terça-feira, 12 de maio de 2015

O Divino Plágio

Sanguessugado do Bourdoukan

Georges Bourdoukan

A Divina Comédia de Dante Alighieri, quem diria, é um plágio. Foram necessários quase seiscentos anos para que isso fosse descoberto e a revelação viesse a público. Talvez este tenha sido o mais longo e fascinante plágio de que se tem notícia. O autor da façanha foi um dos maiores eruditos europeus do fim do século 19 e inícios do 20, o professor e arabista espanhol Miguel Asin Palácios, cuja obra La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, publicada 1919, despertou enorme inquietação e uma viva polêmica.

E muita indignação dos italianos que tudo fizeram para que ela não fosse editada na Itália.

A obra, que até hoje é ignorada no Brasil, está dividida em 4 capítulos, com 33 subdivisões e mais de 100 intertítulos. A que está em meu poder é uma segunda edição, com 611 páginas - 468 sobre o plágio e 143 sobre a repercussão e, naturalmente, a polêmica.

O professor Asin Palácios, que era membro da Real Academia Espanhola, não satisfeito em demonstrar as semelhanças entre os textos de A Divina Comédia e dos autores muçulmanos, ainda se deu ao luxo de transcrevê-los e compará-los, quando necessário, em latim, espanhol e árabe. Além desse perfeccionismo, ele explica como os textos islâmicos teriam chegado até Dante. Outro trabalho de pesquisa primoroso mostra como aconteceu a absorção do Islam pela Europa Cristã. E mais: com minúcias, descreve as estreitas analogias entre Dante e o sufista cordobês Ibn Masara, para concluir que A Divina Comédia é na verdade uma compilação de textos dos místicos e filósofos muçulmanos e não “uma genial fantasia criadora de Dante”. Ou “um monumento solitário em meio dos desertos medievais”, como gostam de se referir a ela os cultores das orelhas de livros.

Outro ponto fascinante da obra é o que diz respeito à polêmica. São dezenas de argumentos e contra-argumentos, envolvendo os maiores eruditos europeus da época, que desfilam um saber raramente visto nos dias atuais. É uma obra de leitura difícil. Exige um mínimo de conhecimento do Alcorão e de autores islâmicos como Ibn Masara, Ibn Arabi, Ibn Al Muqqafa, Al Ghazali, Qazwini, Al Jahiz, Damiri, Abu Bakr Ibn Abu ad-Dunya, Abdallah Ibn Dinar, Abd-Ar-Rahman Ibn Said Aslam. Isto, para citar os mais conhecidos.

As “semelhanças” são totais. Ali se encontram o mesmo inferno, o mesmo paraíso e até as viagens. A ascensão de Dante e Beatriz, por exemplo, através das esferas do Paraíso, é uma cópia literal da ascensão alegórica de um místico e de um filósofo que se lê em Futuhat, obra do grande sufista murciano Ibn Arabi.

E para que não paire nenhuma dúvida sobre sua infatigável pesquisa, Asin Palácios não satisfeito em reconstituir os passos percorridos por Dante em busca da “inspiração”, cita ainda os tradutores do árabe para o latim, francês e espanhol das obras dos filósofos muçulmanos, a data em que aquelas traduções teriam ocorrido e a pedido de quem. A tradução para o castelhano, por exemplo, foi feita pelo médico do rei Afonso, o Sábio, Abraham Alfaquim, a pedido do próprio rei. A tradução para o latim foi feita por Bonaventura de Siena.

De qualquer forma e independentemente do fato de A Divina Comédia ser um plágio, nem por isso o nome de Dante Alighieri deve ser atirado ao limbo. Não deixa de ser positivo em plena Idade das Trevas, alguém utilizar textos islâmicos. O que deve ter irritado o professor Asin Palácios, profundo conhecedor da literatura árabe, é a insistência de alguns considerarem A Divina Comédia como uma “obra original”. O que confirma mais uma vez que tudo aquilo que chamamos de original é, na verdade, produto direto de nossa ignorância. Insisto. La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, não é uma obra fácil e não pode ser lida de forma burocrática. É uma obra para ser lida, relida e estudada. Com certeza o leitor ficará, além do mais, deslumbrado com as revelações contidas nas entrelinhas que os místicos muçulmanos nos legaram.

A propósito, o professor, erudito, arabista e membro da Real Academia Espanhola Miguel Asin Palácios era padre.

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