domingo, 26 de abril de 2015

Lavagem de dinheiro no HSBC: dos narcos mexicanos à sonegação brasileira

Via CartaMaior

Dario Pignotti

Pactos com o narcotráfico não afetaram as atividades do banco no Brasil, cuja Justiça costuma ser indulgente com os delinquentes financeiros.

 

Miguel Dimayuga

Buenos Aires - Afundado. As autoridades do Banco HSBC analisam a possibilidade de vender seus ativos no Brasil, desvalorizados por um escândalo de 7 bilhões de dólares, dinheiro supostamente lavado em contas do banco na Suíça, oriundo de subornos, sonegação fiscal e do narcotráfico, investigados pelo governo da presidenta Dilma Rousseff e uma comissão parlamentar criada apesar do boicote da oposição. Curiosamente, a rede de notícias e (des)informação Globo dedica pouco espaço às manobras do HSBC, definidas como "a mãe de todos os escândalos de corrupção" pelo senador Randolfe Rodrigues.

“O HSBC acelerou sua retração a nível global com a saída do Brasil e da Turquia, medida forçada depois da série de escândalos”, publicou o diário Valor Econômico baseado em fontes da entidade financeira consultadas pelo britânico Financial Times.

Já o diário Folha de São Paulo reproduziu o artigo do mesmo Financial Times, onde relata o difícil momento do gigante das finanças globais.

Caso se concretize o fechamento das 853 sucursais existentes em todo o Brasil, o banco conseguiria segundo artigo do Valor, “uma retração mais rápida e mais profunda que o previsto na estratégia desenhada pelo diretor executivo do HSBC Stuart Gulliver”, através de correspondente em Londres.

O próprio Gulliver foi descoberto em manobras dolosas que afetaram sua credibilidade, apesar de continuar exercendo funções de alta responsabilidade na instituição, certamente bastante desprestigiada a partir do Caso SwissLeaks, a gigantesca lavanderia montada em sua filial de Genebra, Suíça.

Narcos mexicanos

Sétima maior entidade bancária brasileira, o HSBC já navegava em águas turbulentas nos Estados Unidos, onde recebeu multa de 1,9 bilhão de dólares, além de ficar sob observação do Departamento do Tesouro em virtude das operações com cartéis mexicanos. Segundo investigações conhecidas em 2012, o banco lavou mais de 800 milhões de dólares de Chapo Guzmán, o poderoso narcotraficante mexicano, chefe do Cartel de Sinaloa, segundo informou o diário La Jornada.

Capturado em fevereiro de 2014, Chapo Guzmán figurava nas listas do FBI e da CIA, como o segundo homem mais buscado do mundo. Para as agências norte-americanas, esse cliente do HSBC só era menos perigoso que Osama Bin Laden.

Não é a primeira vez que grandes grupos financeiros são descobertos em operações ligadas ao narcotráfico.

Na década passada, membros do Wachovia Bank admitiram nos tribunais estadunidenses que transferiram grandes quantidades de dinheiro procedente da cocaína mexicana, o que lhes rendeu uma multa de 160 milhões de dólares.

O escândalo do Wachovia e outros similares, que envolveram entidades como o Citibank, foram amplamente noticiados no México e nos Estados Unidos, o que torna pouco convincente a versão de que os executivos do HSBC não sabiam ao que estavam se expondo quando receberam, durante anos, centenas de milhões de dólares em sua sede de Sinaloa, o feudo do hoje encarcerado Chapo Guzman, o maior narco mundial da atualidade.

Justiça indulgente

Pactos com o narco mexicano e ficar sob a mira do Departamento de Justiça dos Estados Unidos não afetaram as atividades do banco no Brasil, cuja Justiça costuma ser indulgente com os delinquentes financeiros, como ficou demonstrado em dois mega escândalos revelados na década passada.

Apesar de documentos e evidências reunidas em abundância no Congresso brasileiro, a Justiça garantiu a impunidade dos responsáveis da lavagem de dezenas de bilhões de dólares enviados a paraísos fiscais através do banco Banestado.

Graças à interferência do então presidente do Superior Tribunal Federal de Justiça, o ministro Gilmar Mendes, o banqueiro Daniel Dantas permanece livre e impune. Ele é dono do banco Opportunity, um dos maiores beneficiados dos questionados negócios realizados sob nas trevas das privatizações durante os governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Afundamento

Pois bem. O que impactou fortemente a solidez do HSBC no Brasil, a sede do banco que mais fatura na América Latina, foi a recente publicação dos documentos obtidos por um ex-empregado do banco, Hervé Falciani, especialista em informática. Graças ao franco-italiano Falciani, foram tornados públicos cerca de 60 mil arquivos de clientes, de dezenas de países, com depósitos na sede suíça do HSBC.

Através desses papéis foram demonstradas as manobras dolosas realizadas a partir de 2006 por alguns dos 100 mil correntistas de todo o mundo, dos quais 6.606 são brasileiros, titulares de 8.667 contas.

O jornal Valor Econômico escreveu que, apesar de sua intenção de se desfazer dos seus ativos brasileiro, o HSBC terá problemas em encontrar quem queira comprá-los, já que os principais bancos privados o consideram um mal negócio.

Parte dos papéis de Falciani foram conhecidos somente nos últimos três meses no Brasil.
Pouco depois disso, o governo resolveu se voltar ao caso SwissLeaks, através de seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para assuntos internacionais da presidenta Dilma Rousseff.

Ambos se reuniram com o embaixador da França, onde Falciani recebeu asilo, para solicitar a ele a liberação de todos os arquivos sobre os clientes brasileiros.
“Todos esses fatos devem ser investigados com o maior rigor”, afirmou o ministro Cardozo, demonstrando a vontade política do Palácio do Planalto, enquanto o procurador geral da República, Rodrigo Janot, anunciou uma viagem a Paris para reunir informações sobre o caso.

Paralelamente, foi formada uma Comissão Parlamentar de Inquérito, presidida pelo senador Paulo Rocha, do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo como vice Randolfe Rodrigues, do Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

“O Brasil está no centro desse escândalo internacional, é o quarto país do mundo em número de contas envolvidas, o nono em termos de valores dos depósitos, operações que podem ser comparadas às dos sheiks da Arabia Saudita”, disse Rodrigues ao jornal argentino Página/12, em março passado. “Ou seja, é um escândalo que envolve quantias mais altas que as contabilizadas na corrupção da Petrobras. Para muitos, o caso do HSBC de Genebra é a mãe de todos os escândalos corrupção. É necessária uma profunda investigação por parte dos organismos de fiscalização do Estado e do Parlamento.”

A comissão encabeçada pelo PT e pelo Psol foi sabotada pelo opositor Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), presidido pelo senador Aécio Neves, candidato derrotado por Rousseff nas eleições do passado mês de outubro.

O organismo parlamentar informou que ainda não recebeu a lista completa - mas já tem os dados de centenas de investidores brasileiros que serão investigados. Solicitou, semana passada, o comparecimento do diretor do HSBC no Brasil, Guilherme Brandão.
A proposta respaldada pelo PT foi rechaçada pelo bloco opositor que manifestou sua “preocupação” pelo convite a Brandão, pois sua presença no Congresso causaria “um alto nível de exposição de uma instituição global, como o HSBC”.

Alguns se surpreenderam ao observar a blindagem dada ao banco do SwissLeaks, por parte do partido de Neves, promotor do impeachment contra Dilma, a quem acusa de suposta corrupção. O jornalista Luís Nassif, especializado em temas econômicos, respondeu com dados as dúvidas a respeito da cumplicidade entre o PSDB e o HSBC. A maioria dos brasileiros cujos nomes apareceram na lista do HSBC de Genebra apoiou inclusive financeiramente a candidatura de Aécio Neves. Segundo o levantamento de Nassif, os possíveis evasores colocaram 400 mil dólares na campanha do dirigente opositor e nenhum dólar nas contas do PT.

Lily de Carvalho, viúva de Roberto Marinho, o falecido chefe da dinastia que controla a Rede Globo, está na lista dos brasileiros com contas na filial suíça do HSBC. A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Caso SwissLeaks considera que “há indícios suficientes” para sustentar que entre os 6.606 brasileiros com dinheiro no banco há vários que o fizeram em busca de um refúgio para dinheiro de origem duvidosa. Por exemplo, evasão fiscal.

Em 2014, o Ministério de Fazenda demonstrou que a Globo estafou o fisco em mais de 600 milhões de reais, cerca de 200 milhões de dólares, em impostos não pagos no ano de 2002. Segundo o governo, a Globo montou empresas de fachada em paraísos fiscais para não pagar os tributos correspondentes à transmissão da Copa do Mundo Coreia-Japão, vencida pela seleção canarinho. Os documentos conhecidos até agora indicam que entre os brasileiros com dinheiro na Suíça também estão os proprietários do diário Folha de São Paulo, da rede de televisão Bandeirantes, além de Ricardo Pitta, ex-representante do atacante Ronaldo, máxima figura do combinado pentacampeão naquele Mundial, em 2002.

Também aparece na lista um narcotraficante colombiano, residente durante anos em São Paulo, e os empresários brasileiros Renato Tiraboschi e Octavio Koeler. Estes dois últimos foram sócios de Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol entre 1989 e 2012, quando renunciou devido ao envolvimento em outro escândalo de corrupção.

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