quinta-feira, 30 de abril de 2015

A informação internacional também é multipolar

Via Rebelión

Pascual Serrano

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

eldiario.es

Na década dos anos 80, o único canal 24 horas de notícias que existia no mundo era o norte-americano CNN. Hoje há mais de uma centena. Dentre eles, há de se destacar alguns com grande cobertura e orçamento, curiosamente de propriedade pública: Rússia, China, Qatar, Irã ou Venezuela. Não negam que seu objetivo é apresentar uma alternativa ao predomínio da mensagem ocidental, e são conscientes de que um grande setor da opinião pública mundial se nega a depender exclusivamente da mensagem monocórdia dos meios ocidentais e quer conhecer a interpretação do outros atores da arena internacional.

De fato, muitas da televisões internacionais de notícias recorrem ao pensamento anti-CNN para se identificar. Isso levou a Secretária de Estado Hillary Clinton a afirmar que “as grandes redes de televisão norte-americanas estão perdendo espaços diante da russa RT, da chinesa CCTV e da  Al Jazeera, do Qatar”. Vejamos quais são essas vozes que tanto preocupam Hillary Clinton e que estão permitindo que a comunicação global seja multipolar.

RT


Propriedade do Estado russo, é também conhecida como Russia Today. Começou a funcionar em 2005, com um orçamento de 30 milhões de dólares, hoje dez vezes maior, 313 milhões. Incorporou a agência estatal RIA Novosti. Emite em inglês (além disso, tem uma programação específica para o Reino Unido, com 2 milhões de expectadores, sendo a terceira rede de notícias em audiência; nos Estados Unidos, é a segunda televisão estrangeira mais assistida), em espanhol (desde 2009) e árabe, e está previsto que dentro em breve comece a fazê-lo em francês e em alemão. Na América Latina, mais de 900 operadoras de TV paga transmitem o sinal.   

Nesses países, as pessoas estão cansadas da agenda ditada pelos canais espanhóis da CNN e BBC e da imagem parcial do mundo, preferindo um conteúdo televisivo de alta qualidade, uma  alternativa á corrente principal ocidental”, afirma a redatora-chefe da RT, Margarita Simonián. 

A RT deu um golpe de efeito em 2013, quando contratou Larry King, uma estrela do jornalismo americano, para sua edição naquele país. King era internacionalmente conhecido entre 1985 e 2010 pelo seu programa noturno de entrevistas na CNN, e reconheceu que hoje trabalha em RT com total liberdade.

Televisão Central da China


A China dedica um gasto anual de bilhões de dólares para a expansão internacional de seus meios de comunicação na África subsahariana e na América Latina, onde tem dez escritórios (a CNN tem três). A Televisão Central da China (CCTV) tem programas em árabe, francês, russo e espanhol, enquanto a Xinhua, a agência estatal de notícias do país, está se estendendo por todo o mundo.

O presidente da China, Xi Jinping, deixou clara sua concepção do papel dos jornalistas no seu primeiro discurso após ser nomeado secretário geral do Partido Comunista: “Amigos da imprensa, a China necessita aprender mais do mundo, e o mundo também precisa aprender sobre a China. Espero que continuem esforçando-se para se aprofundarem nesse entendimento mútuo”.

A Televisão estatal chinesa CCTV é um dos principais instrumentos para esse fim. Sua expansão internacional começou em 2001, e hoje conta com departamentos que administram as versões em inglês, espanhol, francês, russo, coreano e árabe, e três grandes redações em Pequim, Nairobi e Washington. O objetivo é ‘que pessoas de outros países conheçam o mundo  por  uma perspectiva chinesa”, descreve Chen Yongqing, do Departamento de Difusão e Desenvolvimento no Exterior dessa televisão. “A CCTV está comprometida a construir um meio internacional de primeira categoria, e isso passa por continuar desenvolvendo-se nos mercados estrangeiros”, explica. 

A publicidade cobre quase totalmente os 2,108 bilhões de euros de seu generoso orçamento, que permite dispor de meios excepcionais para suas coberturas e contratar profissionais estrangeiros de renome, especialmente para o canal em inglês, o que goza de maior autonomia.

Press TV e HispanTV


O Irã lançou a televisão por satélite PressTV em 2007. O novo canal em inglês se transformou no projeto-estrela da IRIB, a Radiotelevisão da República Islãmica do Irã, com o objetivo declarado de expandir seu alcance global. Seu orçamento em 2009 era de seis milhões de euros, segundo a agência de notícias iraniana Mehr.

Seu canal em espanhol é HispanTV, que conta com 800 funcionários. O canal em inglês tem 1200. Segundo assinalam, a HispanTV “foi concebida para ser uma ponte de integração e mostrar os aspectos culturais e sociopolíticos entre o Irã e os falantes em espanhol”, e sua missão é “trabalhar sob o férreo compromisso como meio de comunicação para incentivar a aproximação entre os povos do Irã, da Hispanoamérica  e do Oriente Médio, considerando além disso a necessidade de criar uma maior aproximação entre todos os povos da América Latina.

Al Jazeera


Provavelmente foi o primeiro fenômeno de televisão internacional de notícias á margem do predomínio do Ocidente. Nascida em 1996 por decreto do emir do Qatar, revolucionou a informação no mundo árabe com toda uma utilização de recursos  técnicos e humanos, incluídas grande figuras do jornalismo anglo-saxão.

“A Al Jazeera foi a primeira televisão independente do mundo árabe”, assinala por correio um porta-voz ao jornal El País. “Seu enfoque jornalístico global e em profundidade, juntamente com seu compromisso de dar voz aos sem voz, a fez merecedora de inúmeros prêmios”, assinala. Segundo a rede, conta com uma audiência “de 250 milhões de lares em 130 países de seis continentes”.

Telesur


Foi criada em 2005 por iniciativa do então presidente da Venezuela Hugo Chávez. Pela primeira vez, vários países se agrupam para criar uma televisão internacional de notícias. Fazem parte dela, juntamente com a Venezuela, Cuba, Argentina, Brasil, Bolívia, Equador e posteriormente Uruguai e Nicarágua. Ela se declara “um multi-meio  de comunicação latino-americano com vocação social, orientado para liderar e promover os processos de união entre os povos do Sul”. Da mesma forma, a rede reconhece trabalhar “para a construção de uma nova ordem comunicacional”.

Tem correspondentes em praticamente todos os países latino-americanos, além de Washington, Madri e Londres. Manteve coberturas míticas, como no golpe de Estado em Honduras, na guerra da Colômbia ou nos Foros Sociais Mundiais, onde quer que estes fossem realizados. Com isso, demonstrou apostar em uma nova visão internacional da atualidade desde uma perspectiva hispano falante.

Em julho de 2004, inaugurou um canal em inglês dirigido aos Estados Unidos, que emite de             Quito. Nesse canal, conta com a colaboração de figuras como Noam Chomsky, Oliver Stone e Tariq Ali.

Curiosamente, os meios predominantes do ocidente, que em seus países fazem da liberdade de expressão e dos meios como bandeira democrática, qualificam esses meios não ocidentais  como ferramenta a favor de ditaduras e contra a democracia. Inclusive, tem sido feitas várias tentativas de proibi-los; o regulador do mercado televisivo no Reino Unido considerou a RT como culpável por violar o código ético por sua “parcialidade” na cobertura da crise da Ucrânia em março de 2014, e ameaçou com a retirada da sua licença. O organismo advertiu ao canal que, se fossem realizadas mais violações desse código, poderia perder sua licença.

O governo espanhol, com a desculpa de algumas sanções econômicas da União Européia, proibiu em dezembro de 2012 a difusão na Espanha e na América Latina, através do satélite Hispasat, de duas redes de televisão iranianas, Press TV e Hispan TV. Em junho deste ano, a Secretaria de Estad0 para as Telecomunicações mudou de opinião  e decidiu autorizar Hispasat a fazer a difusão da Hispan TV. O motivo: o secretário de Estado norte-americano John Kerry, emitiu quatro meses antes “uma autorização para que as empresas europeias pudessem novamente transmitir os canais iranianos sem correr o risco de serem sancionadas pelos EUA”.

Por que a mudança de postura dos norte-americanos? Segundo o The Wall Street Journal, é porque Teheran não impedirá a difusão na região da BBC e da Voz da América em farsi.

Em julho de 2013, Press TV e outros canais iranianos foram retirados de vários satélites europeus e americanos (entre outros, de Eutelsat e Intelsat), supostamente em função das sanções contra o Irã, apesar de um porta-voz da UE ter afirmado ao canal que essas sanções não se aplicam aos meios de comunicação.

Em 2012, o regulador dos meios de comunicação com sede em Munich, Bayeriche Landeszentral für neue Medien (BLM) anunciou a retirada da licença à Press TV para emitir através do satélite Astra. A equipe jurídica da televisão iraniana recorreu e os tribunais alemães deram-lhe razão, podendo assim ser restabelecida  a emissão.

Os diretores da Fundação Nacional para Democracia (NED), com sede em Washington não gostam dessa pluralidade informativa. Christopher Walker, diretor executivo do Forum  Internacional de Estudos Democrátivos, afirma em El País, que “regimes autoritários, como China e Rússia, utilizam os meios de comunicação para minar a democracia além de suas fronteiras e preservar seu estilo de governo”. Walker os acusa de “inibir a difusão da democracia”. E continua: “Os regimes autocráticos com mais recursos constituíram grandes grupos de meios de comunicação que lhes permitem projetar essas mensagens  ao mercado mundial das ideias. Esse amplo e crescente arsenal de meios informativos que opera a serviço do Estado autoritário dá a esses regimes a capacidade de introduzir ideias de forma sistemática no debate mundial.    

Para os que não a conhecem, a NED se apresenta como uma organização privada, mas quase todos os seus fundos são governamentais. O próprio The New York Times chegou a afirmar que ela foi criada em 1983 “para levar a cabo publicamente o que subreticiamente a Central Intelligency Agence (CIA) tem feito durante décadas. Gasta 30 milhões de dólares  por ano para apoiar regimes políticos, sindicatos, movimentos dissidentes e meios informativos em dúzias de países.

É curioso que, a partir do  país que glorifica a liberdade de expressão possam considerar que algumas redes de televisão, ao não ser norte-americanas, sejam ferramentas para conter a democracia no mundo. Um grande paradoxo é que as bombas da OTAN levem democracia ao Iraque, Afeganistão ou Iugoslávia, e a difusão de ideias por redes de televisão chinesas ou russas o impeçam.

O que é indiscutível é que graças à RT podemos conhecer outra versão da crise da Ossétia, Geórgia ou Ucrânia, e com a Telesur outra realidade das mudanças políticas na América Latina,  através da HispanTV o verdadeiro rosto de Israel ou, por meio da Al Jazeera, a voz dos palestinos. Provavelmente a televisão chinesa não seja neutra informando sobre o Tibet, a Telesur sobre a inflação venezuelana, RT sobre a crise do petróleo ou Al Jazeera das primaveras árabes.

Sem dúvidas, esses meios estão contaminados por interesses geopolíticos de seus proprietários, mas o hipócrita é denunciar isso quando se fala deles e desconhecer o assunto quando se trata da Fox, financiada pelo Partido Republicano norte-americano, ou Telecinco, propriedade de Berlusconi. Minha experiência pessoal  é que tenho visto os jornalistas da Al Jazeera informar com valor e rigor em Bagdá e Beirute; os da HispanTV e RT com absoluta independência em Caracas, e tenho comprovado a valentia e a veracidade dos profissionais da Telesur como enviados especiais na Síria e, evidentemente, na América Latina.

Walter Isaacson, sendo presidente da Broadcasting Board of Governors, a agência governamental que administra os meios com os quais os EUA projetam sua propaganda no mundo (A Voz da América, Rádio Europa Livre, entre outros), já assinalou, diante do crescimento dos meios citados, que “não podemos permitir  que nossos inimigos levem vantagem sobre nós”, para justificar a necessidade de mais orçamento. Esse é o problema.

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