terça-feira, 26 de maio de 2015

As migrações não caem do céu

Via O Diário.info

Fernando Buen Abad Domínguez

A burguesia derrama lágrimas de crocodilo pelos mortos no Mediterrâneo. Finge ignorar que os principais responsáveis por essas mortes são o capitalismo e o imperialismo, as suas agressões militares, a exploração desenfreada, o bárbaro saque que prosseguem das riquezas e dos recursos dos países de onde fogem esses migrantes.

Urge a unidade Sul-Sul

Todos os dias milhões de pessoas expulsas das suas terras por variadas e intermináveis razões vão, condenados pelo capitalismo, em busca de migalhas laborais e de esmolas políticas. Vão com a sua descomunal carga de miséria planetária aos ombros e com a esperança de que a sorte os acompanhe para que não morram na tentativa. Na Alemanha, em Itália, em França, em Espanha… e nos EUA, por exemplo, políticos, clérigos e empresários reúnem-se para ensaiar gestos de perplexidade e consternação. Aplaudem-se entre si, dão palmas nas costas, reúnem algumas dádivas e regressam satisfeitos ao sonho uterino mass media com suas câmaras e os seus microfones treinados em inocular um pouco de tranquilidade aos seus chefes bancários e aos seus pares empresários. “Já foram tomadas as medidas pertinentes para atender a esta emergência”.

Em um sector nada pequeno da burguesia planetária vive a ideia de que a “Gente que Faz”, quer dizer a que é realmente útil e produtiva, é aquela que “faz” negócios, que acumula propriedades e que “faz” dinheiro. Dizem-no sem se engasgar em público e em privado, é uma convicção enraizada e é um pilar da ideologia dominante. Todos os demais são um lastro, são um estorvo ou são inimigos do “fazer”. E custam caro. Em Espanha já se organiza a rapaziada enamorada da limpeza… étnica. Na Argentina a direita conta com poucos, estão emocionados.

Esse sector sente e crê que o mundo foi feito por eles e para eles, é o seu mundo. Sentem e crêem que tudo o que os “outros” fazem e exigem é um abuso, um furto, um parasitismo da maioria que não só exerce de lastro como desfeia torna perigosa a “paisagem”. Consola-se a burguesia mirando-se no espelho de uma arrogante ideologia baseada na exclusão e no desprezo. É a irracionalidade funcional da propriedade privada.

A tal ponto chega a petulância e o engano que se convencem a si mesmos - e a outros - de que o Trabalho são eles, de que são eles quem mais trabalha e que sua “missão salvífica” é “dar trabalho” aos “mais necessitados”. Vão à missa, comem a hóstia e sentem-se bons. Depois não sabem explicar a si próprios como há gente que abandona os seus países para ir padecer, como imigrante, as injustiças que isso trás consigo. ¡Não conseguem explicá-lo!

Fica debaixo do tapete do cenário histórico oligarca, escondido com vassouras ideológicas, militares e policiais, o horror do saque, a monstruosidade do despojo e desde logo o fluxo de lucros que transita de um país saqueado para os bancos dos paraísos “centrais” onde a “tele” exibe estupefacta toda essa gente empoleirada em barcos tratando de colar-se ao “primeiro mundo”. O burguês assusta-se, sente-se encurralado, não quer tanto pobre próximo dos seus bairros e toma decisões nazi-fascistas disfarçadas de filantropia.

Entretanto o saque não cessa nem na Líbia, nem no Iraque. Tão-pouco cessa a escravatura e o despojo em África nem na India, nem na China. Nem no México nem na América Central… “Nos anos 60 do século passado, em pleno processo descolonizador, a África exportava alimentos à razão de 1,3 milhões de toneladas anuais. Na actualidade, a África tem que importar 25% dos alimentos que consome, enquanto as mortes por fome são algo de corrente.”…“E os lucros destas empresas são exorbitantes. Temos uns dados de 2007: ― Cargill aumentou os seus lucros 36 por cento; ADM, 67 por cento; ConAgra, 30 por cento; Bunge, 49 por cento; Dreyfus, 77 por cento, no último trimestre de 2007. Monsanto obteve 44 por cento mais do que em 2006 e Dupont-Pioneer 19 por cento. ”… “ ― Liderando o saque internacional de negócios agrícolas africanos encontram-se bancos de investimento, fundos de cobertura, comerciantes de matérias-primas e fundos soberanos que entesouram riqueza, bem como fundos de pensões britânicos, e fundações e indivíduos atraídos por obter algo da terra mais barata do mundo. Juntos estão prejudicando Sudão, Quénia, Nigéria, Tanzânia, Malawi, Etiópia, Congo, Zâmbia, Uganda, Madagáscar, Zimbabwe, Mali, Serra Leoa, Gana e outras nações africanas. Só a Etiópia aprovou 815 projectos agrícolas estrangeiros desde 2007 ‖ (43). Multinacionais como as norte-americanas ADM (Archer Daniels Midland) ou a britânica Actis estão a destinar milhões de dólares para a aquisição de terras no Terceiro Mundo.” [1]

Poderíamos afogar-nos com números e dados no inventário do horror planetário desencadeado pelo capitalismo. Poderíamos paralisar-nos e deprimir-nos se não acontecesse que no próprio centro desse inferno explorador e desumano os povos lutam a seu modo, e como podem, contra a barbárie que os esmaga.

Não é coisa de apenas ter em vista o “festim da besta” para, com isso, esperar um salto da consciência e um sobressalto organizado e revolucionário.

Nenhuma revolução se comporta linearmente nem opera com manuais do “feliz usuário”. Os métodos emergem das condições objectivas e do grau de consciência que ascende delas, questionando-as para as superar na prática. Isso a burguesia sabe-o também.

É uma tarefa crucial não engolir as “lágrimas de crocodilo” com que a ideologia da classe dominante surge na cena mediática a proporcionar-nos o seu rosto compungido pelos milhares de mortos no Mediterrâneo ou pelos pobres que buscam pão em “terras boas” levados por não se sabe que aventura ou que ilusão. É parte da Batalha de las Ideias explicar a nós próprios - e explicar - que antes de que esses milhares joguem a vida em migrações criminosas ocorreram nos seus países saques, crimes e despojos à rédea solta e que o capitalismo, simplesmente, não tem saídas.

Nota
[1] http://resistir.info/livros/el_saqueo_de_africa.pdf

Rebelión publicou este artigo com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.

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