quinta-feira, 25 de junho de 2015

“Esta pseudo esquerda europeia é outra tragédia”

Via O Diário.info

Entrevista com James Petras

«É uma vergonha que todo este movimento de indignados, de desempregados esteja, antes de tudo encabeçado pela classe média ressentida que quer voltar a recuperar o que perdeu com a crise e a austeridade.»

Efraín Chury Iribarne: Bons dias, Petras. ¿Como estás?
James Petras: Estamos bem, disfrutando o verão, disfrutando o bom tempo e simpatizando com os residentes do Uruguai que estão passando frio, mas também o regresso à luta, quero solidarizar-me com a greve que os sindicatos anunciaram, os funcionários públicos. É um grande salto em frente desmascarando o governo supostamente progressista. ¡Saudações aos trabalhadores e vamos adiante!

EChI: Muito bem Petras. Poderíamos começar por fazer o ponto da informação respeitante a este corrupio de reuniões e esta espécie de perseguição desencadeada na Grécia pela União Europeia. ¿Em que ponto está tudo neste momento?
JP: Infelizmente podemos dizer que o governante (Alexis) Tsipras, o Primeiro-ministro, continua tratando de conseguir um acordo que sacrifique as reivindicações populares. É simplesmente um governo que não assumiu uma posição consequente, não rejeitou a dívida, está ainda na onda de procurar algumas mudanças regressivas para satisfazer os agentes da União Europeia. Mas eles estão actuando precisamente em defesa dos interesses dos banqueiros, querem apertar a Grécia ao máximo, estão a actuando com muito classismo e o governo não quer reconhecer que estas negociações são uma luta de classes. Onde as classes dominantes na Europa Ocidental, França, Alemanha, Inglaterra, Holanda, todos estão procurando derrotar o governo, desprestigiá-lo e avançar mais sobre a repressão económica.
O grande tema é o fracasso destes novos partidos. Poderemos vê-lo em Espanha também. Estive a ler uma entrevista com a nova presidente do município de Madrid, a Sra. Manuela Carmena, renunciando e renegando todas as medidas de emergência. Inclusivamente nomeando ex. figuras de Aznar, como os principais funcionários no gabinete municipal.
É uma vergonha que todo este movimento de indignados, de desempregados esteja, antes de tudo encabeçado pela classe média ressentida que quer voltar a recuperar o que perdeu com a crise e a austeridade. Mas não tem qualquer intenção de apoiar as reivindicações populares e está disposta a sacrificar, ou pelo menos não rectificar, os retrocessos.
Isso é o que está sucedendo na Grécia. Tsipras diz que não vamos baixar mais as pensões mas 3/4 dos pensionistas estão já abaixo da linha da pobreza.
O problema, o tema de eleger este governo é reverter esta tendência, não mantê-la e simplesmente defender o mau que existe contra o pior.
A política da Grécia está num beco onde el governo prepara uma capitulação, e essa é a preocupação, que em algum momento vão dizer que não temos dinheiro, o tesouro está vazio, enfrentamos uma catástrofe, é muito mau aquilo que estão a pedir ao governo, mas de uma maneira ou outra temos que chegar a acordo.
Quando chegaram ao governo existiam mais de U$S 50.000 milhões no tesouro, nos bancos, nos depósitos, e começam a pagar a dívida. Começaram a provocar a saída de depósitos chegando a 1.000 milhões por cada dia. Uma vez que seguiam este caminho, pouco a pouco a situação económica deteriorava-se.
E se eles tivessem tomado medidas no primeiro momento tinham recursos, podiam recusar a dívida, podiam impor uma moratória, tinham recursos ao chegar ao governo. E agora faltam recursos porque continuaram 5 meses a perder recursos e agora enfrentam o vazio do Tesouro, parece que não conseguiram nenhuma concessão por parte da direita e estão agora numa situação muito debilitada para se lançarem, nem têm impressora para imprimir uma nova moeda e renunciar ao Euro.
Não, não, desarmaram e desbarataram todos os recursos que tinham, e agora ficam com as mãos vazias sem qualquer alternativa. Tarde ou cedo vão capitular. E isso é tudo teatro, que Tsipras grite “Não vamos capitular…” Já capitularam em 90%, o que resta são os últimos 10% para receber outro empréstimo e prosseguir esta linha regressiva.
Toda a esquerda apresenta Tsipras como vítima, que a Grécia é vítima, mas Tsipras é o entreguista que facilitou a pilhagem por parte da União Europeia.

EChI: Petras, já que estou nessa região fico em Espanha por um momento. ¿Que leitura se pode fazer de Espanha em matéria política e do próximo futuro?
JP: A única luz verde que vejo está no País Basco onde os nacionalistas de esquerda montaram uma enorme campanha progressiva para a independência, uma política alternativa.
Entretanto todos, com alguma rara excepção, os candidatos que apoiaram o Podemos e os grupos supostamente novos, assinaram acordos com o corrupto Partido Socialista. No caso de Madrid, a alcaldesa assinou pactos com a ultradireita, diz que vai colaborar com Rajoy. Um desastre total esta situação, onde o eleitorado pensava que apoiando o Podemos tinha uma alternativa, mas acabaram pactuando com o PSOE, terminam com uma organização super centralizada que utiliza a radicalidade retórica horizontal enquanto um punhado de académicos que dirigem o Podemos tomam todas as decisões. É uma leitura mais que muita gente fez sobre a Espanha.
A função principal que Podemos cumpriu foi marginalizar completamente a esquerda tradicional. Inclusivamente a esquerda alternativa, o Partido Comunista, pactuaram com o Podemos, apoiaram esta direitista para alcaldesa de Madrid.
É outra tragedia. Podemos, Syriza, o 5 Estrelas, toda esta pseudo-esquerda. Esquerda que não é esquerda. Cumprem um encargo de muitas iniciativas e posturas radicais mas quando chegam a decisões estratégicas fracassam, colaboram e deixam o povo sem alternativa.

EChI: Regresso a América, Petras, outra vez o tema Petrobras no Brasil, o que fazem é descobrir fraudes cada vez maiores. ¿Como põe isso o cenário brasileiro? ¿Como deixa o PT, por exemplo?

JP: Bom, há 10 anos eu tinha uma relação muito estreita ali com o Movimento Sem Terra e eles seguiam uma táctica de apoiar o PT. O PT era corrupto desde meados dos ‘90 quando fui a um Congresso em que eles votaram a favor de receber financiamento dos empreiteiros. Recordo o debate no PT, um sector dizia que não, que era uma influência nefasta, pode comprometer e comprometer, mas Lula e a sua equipa diziam que não, que necessitavam de financiadores.
Então, tem uma larga trajectória, começaram simplesmente pensando em financiar campanhas e terminaram corruptos, nomeando corruptos desde pequenas fraudes de 1.000 ou 2 milhões de reais, terminando com fraudes multimilionárias. E isso é uma cosa grande, porque agora não têm nenhuma legitimidade, estão mal vistos pela grande maioria das pessoas e começam agora a tomar medidas mais direitistas, todas implicando a chefia.
Eu pessoalmente não creio nada que Lula não sabia, que Dilma não sabia, que todos os funcionários em redor deles estão a encher os bolsos e eles não sabem nada.
Ou são completamente idiotas ou sabem muito mais do que estão revelando.

EChI: Petras, a Argentina encaminha-se para novas eleições. ¿Como vês a Argentina nesta perspectiva de uma nova consulta popular e como vês o país?
JP: A Argentina passa um processo de 15 anos com a quebra em 2001, o levantamento popular, a radicalização, a crise, a quebra, o desemprego. Depois, sem direcção, todas as massas se radicalizaram, deram a volta, apoiaram Kirchner. E Kirchner era um equilibrista apoiando algumas reformas para melhorar as condições, aproveitando a moratória da dívida, o apoio contra a impunidade, etc. Uma influencia entre as massas radicalizadas, o capitalismo que procura recuperar a sua força.
Nos primeiros anos tudo pôde manter-se num equilíbrio instável, as classes populares melhoram as suas condições, aumentaram os salários, mas também a direita se recuperou da crise, começou a pressionar o governo. E terminamos agora com a direita emergente, como principal protagonista, com alguns esquerdistas formando grupos ou tratando de se reagrupar como alternativa.
Mas os principais candidatos são Scioli pelos kirchneristas, Macri pela direita e uma colecção de outros políticos direitistas pelos outros. O processo, que começou radicalizado em 2001, em 2003 mudou-se para o centro esquerda e agora estamos em marcha em direcção ao centro direita e à direita dura.
A dinâmica da luta de classes não se detém num momento, se não aproveita esse momento de alta tensão, perde a sua oportunidade histórica. Agora parece que a direita vai recuperar posições de força mas vão enfrentar uma renovação da luta de classes, porque obviamente as medidas que vão a implementar vão prejudicar as classes populares e tudo o mais.
Então, eu não creio que o futuro imediato da Argentina seja positivo. As eleições ontem em Mendoza mostram que a direita tem muita força, ganhou o governador com uma maioria absoluta. A esquerda fraca, os kirchneristas ganham em Tierra del Fuego mas com resultados dispersos, têm que ir a segunda volta.
Em Buenos Aires algo parecido, na cidade de Buenos Aires Macri e a ultra direita continuam sendo fortes. Estamos num período de transição no sentido de uma direitização.
O mesmo em Uruguai e Brasil, há uma vaga direitista avançando com diferentes fisionomias. A direitização no Uruguai passa pelo que era o movimento progressista. Quer dizer, não regressam os brancos e os colorados mas regressa a sua política a partir do Frente Amplio com Astori, com Tabaré Vázquez e este grupo de pessoas que são, creio eu, em algum sentido mais reaccionários que os brancos. Porque pensam que poderiam dirigir com estabilidade a partir de influências que têm na engrenagem do partido, o PIT-CNT.
Mas as pressões no Uruguai vão crescer. Entramos numa fase de intensificação da luta de classes. E isso vai passar-se mais tarde na Argentina e no Brasil, esta viragem à direita. Tem uma virtude, vai a voltar a provocar a lucha de classes porque não se podem aguentar os ajustamentos, as medidas regressivas. Mesmo que a luta de classes passe apenas por melhores salários, a proposta do governo são os recortes orçamentais e isso no Uruguai, e é o que devemos esperar no Brasil e Argentina.
Então, Tabaré e Astori estão abrindo caminho para a direitização no cone sul.

EChI: Petras, como sempre deixo-te com alguns dos temas que estejas trabalhando neste momento.
JP: Bom, aqui a coisa mais importante são as noticias sobre o massacre na Carolina do Sul, onde um racista matou 9 assistentes na igreja. Há muita agitação na comunidade agora, há muitas denúncias do verdugo, do assassino. Mas para além disso, a política geral está a favor deste massacrador. Poderíamos dizer, por exemplo, que a bandeira esclavagista ainda está no capitólio da Carolina del Sul, não baixaram a bandeira esclavagista, esse é um símbolo do racismo máximo e os governadores rejeitaram exigências nesse sentido.
E os líderes pequeno burgueses estão pedindo rezas em vez de lutas; pedem para se rezar nas igrejas, que brancos e negros juntos dêem as mãos, canções e tudo o mais, mas não há uma força que diga que o racismo tem raízes sistémicas e rezar é uma cosa que não tem nada que ver com a lucha para mudar o sistema, os governos, nem baixar a bandeira racista que está no capitólio.
Então, todas as lágrimas e os consolos que os governantes estão dando é toda uma farsa porque por baixo continua a mesma cosa. No outro dia estávamos lendo sobre outro assassínio por parte da policia em outra cidade, em Chicago, Nova Iorque.
Então, as denuncias do verdugo são uma coisa, mas detrás do verdugo há todo um sistema racista, inclusivamente racismo simbólico. E, para além disso, ¿onde estão as agencias de segurança nacional que gastam milhares e milhões, que têm cem mil funcionários e não estão vigiando os sítios web dos racistas onde mostram todas as suas armas, preconceitos e todas as suas mensagens de ódio? ¿Porque não tinha a policia federal um arquivo sobre o verdugo, porque aparece em sítios web, aparece com declarações racistas?
Não, não, a policia federal apenas procura implicar negros, muçulmanos e latinos em algum acto de terrorismo em vez de vigiar os brancos racistas.
Toda esta máquina multimilionária, todos os funcionários de segurança fracassam porque não lhes interessam os racistas, sentem-se identificados com os brancos. Apenas se preocupam em servir Israel e perseguir os apoiantes da Síria, apoiantes dos palestinos. E por isso fracassaram e permitiram a este assassino cometer as suas atrocidades.
¿E se este assassino, este verdugo massacra uns negros numa igreja, que dizemos sobre o presidente norte-americano que manda cada dia estes drones que matam e massacram famílias inteiras em toda a parte do Médio Oriente? O massacrador de pequena escala está condenado mas os massacradores no Médio Oriente continuam sendo “vítimas do terrorismo”. Não, não, é pouco séria toda esta farsa que estão montando.
E por último quero comentar as últimas declarações do Papa Francisco, denunciou os governantes na União Europeia porque tratam os imigrantes como mercadorias e continua denunciando os capitalistas pelos efeitos que têm sobre o clima. O Papa, no caso do Uruguai, o Papa está na esquerda extraparlamentar, não se enquadra no Frente Amplio porque tem posições mais consequentes, mais críticas em relação ao capitalismo como sistema de exploração, como explorador de químicas agrónomas. O Papa poderia ser um candidato da esquerda consequente no Uruguai e outras partes da América Latina porque segue o que são os interesses populares. Ou seja, os imigrantes, os trabalhadores do campo que sofrem os prejuízos químicos, pode ser o trabalhador que pede um salario digno como vimos ultimamente os docentes em Montevideo.
Nesse sentido devemos apoiar o Papa, não incondicionalmente mas devemos reconhecer que é parte desta luta popular em que estamos envolvidos.

EChI: Muito bem, Petras, de Montevideo te agradeço todas estas análises e voltamos a encontrar-nos na próxima segunda-feira.
JP: Bom, muito obrigado pelo convite. Quero repetir outra vez que estou solidário com os trabalhadores e lutadores no Uruguai que começam a procurar uma mudança na política orçamental do governo.

Esta entrevista encontra-se em: http://www.ivoox.com/james-petras-22-06-15-audios-mp3_rf_4672711_1.html

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