terça-feira, 7 de abril de 2015

Alvos de guerra

Via O Diario.info

Max Altman*

A Venezuela e a Argentina são vítimas de brutal ofensiva da direita, dos sectores oligárquicos e de Washington.

Depois de mais de uma década de sucessivas vitórias de candidatos e governos de esquerda e progressistas, era de se esperar uma contra-ofensiva da direita e dos setores oligárquicos, apoiados politicamente pelos seus porta-vozes da “grande mídia” local e internacional e coordenados estratégica e logisticamente por Washington.

A partir da ascensão de Hugo Chávez ao governo da Venezuela em duas sucessivas eleições presidenciais de 1998 e 2000, a maioria dos países da região passou a ter no comando governos eleitos democraticamente, dedicados a pôr em marcha políticas públicas voltadas às camadas pobres da sociedade, a executar planos de fortalecimento da economia afastados do modelo neoliberal e modernização da infra-estrutura, ao mesmo tempo que marcavam sua posição internacional de soberania, independência e integração de povos e países do continente.

Presidentes com este perfil foram eleitos e reeleitos no Brasil, Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua. O mesmo ocorreu em países cuja constituição não permite reeleição como Uruguai, Chile, Peru, Paraguai, El Salvador. Alguns desses governos eleitos pelas forças democrático–populares cederam à pressão da direita, foram derrubados ou derrotados eleitoralmente.

Os governos desses países impediram a ALCA e constituíram organismos próprios de integração, soberanos e independentes, como a Unasul e a Celac, não mais dispostos a ser meramente o pátio traseiro dos Estados Unidos nem estar submetidos às decisões da OEA, que marcou sua história como verdadeiro ministério das colônias do governo norte-americano.

A tarefa dos governos de esquerda ou progressistas nunca foi fácil. Contrapor-se a interesses e cultura de classe provocou reação das mais variadas da direita e dos conservadores inconformados em perder parte de seus privilégios e em ver a ascensão social e política das camadas populares.

Os Estados Unidos não se mostram dispostos a perder a hegemonia que sempre detiveram sobre a região e as oligarquias e a direita locais querem retomar a seu favor o controle político de seus países. Diante da conjuntura desfavorável, que se estendia no tempo e se aprofundava, aquelas forças resolveram desencadear, coordenadamente, a contra-ofensiva cuja estratégia assume características diversas segundo as condições locais mas sempre tendentes a derrocar os atuais governantes e assumir eles mesmos o poder absoluto. Há presentemente uma brutal ofensiva simultânea contra três países essenciais ao processo de integração: Brasil, Venezuela e Argentina. Vamos nos cingir aos casos Venezuela e Argentina.

Venezuela

Desde que foi sancionada a nova Constituição Bolivariana, convocada a Assembleia Constituinte por plebiscito e aprovada por referendo popular, de cunho altamente progressista, as forças da reacção se mobilizaram e trataram de desestabilizar o regime. Ocorreu o golpe militar clássico em 2012, apoiado expressamente pela mídia.

Foi derrotado quando as massas saíram às ruas e coadjuvadas por parte das forças armadas trouxeram em 60 horas o presidente Chávez de volta ao Palácio Miraflores.

Derrotados, os golpistas não ensarilharam armas. Em dezembro do mesmo ano, ainda controlando a Petróleo de Venezuela (Pdvsa), desencadearam o “locaute” petroleiro também com o objetivo de derrocar o governo.

A tática foi diversa: paralisar o transporte de mercadorias, criar o desabastecimento, provocar a angústia popular, desestabilizar o regime para finalmente assaltar o poder. Foram novamente derrotados. Em 2014 valeram-se de uma cláusula altamente democrática da Constituição Bolivariana para convocar um referendo revogatório do mandato de Chávez. Foram novamente derrotados, como haviam sido e continuaram sendo em quase duas dezenas de pleitos eleitorais livres, limpos e democráticos.

Alegaram fraude – o que foi repercutido escandalosamente pela mídia internacional – e até hoje não apresentaram um fiapo de prova.
Nos anos seguintes com o aprofundamento do processo revolucionário, apoiado pela maioria do povo venezuelano, em especial pelos trabalhadores e camadas populares, Chávez passou a defender e criar as condições para a instalação na Venezuela de um regime socialista de feição própria e a combater duramente o capitalismo. Isto acendeu a ira de Washington e dos sectores internos de oposição de direita.

Com a morte de Hugo Chávez em março de 2013, a direita viu surgir uma oportunidade de derrotar a revolução bolivariana pela via eleitoral. O candidato de oposição à presidência contou com recursos extraordinários para desenvolver sua campanha e com a unificação de suas forças. O resultado foi uma estreita vitória de Nicolás Maduro, ungido pelo próprio Chávez como seu sucessor na liderança da revolução. A oposição não acatou a definição das urnas, alegou uma vez mais fraude e tratou Maduro como presidente ilegítimo. Convocou grupos violentos às ruas de que resultou várias vítimas fatais e atentados a sedes do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) e de clínicas onde trabalhavam médicos cubanos. O ano todo de 2013, a oposição de direita se negou a reconhecer o governo Maduro.

Dedicou-se a sabotar a economia, a açambarcar produtos, a contrabandear para o exterior produtos essenciais que o governo vendia à população com preços subsidiados, com isto alimentando a inflação, provocando o desabastecimento, criando intranquilidade, a sabotar o sistema elétrico, à desestabilização, ao caos, à guerra psicológica. Tratou de converter as eleições municipais de dezembro de 2013 em plebiscito.
E o que ocorreu? O triunfo da Revolução Socialista Bolivariana derrotou os planos golpistas da direita.

Em fevereiro de 2014, a extrema-direita, liderada por Leopoldo Lopez, Maria Corina Machado e Antonio Ledezma, inconformada, lança o plano “La salida”, ou seja um golpe para a derrubada do presidente Maduro, estimulando que bandos saíssem as ruas e praticassem toda sorte de violência e crimes, de que resultou a morte de 43 cidadãos, a grande maioria cometida por esses bandos fascistas. Apesar do alto preço em vidas, foi novamente derrotada.
Já em fevereiro de 2015, a extrema-direita parte abertamente para o golpe. A inteligência das Forças Armadas Bolivarianas consegue detectar o plano e prender os seus executores, um pequeno grupo de oficiais da Força Aérea, que a bordo de um avião tucano de registro não venezuelano, atacariam o palácio presidencial, tendo como alvo o presidente Maduro, a sede da Telesur, do Conselho Nacional Eleitoral e algumas outras instituições. O sinal para o início da ação golpista era a publicação de um certo “Manifesto de Transição” de autoria das lideranças da extrema-direita. O plano foi desbaratado, os oficiais da operação presos, e o líder visível do plano golpista, Antonio Ledezma, também detido por ordem da Justiça. Tudo amplamente documentado e comunicado à população pelo presidente Maduro, pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e outras autoridades.
No dia 9 de março as máscaras caem.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, decreta a aplicação de sanções a 7 funcionários do governo da Venezuela, acusando-os de violação dos direitos humanos e corrupção. E mais grave, decretou “emergência nacional nos Estados Unidos devido ao extraordinário risco à segurança americana representado pela situação na Venezuela.”

Sinal claro que toda a campanha mediática internacional contra a Revolução Bolivariana e as tentativas de desestabilização e golpe tinham o dedo da Casa Branca.

A reação do governo Maduro foi imediata; “A Venezuela não é uma ameaça. Não somos ameaça à segurança dos Estados Unidos e a de nenhum outro país. Na verdade, somos a esperança.” Em seguida conclamou o povo a subscrever uma petição pública em que se solicita a Obama a revogação do decreto.
A meta é colher 10 milhões de assinaturas. Já foram colhidas 2,5 milhões.

O presidente Rafael Correa, do Equador, expressou sucintamente a desaprovação dos governos regionais com as últimas sanções, afirmando que estas “nos lembram dos momentos mais sombrios de nossa América, quando fomos invadidos tivemos ditaduras impostas pelos imperialistas.”
Em seguida, perguntou: “Será que não percebem que a América Latina mudou?” A resposta curta para a pergunta é não.

O inesperado do lance da Casa Branca é que ele ocorre no momento em que reata relações com Cuba e às vésperas da VII Cúpula das Américas que terá lugar no Panamá em 10 e 11 de abril próximos. É de se prever que a reação negativa será enérgica. E é surpreendente que nesse exato momento os Estados Unidos deem início a uma política de confrontação direta contra uma revolução pacífica, democrática, com um governo presidido por Nicolás Maduro que sempre se mostrou disposto a dialogar em base de igualdade. É lícito imaginar que esta política visa atemorizar as instituições venezuelanas ao mesmo tempo que emite sinais de apoio aos setores violentos. Mas o resultado poderá ser adverso, uma vez que desperta o patriotismo mesmo entre aqueles que mantêm distância do governo Maduro. Pesquisas revelam que 94% dos entrevistados manifestaram repúdio ao decreto de Obama.

A Venezuela vive uma situação económica delicada. É uma economia ainda rentista decorrente da ‘maldição do petróleo’.

O setor empresarial não investe, vive de renda. Some-se a isto a sabotagem econômica, a alta inflação, o desabastecimento, agora um tanto atenuado. No plano social, persiste a alta taxa de criminalidade.

No entanto, mesmo diante de tamanhas dificuldades, Maduro consegue manter uma forte base social, em especial entre os trabalhadores e as camadas pobres, permanentemente mobilizada, e a unidade cívico-militar. Cuida de estabelecer uma estratégia para impulsionar a capacidade produtiva do país. Ademais, conta com maioria na Assembleia Nacional, com um Poder Judiciário disposto a defender intransigentemente a Constituição em vigor e dispõe de meios de comunicação popular para travar a batalha de ideias. Porém, mais importante, Maduro, bem como ministros do governo e dirigentes do PSUV, vão à televisão, vão ao encontro dos movimentos populares, valem-se de cerimônias públicas para defender enfática e corajosamente a revolução, rebatendo sem titubear as investidas golpistas e caluniosas dos opositores.

Argentina

Cristina Kirchner, eleita pela primeira vez presidente da Argentina em outubro de 2007, nunca teve vida fácil. Seu próprio vice-presidente, Julio Cobos, a traiu desempatando em julho de 2008, na condição de presidente constitucional do Senado, a favor da oposição – a votação estava empatada em 36 votos - um importante projecto de lei que estabelecia a mobilidade das retenções às exportações do setor agro-pecuário toda vez que o preço internacional das ‘commodities’ subissem. Os recursos daí advindos eram fundamentais para a ampliação dos programas sociais.

Cristina travou dura luta contra o Clarin — império monopolista oligárquico e de direita dos meios de comunicação que a combate ferozmente numa verdadeira campanha de desinformação. Conseguiu aprovar a “Ley de Medios” — ainda não totalmente implementada, submetida que está aos órgãos judiciários -, quebrando o monopólio, que apesar disso ou por causa disso continua mantendo uma furiosa oposição ao governo.

Com o peronismo dividido em múltiplas facções, poderosas confederações sindicais, como a dos caminhoneiros, mantêm pesada artilharia contra Cristina, o mesmo ocorrendo com correntes políticas de ex-aliados.

No plano internacional, recebe forte pressão dos meios financeiros dos Estados Unidos. Detentores dos “fundos abutres” tiveram acolhida nos tribunais norte-americanos sua pretensão de receber esses fundos pelo valor de face, adquiridos na bacia das almas quando a Argentina passava no começo do século por gravíssima crise financeira.

A Grã-Bretanha reforça seu contingente militar nas Ilhas Malvinas e mantém Buenos Aires sob permanente pressão.
Este é um ano de eleições presidenciais na Argentina e o objetivo da direita e da oligarquia local é fazê-la sangrar politicamente e debilitar o apoio que venha dar a seu candidato, uma vez que ela mesma não pode concorrer a uma terceira eleição.

Recentemente, os principais meios de comunicação, tendo à frente a rede Clarin, desfecharam uma violenta campanha contra Cristina Kirchner, usando como pretexto a morte do procurador Alberto Nisman, cujo objetivo era leva-la às barras dos tribunais e derrocar seu governo. Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, em 18 de janeiro, na véspera de seu depoimento ao Congresso acusando directamente a Cristina e seu chanceler Timerman de acobertamento dos supostos responsáveis iranianos acusados pelo atentado à Associação Mutual Israelita Argentina, 20 anos antes, no qual morreram 85 pessoas e centenas ficaram feridas. Círculos oposicionistas, estimulados pela mídia, desencadearam intenso ataque contra a Casa Rosada.

O Clarin chegou a acusar indirectamente a presidenta de assassina, visto que o governo era responsável pela segurança do procurador e como ele foi morto a responsabilidade recaia sobre Cristina. O chefe de gabinete, Aníbal Fernandez, foi a televisão, exibiu a manchete, tachou-a de caluniosa e, ante as câmeras, rasgou o jornal.

Uma “Marcha do Silêncio”, oficialmente convocada pelos procuradores para lembrar um mês de sua morte, mas alimentada pela mídia e a oposição de direita, reuniu centenas de milhares de manifestantes diante da Casa Rosada, na praça de Mayo.

Menos de duas semanas depois os partidários de Cristina, liderados pelo movimento La Campora e por sindicatos de trabalhadores, reuniu na praça do Congresso, a propósito da fala anual à nação pelo presidente, semelhante número de pessoas.

Entre inúmeros detalhes que vieram à luz, o jornalista Santiago O’Donnell, em seu livro Politileaks, traça, a partir de segredos desvelados pelo WikiLeaks, um perfil de Nisman e revela suas ligações.

O procurador é descrito como uma pessoa medrosa e fraca “e que antes de tomar decisões importantes ia pedir benção à Embaixada dos Estados Unidos”. Telegramas e e-mails revelados pelo WikiLeaks mostram que o governo dos Estados Unidos “estimulou e alentou a investigação dos suspeitos iranianos acusados de ter cometido o atentado de 1994”. O livro revela ainda que diplomatas norte-americanos mantiveram contatos com Nisman.
A justiça pelo juiz Daniel Rafecas acabou rejeitando a denúncia de Nisman por “inexistência de delito” o que foi agora ratificado pela Câmara Federal de Buenos Aires.

Em momento algum Cristina deixou-se intimidar ou se isolar diante das acusações.
Revidou corajosamente em discursos, pelas redes sociais ou em entrevistas as acusações que lhe eram feitas e não temeu confrontar-se com a mídia e a direita.

Os movimentos sociais, ainda que não se alinhem partidariamente, saíram as ruas num evidente contraponto ao avanço da direita.

Agora, em 24 de março, 39 anos da instalação da ditadura militar na Argentina, convocado pelas “Madres de la Plaza de Mayo” meio milhão de pessoas, em sua maioria jovens, recordaram os 30 mil companheiros assassinados pela ditadura de 1976. A faixa que encabeçava a gigantesca manifestação dizia: “30 mil razões para seguir lutando pelo socialismo”. E outra mais atrás: ““Votemos futuro, elejamos que país vamos seguir construindo e que Pátria vamos seguir defendendo”. Há anos a Argentina vive uma situação econômica delicada, com inflação alta e crise cambial. É um quadro que pressupõe enormes dificuldades para a Frente para a Vitória de Cristina Kirchner na corrida presidencial, cujo pleito se ferirá em outubro.

Até lá não estão descartadas tentativas de desestabilização política e econômica alentada pelos grupos de poder concentrados na oposição, que se aproveitam dos sindicatos opositores e da ultra-esquerda como forças de choque, a exemplo do que ocorreu com as rebeliões policiais de dezembro de 2013, o golpe de mercado de janeiro de 2014 e greves dos sindicatos opositores com piquetes da ultra-esquerda que se concentraram especialmente na capital.
Diversos são os aspirantes da Frente.

O que mais se destaca é Daniel Scioli, que já foi vice-presidente com Nestor Kirchner. Não é o candidato de coração da presidenta. Mas se ele for o escolhido nas primárias, Cristina irá arregaçar as mangas e defenderá com vigor todo o seu legado. Não se surpreendam, apesar do ódio da direita e da campanha virulenta da mídia, se a Frente para a Vitória de Cristina Kirchner uma vez mais saia vencedora.

*Max Altman é militante do Partido dos Trabalhadores

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