segunda-feira, 6 de abril de 2015

O “vendaval autoritário” no México

Sanguessugado do Miro

Altamiro Borges

Durante algum tempo os colunistas da mídia, principalmente os tais “analistas de mercado” – nome fictício dos porta-vozes dos rentistas –, bajularam o México. O governo neoliberal daquele país, totalmente servil aos EUA via o acordo neocolonial do ‘Nafta’, era tratado como modernizante e inovador. Na campanha eleitoral do ano passado, o cambaleante Aécio Neves – o tucano que repete como papagaio tudo o que a mídia vomita – chegou a insinuar que o modelo mexicano seria o melhor para o Brasil. Pouco depois, esta pobre nação entrou em parafuso. A economia estagnou e explodiram inúmeras denúncias de corrupção. Diante do caos, a midiazona simplesmente extinguiu este país do mapa.

Na semana passada, novos relatos confirmaram as besteiras difundidas pela mídia venal e repetidas pelos amestrados tucanos. Além de patinar na crise econômica e afundar na corrupção, o México vive um perigoso vendaval autoritário, segundo a organização internacional Article-19, que atua em defesa da liberdade de expressão. Em seu informe, a entidade afirma que um repórter é ameaçado ou atacado a cada dia naquele país. O “moderno” presidente Henrique Peña Nieto exerce forte pressão sobre os meios de comunicação. Já os barões da mídia local, comprometidos até a medula com a implantação do projeto neoliberal, evitam fazer críticas ao governo, censuram e demitem os profissionais da imprensa.

O sombrio diagnóstico divulgado pela Article-19 não causa maiores surpresas. O próprio Comitê para a Proteção de Jornalistas, baseado em Nova York, já havia denunciado que nos últimos dois anos ocorreram 656 investidas contra jornalistas no país. Em 2014, foram 142 ataques físicos, 53 intimidações e 45 detenções arbitrárias – seis destes episódios resultaram em mortes. Ainda de acordo com a Article-19, os atentados são mais comuns no interior do país, envolvem o Exército e a polícia e produzem mais vítimas do que o crime organizado. Exemplo recente é do jornalista Moisés Sánchez, de Veracruz, assassinado em janeiro, supostamente por ordens do governador Javier Duarte de Sánchez.

Em recente reportagem na Folha, a repórter Sylvia Colombo deu mais detalhes sobre este “vendaval autoritário”. Ela lembrou o caso de Carmen Aristegui, “a jornalista mais importante do país”, que foi demitida da rádio MVS. “A emissora é parte de um conglomerado de mídia que possui ainda TV a cabo, provedor de internet e veículos impressos... Com sua equipe de 17 jornalistas, todos também demitidos agora, Carmen Aristegui trouxera à tona a revelação de que a primeira-dama do país, a atriz de novelas Angélica Rivera, havia comprado uma mansão de um empresário que conseguiu generosos contratos com o governo”.

“O escândalo ajudou a dinamitar a popularidade de Enrique Peña Nieto, que já vinha em queda desde a desaparição de 43 estudantes no Estado de Guerrero, em setembro do ano passado, em ação aparentemente comandada por autoridades locais e narcotraficantes. Segundo pesquisa divulgada na semana passada pelo jornal ‘Reforma’, a desaprovação à gestão de Peña Nieto é de 57% da população. ‘Ele está contra as cordas, não tem mais o apoio que havia alcançado no Congresso com o Pacto pelo México, perdeu o respaldo popular e mostrou-se sem controle diante das autoridades regionais associadas aos cartéis. Também não tem quem o apoie no exterior’, afirmou Aristegui”.

A própria Folha tucana, que antes bajulava o governo “modernizante” do México, agora se mostra indignada com o “vendaval autoritário”. Talvez devesse solicitar à mafiosa Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), que reúne os principais barões da mídia da América Latina, uma incisiva condenação ao governo neoliberal de Peña Nieto. Também poderia engolir seu veneno sobre as restrições à liberdade de expressão no Brasil. Já os “calunistas” de plantão, que sempre paparicaram o México, poderiam fazer um estágio naquele paraíso neoliberal.

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