domingo, 17 de maio de 2015

Jornalista legendário afirma que versão conhecida da morte de Bin Laden é falsa

Via Esquerda.net

Seymour Hersh afirma que o líder da Al Qaeda estava em prisão domiciliar desde 2006, que a espionagem paquistanesa não só sabia como colaborou com a operação, e que não houve qualquer tiroteio no complexo de Abbottabad.

 

Seymour Hersh pode demorar um ano a preparar uma reportagem, mas, quando a escreve, seguramente terá uma enorme repercussão. Foto de Institute for Policy Studies. Licensed under CC BY 2.0 via Wikimedia Commons

A Casa Branca recusou-se até agora a comentar oficialmente a reportagem-bomba do veterano e premiado jornalista Seymour Hersh que afirma que é falsa toda a história da operação que levou à morte de Osama bin Laden, publicitada pela administração Obama.

Uma das poucas coisas corretas nesta versão é que Bin Laden foi morto pela operação das forças especiais da Marinha dos EUA em 1 de maio de 2011. Mas tudo o resto, sustenta o jornalista, poderia ter sido escrito por Lewis Carrol, autor de “Alice no País das Maravilhas”. Isso significa que o presidente Barack Obama mentiu quando, poucas horas depois da operação, se dirigiu à Nação dando conta da morte do “Terrorista nº 1”.

A versão oficial da morte de Bin Laden poderia ter sido escrita por Lewis Carrol, autor de “Alice no País das Maravilhas”.

A reportagem do veterano jornalista, publicada na London Review of Books, sustenta, em resumo, que:

É falso que a CIA tenha descoberto o paradeiro de Bin Laden por ter seguido um correio pessoal do líder da Al Qaeda. O tal correio é um personagem de fantasia. Os EUA descobriram o paradeiro de Bin Laden porque um agente dos serviços secretos do Paquistão procurou a CIA na embaixada dos EUA em Islamabad e se ofereceu para revelar o paradeiro do líder da Al Qaeda em troca da recompensa de 25 milhões de dólares que os EUA ofereciam.

É falso que Bin Laden morava num complexo em Abbottabad, muito perto de uma Academia Militar do Exército do Paquistão, sem que as autoridades paquistanesas tivessem disso conhecimento. Pelo contrário, Bin Laden, suas mulheres e filhos estavam de facto em prisão domiciliar, à disposição da poderosa ISI (Inter-Services Intelligence agency, ou agência de Informações Inter-Serviços) paquistanesa desde 2006.

É falso que os Estados Unidos só tenham avisado as autoridades paquistanesas depois de terminada a operação, quando os helicópteros dos Navy Seals já estavam fora do território paquistanês. A operação foi feita com o pleno conhecimento do ISI, que forneceu todas as informações e enviou até um oficial de ligação do ISI que acompanhou toda a operação e conduziu os operacionais norte-americanos no complexo de betão.

É falso que tenha havido tiroteio. Para além dos tiros que mataram Bin Laden, não houve mais qualquer disparo. A segurança do líder da Al Qaeda, toda composta por agentes paquistaneses, abandonou o local antes do início da operação.

O suposto “enterro em alto-mar” do corpo de Bin Laden a partir do porta-aviões Carl Vinson é uma fantasia totalmente inventada. Segundo a reportagem, o corpo terá sido esquartejado e partes lançadas sobre as montanhas do Paquistão, do alto de um dos helicópteros que levou de volta os operacionais.

Não houve a apreensão de computadores e documentos no complexo que teriam sido fundamentais para impedir ações da Al Qaeda. A informação foi anunciada para dar a impressão de que Bin Laden ainda tinha muita influência nas ações da Al Qaeda, quando na verdade o saudita estava muito debilitado fisicamente e não mandava mais nada.

A intenção inicial, explica Hersh, não era que Obama assumisse a realização da operação, pois inevitavelmente levantaria suspeitas sobre a colaboração da espionagem paquistanesa, o que a ISI queria em absoluto evitar, para não arranjar problemas com os partidários e simpatizantes de Bin Laden. Aliás, a ISI só aceitou entregar o líder da Al Qaeda aos seus algozes devido à chantagem da administração Obama, que cortou o apoio financeiro entregue atualmente às forças armadas paquistanesas e à sua espionagem. A intenção era anunciar posteriormente que Bin Laden fora morto por um ataque de drone nas montanhas do Afeganistão.

O que correu mal

O que fez Obama mudar de ideias foi o desastre ocorrido durante a ação, quando um dos dois helicópteros que levaram as forças especiais caiu, incendiando-se e deixando alguns militares feridos. Numa cidade mergulhada nas trevas, já que os paquistaneses tinham cortado a energia elétrica, o incêndio do helicóptero não deixaria de levantar suspeitas. Além disso, a operação acabou por demorar muito mais tempo, já que em vez de se retirarem no único helicóptero que ficara operacional, o comando dos Navy Seals decidiu esperar por um helicóptero de transporte que aguardava fora das fronteiras do Paquistão. Era inevitável, considerou Obama e os seus assessores próximos, que informações sobre a operação acabariam por chegar ao público, divulgadas eventualmente por fontes paquistanesas.

Numa cidade mergulhada nas trevas, já que os paquistaneses tinham cortado a energia elétrica, o incêndio do helicóptero não deixaria de levantar suspeitas.

Começou então uma nova operação, a de cobertura. Obama foi à TV apresentar uma versão fantasiosa da ação e aproveitar a glória de ser o presidente que ordenou a liquidação do cérebro do 11 de setembro.

Mas logo começaram as contradições. O cadáver de Bin Laden já fora esquartejado e partes atiradas sobre as montanhas do Afeganistão a partir do helicóptero. Como era inevitável que os jornalistas perguntassem pelo corpo, alguém da Marinha teve a ideia de inventar o famoso funeral “islâmico” a partir do porta-aviões Carl Vinson.

Segundo Seymour, o então secretário da Defesa Robert Gates opôs-se a essa estratégia, insistindo que os acordos feitos com os paquistaneses deviam ser respeitados. Mas foi voto vencido.

Polémica

Aos 78 anos, Seymour Hersh é uma lenda do jornalismo investigativo norte-americano. Pode demorar um ano ou mais para fazer uma reportagem, mas quando a publica causa necessariamente um enorme impacto. Só para citar alguns exemplos, foi dele a revelação do massacre de My Lai, no Vietname, em novembro de 1969, que lhe valeu o prémio Pulitzer de 1970. Mais recentemente, foi ele o autor de uma série de reportagens que revelaram o uso de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

A reportagem “O assassinato de Osama bin Laden” tem sido muito atacada por fontes da Casa Branca, e também por alguns jornalistas que foram os maiores propagandistas da versão oficial, como é o caso de Peter Bergen, analista de segurança nacional da rede de TV CNN. “Não digo que nada existe no artigo de 10 mil palavras que não seja verdade, mas posso dizer que o que é verdade não é novo, e o que é novo não é verdade”, disse.

Hersh rebateu as críticas, dizendo que inacreditável é a versão do governo americano: “Vinte e quatro ou 25 homens vão para o meio do Paquistão e matam um fulano sem apoio aéreo, sem proteção, sem segurança, sem obstáculos – estão a brincar comigo?", disse. “Veja bem, desculpe-me se [a minha teoria] vai contra a corrente, mas tenho feito isso a vida inteira, e tudo que posso dizer é que entendo as consequências.”

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