quinta-feira, 11 de junho de 2015

Punir empresas é punir o PIB. Entrevista exclusiva com J. Carlos de Assis

Sanguessugado do QTMD

O economista e jornalista José Carlos de Assis, doutor em engenharia de produção pela Coppe/UFRJ, hoje professor aposentado, concedeu entrevista exclusiva ao “Quem tem medo da democracia?”. Para ele, um “equívoco no diagnóstico” gerou um “ajuste estúpido”, que nasce não de uma teoria econômica, mas de uma “doutrina que vê o mundo todo pela lógica da moeda”.

Ana Helena Tavares

 

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Entrevista à Ana Helena Tavares,editora do QTMD?

Ele acredita que o ajuste, da forma como está sendo feito, “penalizando, sobretudo, a classe trabalhadora”, não era uma obrigação do governo federal. Poderia ser evitado e aponta um caminho: “A China é a nossa porta de entrada na retomada da economia”, garante.

Mas ele alerta que o atual cenário econômico não pode ser entendido somente à luz do ajuste. Deve-se também levar em conta que a contração do PIB poderá ser muito maior devido à paralisia do Estado causada por distorções na Operação Lava-Jato que, segundo ele, “resolveu fechar empresas em vez de simplesmente punir empresários”.

Autor de mais de 20 livros, dentre eles uma trilogia sobre corrupção na ditadura, lançada na década de 80, fruto de reportagens que lhe renderam o Prêmio Esso de Jornalismo, e prestes a lançar um novo livro que se chamará “Os sete mandamentos do jornalismo investigativo”, J. Carlos critica o trabalho da imprensa no Brasil de hoje.

E comenta que em todas as épocas, todos os países, encontra-se corrupção. Nos EUA, porém, há uma diferença. “Lá rico, por mais corrupto que seja, não vai para a cadeia”, afirma e exemplifica.

AJUSTE FISCAL – O equívoco no diagnóstico

“Eu acho que o ajuste é fruto de um equívoco no diagnóstico. A economia brasileira está numa baixa do ciclo econômico. Ela esgotou o ciclo do crédito e não tem muita alternativa de exportação. A tendência a cair era muito grande. Ficamos estagnados”.

“Algum tipo de ajuste seria necessário, não pelas causas apontadas pela direita e pelos conservadores, mas pelo fato de que a gente tem um déficit em conta corrente (medido pelo resultado das transações com outros países) que chegou a 101 bilhões de dólares (acumulados nos últimos 12 meses)”.

“Com um déficit deste tamanho, mesmo que a gente tenha reservas internacionais de quase 400 milhões de dólares, mas essas reservas boa parte delas são recursos especulativos, que podem sair daqui a qualquer momento, esse déficit é muito elevado. Coloca a economia numa linha de risco muito grande”.

“Isso leva o governo a aumentar a taxa de juros. Na verdade, você não aumenta a taxa de juros por causa da inflação. Isso é meramente um oportunismo. A inflação sobe um pouquinho… Aí o cara usa o pretexto da inflação para aumentar a taxa de juros”.

“Está se aumentando a taxa de juros basicamente para reduzir o déficit em conta corrente. Neste sentido, algum tipo de ajuste seria necessário, principalmente na taxa de câmbio”.

“Não precisavam fazer um ajuste da envergadura que estão fazendo. Uma coisa exagerada. Penalizando, sobretudo, a classe trabalhadora. É um absurdo. Poderiam ter atuado muito mais moderadamente no que diz respeito às tarifas. O que estão fazendo é de uma brutalidade muito grande”.

“E eu estimo que em função dessa brutalidade vá haver uma contração da economia este ano da ordem de 2%. Só pelo ‘ajuste Levy’”.

Punir empresas é punir o PIB

“Como há uma crise jurídica grande, devido à Lava Jato, em que o Ministério Público resolveu fechar empresas em vez de simplesmente punir empresários, castigando empresas e as tirando do mercado, acho que devido a isso vai haver uma contração adicional do PIB (Produto Interno Bruto) de 3%”.

“Como a economia estava em 0%, estagnada, e como essa política provavelmente não mudará, a gente talvez vá ter uma contração esse ano da ordem de 5% do PIB, o que é uma coisa inédita. E com a taxa de desemprego subindo uns 15%. Esse é o cenário no Brasil do ajuste econômico e da Lava Jato”.

Operação Lava-Jato está paralisando o Estado

“As pessoas não estão se dando conta das consequências da Lava-Jato”, preocupa-se o jornalista e economista. “As maiores empresas brasileiras de construção estão desacelerando ou fechando. É um desemprego brutal. E não tem como substituir isso em curto prazo, porque não há segurança empresarial para que estas empresas voltem a trabalhar”.

“Instalou-se uma situação exagerada em matéria de fiscalização das empresas que trabalham para o setor público. Ninguém quer e ninguém pode trabalhar para o setor público. Preferem parar de trabalhar”.

“O Estado brasileiro criou uma situação de paralisia. O Estado está em cheque. Paralítico. Por quê? Porque trabalhar para o Estado hoje é suspeito. O Estado não produz diretamente. Produz através de empresas. As empresas estão sob suspeita, então pára o Estado”.

Corrupção – Imprensa não investiga, Justiça é irresponsável

Autor de diversos livros sobre corrupção na ditadura e premiado por seu trabalho investigativo, o jornalista e economista J. Carlos de Assis critica o trabalho da imprensa atual, lembrando que na ditadura era completamente diferente. “Você trabalhava sozinho. Não tinha Ministério Público nem Polícia Federal para ajudar. Não tinha Justiça. Todo mundo era mais ou menos cúmplice da ditadura”.

“Hoje, o que está acontecendo é o oposto. A imprensa quase não está trabalhando. Está simplesmente reproduzindo o que é feito pelos outros órgãos, seja Ministério Público ou Polícia Federal. Não há investigação propriamente dita por parte da imprensa. A não ser em casos especiais”.

“Em geral, revistas como Veja, Época, IstoÉ são especializadas em pegar informação privilegiada junto à polícia e publicar. Esse é o papel que a imprensa está fazendo”.

“E aí o que acontece é que um órgão como o Ministério Público, de uma forma completamente irresponsável, libera uma quantidade enorme de coisas que não têm provas, que não têm julgamento”.

“É o caso da Lava-Jato, baseada em delação-premiada. Um bandido confesso chega e diz: “Desviei cento e tantos milhões” e vai ter a pena relaxada, passando a ditar os rumos das investigações. E a imprensa vai atrás. Nunca vi isso. Coisa horrorosa. Não tem nada de jornalismo investigativo. Tem mancomunação com a polícia”.

Ditadura X Democracia – Brasil X EUA

Sobre a diferença de percepção existente quanto à corrupção na ditadura e na democracia, J. Carlos diz que isso ocorre porque muitos acham que militar não é corrupto. Mas assegura que em qualquer época e em todo lugar do mundo há corrupção. Ele cita os Estados Unidos, dizendo que “ rico, por mais corrupto que seja, não vai para a cadeia”.

“Lá são feitos acordos com as pessoas. Empresas pagam indenizações e as pessoas são liberadas através disso”. Ele exemplifica: “O Bank of America e o CityGroup foram processados por fraude no mercado imobiliário. Uma fraude gigantesca. Se fossem em cima deles, quebravam os bancos. O que a promotoria fez? Um acordo de leniência. Cada um pagou 20 bilhões de dólares. Já aqui no Brasil querem condenar o empresário e condenar a empresa”.

Participante de diversos movimentos em defesa da Petrobras, o professor usa uma metáfora para explicar que empresa não é pessoa física e que uma pessoa jurídica não tem ficha criminal: “Se você tem uma faca, é um instrumento. Uma empresa também. Se você usar uma faca para matar alguém, a faca não tem culpa. Culpado é quem maneja a faca. O que a empresa pode fazer é pagar alguma indenização. Porque pode ter tido um lucro exorbitante. Vai pagar. Mas fechar empresas e decretar inidoneidade é um absurdo. É quebrar boa parte da engenharia nacional. É o que está acontecendo”.

“O cara fala assim: “Ah, é cartelizado”… Mas isso é no mundo inteiro. A economia americana é a primeira economia cartelizada do mundo. Quem faz encomendas para o Pentágono? São os grandes cartéis das empresas, sobretudo de armas”.

“Todas trabalham com cartéis. Você tem que controlar os cartéis. Criar mecanismos para minimizar os ganhos exagerados que os cartéis têm. Mas querer acabar com o cartel é uma besteira. Você vai acabar com um pedaço da economia brasileira’.

Derrubada do ajuste e do ministro salvaria 2015

Sobre as medidas do ajuste fiscal que atingem diretamente os trabalhadores, como alterações no seguro-desemprego, J. Carlos não vê sentido em fazê-las. E dispara: “Só teria sentido se servisse para desencadear uma reação e o Senado derrubar o ajuste. Coisa que simplesmente não aconteceu. O Senado se acovardou”.

“A única possibilidade que eu via de salvar o ano de 2015 era a derrubada do pacote (de ajuste) no Senado e a consequente saída do Levy (ministro da economia). E fazer uma equipe econômica homogênea, em termos progressistas. Era a única forma de salvar 2015. Agora não tem jeito. Acho que ele vai ser mantido, não vai ter nenhuma situação política que coloque em risco o emprego do Levy nos próximos seis meses”.

Contração do PIB = Desemprego = Ajuste estúpido

“O que vai acontecer, no meu juízo, é o seguinte: no 1º trimestre do ano, você já tem uma contração de 1,6% do PIB em relação ao 1º trimestre do ano passado; no 2º trimestre provavelmente vai para o dobro disso; aí no 3º trimestre, lá para outubro, a situação chegará a tal ponto que talvez o governo tome vergonha na cara e demita o Levy para constituir uma equipe econômica progressista e salvar o país. Porque, no momento, o itinerário é para levar o país a uma contração de 5% do PIB”, prevê.

Provocado com uma frase que a economista Maria da Conceição Tavares disse em entrevista ao jornal O Globo, em 2014 – “Ninguém come PIB, as pessoas comem comida” – J. Carlos de Assis dá um leve sorriso e concorda. Mas pondera: “O PIB, na verdade, é um sinalizador da comida. Por que o que vai acontecer? Se você tem uma contração muito grande do PIB, significa que a taxa de desemprego vai aumentar muito. Vai aumentar sensivelmente. E aí desaparece a comida da mesa do trabalhador, porque não tem renda”.

O economista Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda, em entrevista ao Estadão, em 19 de Março deste ano, pareceu resignado com a situação, ao dizer: “Se o governo não fizer (o ajuste) por bem, o mercado o fará por mal”. J. Carlos de Assis considera que “isso é uma bobagem”. E explica: “O governo tem que ter iniciativa pelo lado do crescimento. Não tem que ter iniciativa só pelo lado da contração da economia. Se você tiver iniciativa pelo lado do crescimento, o mercado vem atrás. Como sempre ocorreu na história do capitalismo. O governo é que abre as oportunidades para o mercado e não o contrário. Essa de dizer que o mercado abre as possibilidades para o Estado ou para a sociedade em geral? Isso não existe! E o que está acontecendo é que mercado e governo estão fazendo um ajuste estúpido”.

O “Chicago Boy” e sua doutrina

Tal ajuste tem à frente o atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Perguntado se Levy merece a alcunha de “Chicago Boy”, que ganhou de alguns, J. Carlos não tergiversa: “Ele é. Estudou lá. Não é nem economista. Nem entende de economia direito. Fez um curso de pós-graduação em Chicago e entende de alguns modelos econômicos, no caso de Chicago, modelos monetaristas. Uma teoria completamente desacreditada que virou uma doutrina. Não é uma teoria econômica. É uma doutrina que vê o mundo todo pela lógica da moeda”.

A saída é pela China

Como salvar a economia brasileira? “Acho que temos grandes possibilidades, que não passam pela linha conservadora. Passam pela linha internacional. Pela capacidade que a gente pode ter de fazer uma grande articulação produtiva com a China”.

“A China está aberta ao acordo estratégico com o Brasil. Através de um acordo com a China na área de produção, e não só na comercialização, a gente poderia ter uma arrancada na produção de bens agrícolas manufaturados”.

“Poderíamos ter também na área de metais. Nós temos vários buracos abertos no processo econômico brasileiro que podem ser fechados, sobretudo na área de metais”.

“A energia elétrica não está barata, mas pode ser! Temos água disponível na região norte! Quer dizer, temos condição de fazer um grande programa de manufaturas na área de metais e na área de bioprodução”.

“Isso está em aberto. Veio o primeiro-ministro chinês aqui (em maio) e o Brasil não se deu conta de fechar imediatamente essa possibilidade. Isso resolveria em curto prazo os problemas de pagamento e partiríamos para uma etapa de retomada do crescimento econômico com velocidade”.

“Nós não temos essa possibilidade pelo lado tradicional: pelo lado americano, pelo lado europeu, pelo lado japonês. Essas economias estão todas estagnadas. Não há nada que possam fazer e nos favorecer. Eles não têm como importar da gente. Estão todos querendo exportar. Essa é que é a verdade. Então, a China é a nossa porta de entrada na retomada da economia”.

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