esta emergência mas tem também de se dotar uma visão estratégica.

Tem usado ultimamente palavras bastante duras em relação à forma como a União Europeia tem lidado com esta tremenda vaga migratória. Acredita que as suas palavras estão a ser ouvidas?
Creio que a influência das minhas palavras será limitada mas também creio que há, neste momento, um fenómeno novo na Europa que me leva a ter esperança de que terá uma profunda influências nas decisões da União Europeia e, nomeadamente, as que o Conselho de Ministros do Interior terá de tomar em breve. Estamos a assistir à emergência e ao desenvolvimento de uma extraordinária reacção positiva da sociedade civil, dos cidadãos anónimos, da opinião pública que, em toda a Europa, porventura, contrariando as expectativas de Governos amedrontados com as manifestações xenófobas a que fomos assistindo nos últimos meses. Os governos têm hoje políticas mais restritivas do que aquilo que parece ser a vontade dos seus povos. A minha convicção é que isso levá-los-á a compreender a necessidade de uma resposta de emergência efectiva e solidaria da União Europeia, que esteja à escala do problema, em vez das medidas mais ou menos incrementais que, até agora, foram definidas e que, ainda por cima, ao não serem sequer aplicadas, conduziram a uma situação de verdadeiro caos numa grande parte da Europa

Acha que a força de uma fotografia é responsável por essa mudança?
Creio que não é apenas uma fotografia. É sobretudo a persistência com que a comunicação social tem reflectido esta tragédia. Mas o drama da família curda em que estava a pensar teve, de facto, um impacte gigantesco, quer nos meios de comunicação tradicionais, quer nas redes sociais. Esta consciência crescente que se foi gerando, acabou por levar as opiniões públicas a considerarem que é absolutamente inaceitável que a Europa, que é também depositária de um conjunto de valores de humanismo e de defesa dos Direitos Humanos, esteja a falhar historicamente em relação a este desafio com o qual está confrontada. Há a percepção de que a Europa tem obrigação de inverter o caminho, perante quem está a viver esta tragédia, oferecendo-lhes a protecção que esperam dela. De resto, têm direito a ela pela própria lei internacional, para além de uma visão humanista do mundo que é a sua.

Surpreendeu-o a liderança da chanceler alemã?
Não posso dizer que me tenha surpreendido, mas creio que é importante prestar homenagem não só o papel da chanceler mas dos dirigentes políticos alemães. Há que dizer que tiveram a coragem de afirmar com grande coerência uma abertura em relação aos refugiados que procuram a Alemanha como solução para a sua tragédia ainda antes desta onda que as opiniões públicas agora abraçam. E também a firmeza que demonstraram na condenação, sem quaisquer reservas, das manifestações xenófobas que ocorreram em alguns sectores da sociedade alemã, embora claramente minoritários e marginais.

E esperava esta reacção negativa dos países de Visegrado, sobretudo a Hungria?
No ACNUR, nós temos uma relação de grande afecto com o povo húngaro que, naturalmente, nos faz ver com particular angústia a situação actual naquele país. A primeira grande operação do ACNUR, quando terminou de lidar com as consequências da II Guerra, foi exactamente na crise dos refugiados húngaros [provocada pela Revolta de Budapeste contra Moscovo, em 1956, que levou á intervenção militar da União Soviética]. Nessa altura, milhares de húngaros foram recebidos na Áustria e na Jugoslávia de portas abertas e de uma forma admirável. Em quatro meses, 140 mil húngaros foram relocalizados, metade em outros países europeus e outra metade fora da Europa, numa grande demonstração de solidariedade. A minha esperança é que o povo húngaro, que tem manifestado grandes demonstrações de solidariedade e apoio em relação aos refugiados bloqueados no interior da Hungria, acabe por obrigar o seu governo a mudar de posição do país, alinhando-o com o que espero que venha a ser a da União Europeia.

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