terça-feira, 14 de julho de 2015

Os cuidados e a alimentação do buraco negro financeiro

Via Rebelión


Dimitry Orlov

Tradução do inglês para o espanhol: Germán Leyens

Tradução do espanhol para o português: Renzo Bassanetti

Information Clearing House

Faz pouco tempo, tive o prazer de ouvir Sergei Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências e assessor do presidente Putin – dizer algo que confirmou em grande parte minhas próprias ideias. Disse ele que qualquer um que saiba um pouco de matemática pode observar que os EUA estão à beira do colapso porque sua dívida chegou a um nível exponencial. Não são palavras que algum político americano ou europeu possam expressar em público, ou talvez sequer murmurar à sua cara metade na cama, por que os espiões norte-americanos poderiam conseguir ouvi-las e então esse político poderia sofrer algum “tratamento”.

Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, durante uma visita aos EUA, foi falsamente acusado de violação sexual e preso) é um exemplo. Portanto, nenhum político europeu (não se preocupem com os norte-americanos) pode declarar o óbvio, por óbvio que seja.

Os russos tem compreendido isso bastante bem. Sim, manter um diálogo e relações cordiais com os europeus é importante. Mas também se entende bem que os europeus são somente um monte de marionetes norte-americanas sem vontade ou autoridade para tomar decisões próprias. E por que não falar diretamente com os estadunidenses? Por desgraça, os estadunidenses também são marionetes. Os funcionários e políticos norte-americanos são definitivamente marionetes, controlados por lobistas corporativos  e oligarcas suspeitos. Mas há uma coisa surpreendente: estes últimos também são marionetes, controlados por simples imperativos de preservação da rentabilidade e da riqueza, respectivamente. De fato, trata-se de títeres até o final, e o que está por baixo é um gigantesco buraco negro financeiro em permanente expansão.

Vocês gostam de seu buraco negro? Se não estão certos de que gostam, gostaria de formular algumas perguntas: Gostam que seus cartões de crédito continuem funcionando ou que ainda possam manter dinheiro no banco e inclusive retirá-lo através de um caixa eletrônico, ou que estejam recebendo ou esperem receber algum dia uma aposentadoria? Gostam do fato de que poderão obter coisas úteis  - alimentos, gás, passagens aéreas – através de um simples pedaço de papel com retratos de homens brancos? Ou gostam de ter acesso à Internet, de que as luzes estejam acesas e de que a água saia da torneira? Bom, se gostam dessas coisas, também devem gostar do buraco negro financeiro, pois é o que possibilita todas essas coisas apesar do país de vocês estar em bancarrota. Talvez seja uma relação de amor-ódio: vocês adoram pensar que tudo está bem, apesar de saberem que não é assm, e desejam gozar um pouco mais do mesmo antes de que tudo vá para o diabo, seja durante alguns poucos dias ou um ou dois anos mais; contudo, vocês odeiam o fato de que o buraco negro  finalmente os absorverá e como as coisas terminarão por transformar-se em....uma porcaria.

Nos EUA, até agora o buraco negro tem estado absorvendo famílias “individuais” (embora às vezes absorva cidades inteiras, como Detroit, em Michigan, Bakerssfield na Califórnia ou Camden em Nova Jersey). Com a ajuda da fraudulenta mutreta hipotecária, absorve casas e logo as cospe carregadas de dívidas tóxicas.  Com a a ajuda da indústria médica, absorve as pessoas doentes e depois as cospe falidas. Com a ajuda das mutretas da educação superior, absorve jovens esperançosos e os cospe como graduados, com títulos sem valor e carregados de montanhas de dívidas com crédito educativo. Com a ajuda do complexo militar industrial, absorve quase tudo e cospe cadáveres, inválidos, danos ambientais, terroristas e instabilidade global, etc.

Mas o buraco negro pode também absover países  inteiros . Agora mesmo está ocupado na tentativa de absorver a Grécia, mas está com dificuldades porque a Grécia é uma democracia. Isso irrita fortemente aos títeres do buraco negro, e começam a clamar por uma “mudança de regime” no país para que se possa obrigar os gregos a capitular antes de que o buraco negro sinta fome.

O buraco negro absorve países inteiros, como veremos. Se o buraco negro não tem o bastante que absorver durante um certo tempo, sente fome e faz com que os mercados financeiros entrem em queda livre. Os mercados financeiros dos países que estão mais distantes dos buraco negro, na periferia, caem mais rápido. Em busca de um “refúgio seguro”, o dinheiro sai desses países e chega aos países do “centro” que se consolidaram firmemente em torno do buraco negro, como os EUA, Alemanha, Japão e mais alguns. O buraco negro engole esse dinheiro, mas então sente mais fome ainda. Mas, já que os países da periferia são demasiadamente débeis para resistir, eles podem facilmente ser transformados em alimentos para o buraco negro. Isso é feito carregando o país com uma dívida externa que ele nunca poderá pagar, e obrigando-o a efetuar continuamente pagamentos por conta dessa dívida, transformando-a em condição para a necessidade de uma corda de salvamento financeiro, manter os bancos abertos, os caixas eletrônicos abastecidos, as luzes acesas, etc.  Para poder realizar esses pagamentos, o país é obrigado a desmantelar sua sociedade e sua economia mediante a imposição de austeridade, da privatização de tudo o que estiver a vista, transformando essa condição como garantia  para mais empréstimos e sacrificar sua soberania para algumas organizações multinacionais, como o FMI e o Banco Central Europeu, que estão diretamente envolvidos nos cuidados e na alimentação do buraco negro.

“Quem é o responsável por tudo isso?” perguntariam vocês. Se tudo o que existe é o buraco negro, as marionetes encarregadas de cuidá-lo e alimentá-lo e suas desventuradas vítimas, quem toma as decisões? Bom, acontece que o buraco negro é sensível. Mas também é muito estúpido, e a maneira de impor suas vontades destruindo a mente de suas marionetes, fazendo com que sejam incapazes de compreender certas coisas. Contudo, a estupidez é uma espada de fio duplo, e ao impor sua vontade desse modo, o buraco negro também frustra seus próprios propósitos.

Por exemplo, há algum tempo o buraco negro deu de cara com um produto bastante grande que ele queria absorver, mas não pôde. Esse produto chama-se Federação Russa. Ela controla um imenso território repleto de todo tipo de recursos naturais que o buraco negro queria transformar em garantias de empréstimo e absorvê-los. O problema é que o país está cheio de russos, que são gente difícil de enfrentar pelas marionetes do buraco negro. Dizem sempre às  marionetes que façam o favor de se manter do outro lado dessa linha vermelha, e se estas não cederem, engatilham suas armas, poupando mais discussão.

Esta situação necessita negociações, mas o buraco negro, que como já disse é muito estúpido, somente tem uma tática de negociação. Faz suas demandas e em seguida espera que o outro lado capitule. Se isso não funciona, aplica pressão: impões sanções, ataca a moeda, complica as transações financeiras, congela os recursos externos do país, etc, e espera que a outra parte capitule. E se isso também não funciona, então o país é bombardeado pela OTAN até ser transformado em escombros, e se a OTAN não quiser, os EUA fazem isso sozinhos. Isso geralmente funciona, mas não no caso da Rússia. Mas, caso lembrem, o buraco é muito estúpido, de forma que continua tentando. Enquanto faz isso, as mentes de suas marionetes se distorcem até um ponto onde já não compreendem mais nada do que está acontecendo.

Por exemplo, todos já sabem que a pressão sobre a Rússia não funciona: segundo a terceira lei de Newton, cada ação produz uma reação igual e contrária, e a Rússia é suficientemente grande para que, se pressionada, absolutamente não se mova. Isso somente leva a que qualquer um que a pressione se prejudique a si mesmo. É como tentar mudar a órbita da Terra pulando de uma cadeira com os joelhos juntos, uma boa tentativa de conseguir atendimento médico. De fato, os russos estão bastante agradecidos pelas sanções, por que agora tem um motivo para finalmente se dedicarem seriamente a investir no desenvolvimento e na autossuficiência interna. Mas as marionetes, com suas mentes distorcidas pelo buraco negro não podem ver isso, de maneira que continuam pressionando e arruinando suas próprias economias ao fazê-lo.

Já que as sanções não funcionam, é hora de experimentar a opção militar. Fazê-lo requer criar um casus belli, uma razão para ir à guerra. O buraco negro faz isso alucinando: a Rússia invadiu a Criméia! Sim, certamente, há alguns séculos atrás, e tem permanecido lá desde então, mais recentemente com base em um acordo internacional. Mas isso não importa! (Ah, nunca foi transformada realmente em parte da Ucrânia porque Nikitga Kruschev se atrapalhou na papelada quando a entregou a ela). Bom, não importa, mas então...Rússia invade a Ucrânia! Todos os dias, mas ela é muito esperta e retira suas tropas antes que alguém consiga tirar uma só foto. Bom, isso tampouco importa, pois então a Rússia está disposta a invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia, e talvez também a Polônia. Invadir como? Vocês querem dizer, algo como tomar um ônibus para o festival musical de Jurmala? Mesmo que isso tivesse sido fato, o festival já terminou e os fanáticos da música já voltaram para casa. Bom, isso tampouco importa, mas as marionetes continuam dizendo “Agressão russa!” vez que outra. São os  danos cerebrais causados pela proximidade do buraco negro. Olhem, por exemplo, esse pobre coitado  que bate seu maxilar inferior repetindo  “Agressão russa! Agressão russa!”, enquanto trata de tranquilizar-se acariciando as ancas de sua imaginária vaca preferida. Deus o ajude. 

De volta ao mundo real, as pobres marionetes são incapazes de compreender que não existe nenhuma opção militar quando se trata da Rússia. Ela é uma potência nuclear com um excelente poder estratégico dissuasivo, um território bem defendido e nenhuma intenção agressiva contra ninguém. Mas as marionetes, com suas mentes distorcidas, não podem compreender, e por isso acumulam diversos tipos de sucata militar ao longo das fronteiras da Rússia, inclusive ameaçando levar à Europa os inteiramente obsoletos mísseis nucleares Pershing de médio alcance. São obsoletos por que os russos tem agora o sistema S-300, que pode derrubar todos. A opção militar simplesmente não vai funcionar, mas não digam isso às marionetes, elas não podem absorver semelhante informação sem sofrer ainda mais danos neurológicos.

Agora, voltemos à Grécia. A pequena Grécia certamente não é a poderosa Rússia, mas apesar disso negou-se a capitular diante das demandas do buraco negro. Exigiram-lhe que arruinasse completamente sua sociedade e sua economia como condição para manter os laços salva-vidas financeiros do FMI e do Banco Central Europeu. Por inconveniente que isso seja para o buraco negro e suas marionetes, a Grécia não é um recôndito país do Terceiro Mundo povoado por pessoas morenas, mas sim uma nação  berço da civilização europeia e da democracia. A Grécia conseguiu eleger um governo que tratou de negociar de boa fé, mas as marionetes não negociam: impõem, ameaçam e causam estragos até conseguirem o que querem, ou até quando suas cabeças explodirem.

Será interessante observar o que acontece. Se o buraco negro conseguir absorver a Grécia, qual será o próximo país a ter a mesma sorte? Itália, Espanha ou Portugal? E enquanto esse processo continuar, em que momento haverá pessoas suficientes para dizer que já basta? Por que, quando as pessoas disserem basta, o buraco negro se encolherá. Não é um verdadeiro buraco negro composto de matéria incrivelmente densa, tão densa que inclusive seu campo gravitacional bloqueia inclusive a luz. É um falso buraco negro, composto pela cobiça acumulada de todos. Ele possui cobiça em seu núcleo e medo no entorno, e se sustenta alimentando-se de medo. Se puder continuar absorvendo pessoas, famílias e países inteiros, pode manter viva a cobiça no seu núcleo, mas se  não conseguir, a cobiça também se transformará em medo e se encolherá até morrer. Espero também que, quando morra, todas suas marionetes com seus cérebros danificados explodam de ira, deem-se conta até que ponto foram enganadas  e se irão encontrar algo útil para fazer, como criar ovelhas, cultivar vegetais ou procurar ostras.

Dmitry Orlov é um engenheiro russo-estadunidense e escrvee sobre temas relacionados con a “potencial decadência e colapso ecológico y político nos EUA”, o que denomina de “crise permanente” http://cluborlov.blogspot.co.uk

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