segunda-feira, 20 de julho de 2015

Telesur, sinal veraz, rebelde e muito nossa

Via Rebelión

Ángel Guerra Cabrera

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

A entrada no ar da Telesur em julho de 2005, há exatamente 10 anos, foi uma clara expressão dos ventos de rebeldia, independência, unidade e integração, que como um furacão, voltavam a soprar a sul do rio Bravo. Foi também uma necessidade imperiosa demandada pela nova época que se abria em nossa América, com a renovada auge das lutas sociais, de um pensamento crítico nascido ou revitalizado em seu calor, e a rica tradição histórica e cultural de séculos que estava se enraizando.  

A Telesur estava destinada a transformar-se no veículo de comunicação então inexiste que levasse a conhecer essa realidade em nossa região e no mundo, e que ao mesmo tempo combatesse o discurso chato, servil e mendaz da globalização neoliberal difundido por um punhado de gigantescos consórcios  multimeios em escala planetária e seus quatro ou cinco clones regionais (Televisa, Clarín, El Tiempo, El Mercúrio, etc), todos cúmplices e instrumentos do capital financeiro internacional e do pensamento único de cunho eminentemente estadunidense que se pretende impor.

Poderosos movimentos populares, imensas rebeliões como o Caracazo (1989) e a Rebelião de Chiapas (1994), tinham explodido contra o Consenso de Washington desde o final dos anos 80 na América Latina e no Caribe. Já nos anos 90 conseguiam levar à presidência de alguns de seus países uma constelação de novos líderes. Embora o grupo fosse integrado  por homens e mulheres com muito valiosas qualidades de liderança, dentre eles despontou Hugo Chávez por seu singular ânimo, inesgotável energia, audácia, visão estratégica e capacidade de gerar iniciativas e tecer alianças, tanto dentro de seu país como em escala regional e internacional.

Justamente por iniciativa e com todo o apoio do comandante Chávez nasceu a Telesur como canal multi-estatal latino–caribenho, apenas quatro meses antes da derrota da ALCA em Mar del Plata,  ponto de inflexão na luta pela segunda independência de nossos povos. Atualmente, já como plataforma multimeios, ela é integrada por Argentina, Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Venezuela. Seu lema, desde o início, é “nosso norte é o Sul”, sublinhando com isso não somente sua condição  de voz das lutas, das culturas e da história latino-caribenha mas também de todos os povos da Terra, embora particularmente os do chamado Terceiro Mundo.

É enriquecedor constar como com mais vontade e decisão política do que com recursos materiais e técnicos, um pequeno quadro de pessoal motivado, criativo e dedicado  e uma lúcida direção geral nas mãos de Patrícia Villegas a partir de 2011, a emissora tem cumprido cada vez com mais eficácia com aquele lema inicial. Não posso evitar que me venha à mente a Rádio Havana, de Cuba, nascida em condições parecidas,  que eu considero seu precedente. Deve ser destacado também que a Telesur reuniu ao seu redor, como colaboradores voluntários, uma parte importante da intelectualidade mais valiosa e comprometida de nossa região e de outras latitudes, embora goze de prestígio e existem potencialidades para que amplie esse caudal. Poderiam participar mais caribenhos, incluídos os Estados anglo-falantes e francófonos, cujas culturas são tão importantes na formação da identidade da nossa América. 

Se me perguntassem em um primeiro momento no que brilhou como um sol a emissora, apontaria a extraordinária cobertura informativa sobre o golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya (2009) e a resistência popular contra este, a ponto de impedir  que os meios hegemônicos – como de costume – impusessem sua narrativa sobre esse acontecimento tão relevante. De outros fatos, como o posterior golpe parlamentar no Paraguai contra o presidente Fernando Lugo e as velhas e novas intentonas contra os mandatários Evo Morales e Rafael Correa, as graves ações desestabilizadoras contra os governos da Argentina e do Brasil, assim como o processo de paz na Colômbia, sua audiência tem recebido e recebe um olhar diferente, que pela primeira vez força  meios como a CNN em espanhol a oferecer uma informação menos tendenciosa, embora não por isso menos banal, pois isso está em seu DNA de forma irreversível. Nos últimos dois anos, destaca a pontual informação  em relação à difícil e complexa luta da Venezuela chavista e bolivariana com o presidente Nicolás Maduro na cabeça, atacada pela guerra econômica em todas as frentes.  

Em relação a Cuba, a Telesur tem mantido  uma corrente informativa que nos tem permitido apreciar a liderança firme e à altura de Raúl Castro em uma nova etapa da Revolução Cubana, e nos mantém informados sobre  o penetrante olhar de Fidel ao mundo contemporâneo e acompanhar muitos outros aspectos da realidade cubana, silenciados ou distorcidos pela máfia midiática.

Acontecimentos como o nascimento e posterior trajetória da ALBA, UNASUR, CELAC e PETROCARIBE, as chamadas cumes das Américas, o destacado trabalho de cobertura sobre as intervenções imperialistas na Líbia e Síria e as reportagens do movimento Occupy Wall Street, os massivos protestos contra os assassinatos policiais de negros nos Estados Unidos, a intervenção imperialista na Ucrânia e a digna luta do povo grego contra a ditadura financeira dos bancos alemães por trás do rosto da senhora Merckel e das siglas da União Européia, ou não teriam chegado às audiências ou estas teriam recebido unicamente versões distorcidas se não fosse a veraz cobertura da Telesur. Também tem sido de enorme importância o acompanhamento pela emissora da política externa de China e Rússia e do pensamento e das ações de seus destacadíssimos líderes Xi-Jinping e Vladimir Putin, assim como dos BRICS, em geral em concordância com o acelerado  trânsito  da unipolaridade para o atual mundo multipolar. Nesse contexto, a Telesur não está só, pois formidáveis iniciativas semelhantes de informação alternativa nasceram, como a russa RT, a chinesa CCTV ou a iraniana Hispan TV.

São memoráveis as iniciativas tão enraizadamente latino-caribenhas e de alto nível profissional e impacto internacional como o programa De Zurda, magistralmente conduzido por Victor Hugo Morales  e a insubstituível participação de Diego Armando Maradona. Da mesma forma os programas produzidos na Argentina sobre a cultura latino-americana e a linha de documentários. Dentre eles, se destacam os de Oliver Stone e Roberto Chile sobre Hugo Chávez, mas essa já é uma produção de tal variedade e qualidade que merece uma valorização à parte e não é objetivo deste trabalho.  

Possuem um alto nível de realização e substancia os documentários de Paco Ignacio Taibo sobre os lutadores sociais e revolucionários latino-caribenhos, de tal forma que a Telesur criou um acervo de filmes que se transforma em material de grande valor para o público e também indispensável na docência universitária. São dez anos que não podem ser mais fecundos, e anúncio de muitos mais por vir, em que a muito complexa conjuntura internacional  e as duras lutas de nossa América em defesa de sua soberania, unidade e do bem-viver lhe exigirão à nossa emissora redobrar seus esforços. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.