domingo, 21 de junho de 2015

O Festival de Besteira que Assola o País - Stanislaw Ponte Preta - (Atualíssimo em tempos de Aécio, Malafaia, Cunha, Feliciano e etc..)

Sanguessugado do Cultura, Esporte e Política

 

 

É DIFÍCIL ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco de¬pois da "redentora", cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem "otoridades", sentindo a oportunidade de aparecer, já que a "redentora", entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela do dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo - alguns apontavam dois dedos duros, para ambas as coisas) iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar.

Lembrem-se que notei o alastramento do Festival de Besteira depois que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debilóide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista. Foi um pega-pra-capar e o professor quase penetra pelo cano. Foi preciso que vários pedagogos da região — todos de passado ilibado — se movimentassem em defesa do caluniado, para que ele se livrasse de um IPM.

Mas tais casos, surgidos ainda no primeiro semestre de 1964, foram arrolados no livro "Garoto linha Dura", que antecede este volume na série que se iniciou em 1961 com "Tia Zulmira e Eu" e aumentou nos anos subsequentes com a publicação de "Primo Altamirando e Elas" e "Rosamundo e os Outros". "Garoto linha Dura" apareceu em fins de 1964 e, no ano passado, nenhum livro da série foi publicado. Portanto, as manifestações do Festival de Besteira que Assola o País — FEBEAPÁ, para os íntimos — só aparecem no GLD, quando de suas manifestações iniciais e — no presente volume, que leva seu título como homenagem — estão casos ocorridos no ano passado e no ano corrente de 1966.

O resumo abaixo foi feito na coluna "Fofocalizando", publicada no vespertino "Última Hora", junto com as crônicas que motivaram a série de livros. São apenas tópicos colhidos pela agência informativa "Pretapress" — a maior do mundo, porque nela colaboram todos os leitores de Stanislaw — e aqui relembrados sem a menor preocupação de exaltar este ou aquele membro do FEBEAPÁ. Vão na base da bagunça, para respeitar a atual conjuntura, e sua ordem é apenas cronológica.

O Ministro da (que Deus nos perdoe) Educação, sr. Suplicy de Lacerda, que viria a se tornar um dos mais eminentes membros do Festival, reunia a imprensa para explicar aquilo que o coleguinha Nelson Rodrigues apelidou de óbvio ululante. Disse que ia diminuir os cursos superiores de cinco para quatro anos. E acrescentou: "Agora, os cursos que tinham normalmente cinco anos, passam a ser feitos em quatro". Não é bacaninha?

Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava num programa de televisão e avisava ao público: "Estarei aqui diariamente às terças e quintas" No mesmo dia, aliás, o Governo tomava uma resolução interessante: depois da intervenção em todos os sindicatos, resolvia enviar uma delegação à 16a. Sessão do Conselho de Administração da OIT, em Genebra. O Brasil faria parte, justamente, da Comissão de Liberdade Sindical.

Um time da Alemanha Oriental vinha disputar alguns jogos no Brasil e o Itamaraty distribuiu uma nota avisando que os alemães só jogariam se a partida não tivesse cunho político. "Cunho político" — explicaria depois o próprio Itamaraty, era tocar o hino nacional dos dois países que iriam jogar. Um dia eu vou contar isto aos meus netinhos e os garotos vão comentar: "Esse vovô inventa cada besteira!"

Em Mariana (MG) um delegado de polícia proibiu casais de sentarem juntos na única praça namorável da cidade e baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais. No mesmo Estado, mas em Belo Horizonte, um outro delegado distribuía espiões da polícia pelas arquibancadas dos estádios porque "daqui para frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso".

Era o IV Centenário do Rio e, apesar da penúria, o Governo da Guanabara ia oferecer à plebe ignara o maior bolo do mundo. Sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade, quando soube que o bolo ia ter cinco metros de altura, cinco toneladas, 250 quilos de açúcar, quatro mil ovos e 12 litros de rum: "Bota mais rum".

O Secretário de Segurança de Minas Gerais, um cavalheiro chamado José Monteiro de Castro — grande entusiasta do Festival de Besteira - proibia (já que fevereiro ia entrar) que mulher se apresentasse com pernas de fora em bailes carnavalescos "para impedir que apareçam fantasias que ofendam as Forças Armadas". Como se perna de mulher alguma vez na vida tivesse ofendido as armas de alguém!

Já era fevereiro quando o diretor de Suprimento, em Brasília, proibia a venda de vodca "para combater o comunismo". E Minas continuava fervendo: depois de aparecer um delegado em Ouro Preto que tentou proibir serenata; depois de aparecer um delegado em Mariana proibiu namorar em jardim de praça pública; depois de aparecer um delegado em Belo Horizonte que proibia o beijo (mesmo em estação de trem na hora do trem partir); depois de aparecer, na mesma cidade, uma autoridade que não queria mulher de perna de fora no Carnaval, um juiz de menores proibia as alunas dos colégios de fazer ginástica "porque aula de educação física não é desfile de pernas". Mas impressionante mesmo foi o prefeito de Petrópolis, que baixou uma portaria ditando normas para banhos de mar à fantasia. Eu escrevi prefeito de Petrópolis, cidade serrana do Estado do Rio.

Em Niterói — isto é até pecado, cruzes!!! — numa feira de livros instalada na Praça Martim Afonso, a polícia apreendeu vários exemplares da encíclica papal "Mater et Magistra", sob a alegação de que aquilo era material subversivo. Para representar o mês de março de 65 no Festival, isso é mais do que suficiente.

Abril, mês que marcava o primeiro aniversário da "redentora", marcou também uma bruta espinafração do Juiz Whitaker da Cunha no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, que enviara seis ofícios ao magistrado e, em todos os seis, chamava-o de "meretríssimo". Na sua bronca o juiz dizia que "meretíssimo" vem de mérito e "meretríssimo" vem de uma coisa sem mérito nenhum .

Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta, à circular: "Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas."

Ainda na faixa do nordeste: um telegrama informava que, para não morrerem de fome, os retirantes nordestinos estavam comendo formiga saúva. Isto bastou para que vários jornais consultassem nutrólogos, tendo eles afirmado que, de fato, a formiga apresentava qualidades nutritivas. Era uma temeridade tal afirmação, pois isto talvez fosse o bastante para que tirassem a formiga da boca do nordestino.

Uma das mais belas manifestações do Festival, entretanto, estava reservada para o mês de maio. Eis a solução encontrada pelos técnicos do Governo para o pagamento dos novos aluguéis. Simplíssimo: no caso de aluguéis que não sofreram aumento porque o inquilino já pagava a mais do que a majoração autorizada pela lei, a pessoa deve subtrair do aluguel vigente o aluguel que teria de pagar por lei e multiplicar a diferença encontrada por 1,079, que dará "X". Depois multiplica o aluguel que seria o corrigido pela lei, por 1,17235 conforme manda a tabela, obtendo o resultado "Y" da terceira operação. A soma de "X"e "Y" é igual ao novo aluguel a pagar.

As besteiras andando soltas pela aí provocaram — como era justo se esperar — mau exemplo em todo o interior. No nordeste de Minas a cidade de Itaboim, que fica à beira da estrada Rio-Bahia, viria para o noticiário depois que o prefeito local plantou lindas e tenras palmeiras para enfeitar a estrada, e a Oposição — com inveja — soltou 100 cabritos de madrugada, que jantaram as palmeiras.

Em Fortaleza um colunista político, irritado com as bandalheiras dos vereadores em nome da liberdade, escreveu em sua coluna que metade da Câmara era composta de ladrões. No dia seguinte saiu fumacinha e fizeram ameaças ao colunista se ele não desmentisse. Ele, em vez de desmentir, ratificou e ninguém percebeu, pois deu uma segunda notícia, dizendo que havia uma metade na Câmara de Vereadores que não era composta de ladrões.

Chovia muito em maio e os sonegadores do leite estavam em plena sonegação sem a menor punição. Houve um cavalheiro, presidente da CCPL e da Cia. Fluminense de Laticínios que veio a público para explicar que, com chuva, as vacas dão menos leite. O interessante é que a Holanda é uma super-produtora de leite, lá chove três quartos do ano, e as vacas não encolhem. Mas isto é um detalhe sem importância, que não iria barrar a trajetória vitoriosa do Festival de Besteira que Assola o País.

Em Recife, quem tocasse buzina na zona considerada de silêncio, pagava uma multa de Cr$ 200. O deputado estadual Alcides Teixeira sabia disso mas distraiu-se e tocou. Imediatamente apareceu um guarda e multou-o. Alcides deu uma nota de Cr$ 1.000 para pagar os 200 e o guarda informou-o de que não tinha troco. O deputado quebrou o galho: deu mais quatro buzinadas na zona de silêncio, ficou quite com a Justiça e foi embora.

Era lançada a peça "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que teve uma publicidade impagável (nos dois sentidos) organizada pela linha dura. Agentes de uma sociedade terrorista tentaram tumultuar o espetáculo e o promoveram de tal maneira que "Liberdade, Liberdade" está em cartaz há quase dois anos; um recorde nacional, graças ao Festival.

Até o DASP, repartição criada para cuidar dos quadros de servidores da Nação, consumindo para isso bilhões de cruzeiros anualmente, nomeava para a coletoria de São Bento do Sul dois funcionários que já tinham morrido há anos. Em compensação, para chefiar seus próprios serviços em Santa Catarina, o DASP nomeava um coitado que estava aposentado há três anos, internado num hospício de Florianópolis.

Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica "Electra", tendo comparecido ao local alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a.C. Era junho e o pensador católico Tristão de Ataíde, o mesmo Alceu de Amoroso lima, uma das personalidades mais festejadas da cultura brasileira, chegava à mesma conclusão da flor dos Ponte Preta em relação à burrice reinante, ao declarar, numa conferência: "A maior inflação nacional é de estupidez".

FEBEAPÁ 1 (Primeiro Festival de Besteira que Assola o País) (1966)

Um comentário:

  1. Ué, naquele tempo políticos não diziam ou faziam besteiras ? vamos lá: numa cidade do interior paulista, provavelmente Bauru, um conhecido vereador ( conhecido pela sua escassa inteligência ) solicitou água encanada para um bairro afastado. A secretaria de obras informou-lhe que isso seria impossível devido à lei da gravidade, já que o bairro se situava na parte alta da cidade. Então o vereador retrucou entrando na câmara municipal com um pedido de revogação dessa lei. O mesmo vereador se referiu ao então conhecido Bar OK como Bar zero quilômetro.

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