sexta-feira, 11 de setembro de 2015

11 de setembro de 1973, uma fatídica data que não deve ser esquecida

Via Rebelión

Paco Azanza Telletxiki

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

No próximo 11 de setembro, lerei vários jornais, ouvirei algumas emissoras de rádio e me sentarei diante do alienante e mercantil televisor para presenciar com olho crítico alguns noticiários. Todos eles dedicarão ampla informação ao décimo quarto aniversário do atentado contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque. Contudo, será muito difícil que  esses mesmos meios de informação recordem o sangrento golpe de Estado perpetrado por Augusto Pinochet – em contubérnio com o governo dos Estados Unidos  - contra o legítimo governo de Salvador Allende, há 42 anos.

Em 4 de setembro de 1970, Salvador Allende Gossens ganhou as eleições com 36% dos votos. Assumindo a presidência do Chile em 3 de novembro do mesmo ano, não tardou muito tempo em colocar em prática o programa socialista da Unidade Popular, que ele representava.

Allende carecia de maioria no Congresso, mas apesar da Suprema Corte ter rechaçado muitas de suas reformas, ele restabeleceu as relações diplomáticas com Cuba, e chegou a nacionalizar, -  depois de prévias indenizações – os serviços públicos e os bancos, assim como as companhias norte-americanas de ferro, carvão e cobre, que contribuíam com três quartos das divisas do país. Os salários dos trabalhadores foram aumentados, o desemprego baixou para menos de 5% e redistribuiu a terra, aumentando a produção de alimentos e o consumo.  

Graças a essas medidas, os sistemas de segurança social, educação e saúde melhoraram notavelmente, e a taxa do PNB cresceu acima dos índices dos anos precedentes. Contudo, 78,4% dos créditos de curto prazo que o Chile administrava tinham sido concedidos pelos norte-americanos, e estes, como não poderia ser de outro modo, trataram de limitá-los com o chamado “bloqueio invisível”, colocado em prática em 1971.

Em 1972, o cobre chileno começou a ser embargado pela companhia Kennecott Cooper, e meses depois o presidente Nixon conseguiu a aprovação , por parte do Congresso norte-americano, da liberação das suas reservas de cobre.  Com essa última manobra, o preço internacional do mesmo caiu vertiginosamente e a economia chilena se ressentiu de maneira considerável.

Muitos patrões financiaram atos de sabotagem,- como a colocação de bombas em fábricas do Estado, - promoveram greves, reduziram a produção, despediram muitos trabalhadores... e enviaram ao estrangeiro a maior parte de suas poupanças.

A estratégia desestabilizadora desenhada pelo diretor da CIA naquela época, Richard Helms, pelo presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, pelo chefe do Conselho Nacional de Segurança, Henry Kissinger e por alguns grupos privados estava dando seus esperados frutos.

Os produtos básicos começaram a escassear, os serviços sociais se deterioraram, depois de terem sido amplamente melhorados após as políticas de redistribuição de renda por parte do governo da Unidade Popular. E, finalmente, consumou-se o anunciado golpe de Estado – em março de 1972 os documentos da ITT publicados pelo jornalista norte-americano Jack Anderson revelavam os complôs para derrubar Allende. 

Era o dia 11 de setembro de 1973. Dois aviões de caça Hawker Hunter deixaram cair um par de bombas cada um sobre a Casa de La Moneda. Mas, diante das exigências de sua renúncia, Allende já tinha dado uma contundente resposta: “Estou disposto a resistir por todos os meios, inclusive com o preço da minha própria vida....”. E cumpriu com sua palavra: resistiu e morreu lutando  em torno das duas da tarde daquele fatídico dia. Os quarenta companheiros  do Presidente ainda resistiram mais duas horas. Somente às quatro da tarde, depois de sete horas de enfrentamento armado, apagou-se a última resistência no palácio..  

A esperança do povo chileno de alcançar uma vida digna tinha sido truncada, e além disso ele teve que pagar um preço muito elevado por fazer  uso de seu indiscutível direito: um mês depois do golpe, a repressão golpista acumulava 30 mil pessoas assassinadas, segundo algumas fontes; 5 mil segundo a embaixada estadunidense.  

Outros dados apavorantes provocados pela ação sanguinária de Pinochet e a cobiça imperialista do governo dos Estados Unidos são os que se seguem: mais de um milhão de exilados, 300 mil deles por motivos diretamente políticos;  112 mil torturados, mais de 3 milhões de detenções arbitrárias; 1,2 milhões de invasões de domicílios pelas forças de repressão e centenas de milhares de cidadãos expulsos de seus locais de residência, estudo e trabalho.    

Talvez se possa criticar Salvador Allende por não ter eliminado os elementos nada confiáveis do exército e não ter armado e organizado a população, criando unidades de milícias. E definitivamente, por ter confiado demais em sua “via pacífica” ao socialismo numa América Latina tão convulsionada, quando a olhos vistos já estava sendo organizado golpe que depois lhe assestaram. 

Um militante do MIR – Movimiento de Izquierda Revolucionaria, que cumpriu neste ano seus 50 anos de fundação -, opinou a respeito: “Certamente todos nós desejávamos uma mudança pacífica, mas em toda a história nenhuma classe dominante jamais cedeu seu poder sem travar uma luta encarniçada”.

É verdade que no Chile o poder foi alcançado através das urnas, mas a chamada via pacífica o foi de forma muito relativa, porque afinal muitíssimo sangue foi derramado, além de tudo para depois perdê-lo.

Se cada trabalhador e cada campesino devidamente organizado tivesse recebido um fuzil em suas mãos, talvez não houvesse ocorrido nem triunfado o golpe fascista. Mas esse é um debate no qual não vou entrar agora. Incitado pelo injusto silêncio dos reacionários meios de comunicação, eu somente quero recordar a trágica efeméride para contribuir com meu grãozinho de areia para que ela não caia no esquecimento.

Blog do autor: http://baragua.wordpress.com

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