sábado, 25 de julho de 2015

O Banco Central e a quadratura do círculo

Via GGN

Luis Nassif

Tem-se um quadro complexo pela frente, com inúmeras pedras no meio do caminho do ajuste fiscal.

Pedra 1 – o ajuste é pró-cíclico e politicamente inviável.

Quando a economia está em queda, o ajuste fiscal acelera o tombo de tal maneira que acaba produzindo recessões agudas. Em um quadro de profundo desgaste político do governo, como o atual, à medida que o quadro se agrava, a estabilidade política torna-se cada vez mais distante. O mercado já começa a trabalhar com queda no PIB superior a 2%.

Pedra 2 – a conta econômica do ajuste não fecha.

A combinação de ajuste fiscal com política monetária rigorosíssima não abre nenhuma possibilidade de a conta fechar. A Fazenda está propondo a quadratura do círculo. Cada volta no arrocho provoca uma queda no PIB que derruba a arrecadação em proporção maior do que a economia fiscal pretendida.

Pedra 3 – a conta financeira não fecha.

Ao jogar a Selic nas alturas, o BC promove as seguintes pressões na conta de juros:

·       Impacto sobre a dívida pública, tanto em títulos selicados (que pagam Selic) como na renovação dos títulos pré-fixados, que acompanham as perspectivas de rentabilidade da Selic.

·       Impacto sobre os swaps cambiais, operações em que o BC assume o risco cambial do mercado e arca com o custo financeiro.

·       O diferencial entre o custo da dívida pública e o custo da capitalização do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

Nem que as metas fiscais fossem alcançadas, sem queda no PIB, a conta fecharia.

Mas o BC não para. Na sexta, outro diretor veio a público alertar que há sinais preocupantes no horizonte da inflação recomendando nova alta da Selic, a fim de trazer a inflação para o centro da meta até 2016.

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Trazer uma inflação de mais de 9% para 4,5% em ano e meio significa produzir uma catástrofe na economia real, um desarranjo nas cadeias produtivas, um morticínio nas pequenas e microempresas e um aumento estúpido na taxa de desemprego.

Nos anos 80 e 90, a situação econômica era tão caótica que a população aceitava um pacote radical. Em 2015, embora o quadro fiscal fosse inviável, não se tinha uma situação de desorganização na economia. Ao contrário de outros tempos, tem-se uma sociedade civil organizada, responsabilizando a presidente pela piora progressiva nas condições de vida.

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Todo esse movimento é para que os empresários voltem a acreditar no governo e retomem os investimentos. Investimentos dependem dos seguintes fatores:

1.     Crença no governo: a inflação até poderá ficar na meta. Mas se terá a economia em recessão profunda, metas fiscais no buraco e relação dívida/PIB no espaço.

2.     A recessão promoverá um enorme desarranjo na economia, especialmente nos setores mais frágeis, que são os maiores empregadores. Levará anos para que emprego e salários retornem aos níveis pré-ajuste e estimulem a economia pelo lado do consumo das famílias.

3.     A recessão promoverá uma queda na arrecadação que não será compensada nem por cortes em gastos nem nos investimentos. Não haverá recursos para estimular a demanda pública.

4.     Haverá enorme capacidade ociosa na economia que atrasará investimentos na ampliação de parques industriais e reduzirá interesse nas concessões, já que haverá enorme impacto na movimentação tanto de carga quanto de passageiros.

Conclusão: além de começar a governar, o governo terá que pensar rapidamente uma estratégia alternativa.

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