segunda-feira, 9 de março de 2015

Tela sinistra: qual regulação da mídia queremos?

Via Brasil de Fato

Afrontar os direitos humanos é um tiro no coração da democracia

João Paulo 

O atual debate em torno da regulação dos meios de comunicação parece se sustentar em um jogo de má fé ou ingenuidade fingida. De um lado, os proprietários dos grandes conglomerados de mídia apelam para a acusação de censura (sobretudo ideológica); de outro, os partidários da regulação parecem se concentrar apenas na questão do monopólio econômico, como se o caso fosse apenas uma questão de mercado. A situação é ainda mais grave no caso da televisão, por sua força de penetração social e pelo fato de se tratar de uma concessão pública. É preciso enfrentar a fera: as TVs comerciais não são apenas concentradoras em economia, mas, em grande escala, antiéticas e perniciosas para sociedade.

O recente sucesso da volta do Gugu às telas, com uma entrevista esticada em duas edições, sobre a vida de Suzane von Richtofen na cadeia, foi saudada como uma vitória. Muita gente ficou feliz com o fato de a Record ter ultrapassado a Globo, como se isso fosse uma conquista em si. Não é. A reação veio do apresentador Ratinho, que se dispôs a entrar na luta pela baixaria para reconquistar sua posição, em outra emissora. Um câncer que espalha metástases. O caso em si, com sua carga de violência, moralismo e exploração da sexualidade da entrevistada, ficou em segundo plano. Parece que o Ibope tem o poder de anistiar nossos defeitos morais. Mesmo que, como foi depois divulgado, a entrevista tenha custado à emissora R$ 2 milhões. Jornalismo com cachê é uma contradição em termos.

Aqueles que contestam a regulação da mídia certamente reagirão dizendo que a opção é livre e que o melhor controle é o remoto. Além disso, se apressaram em defender o interesse das pessoas pelo caso policial e humano, expresso pela audiência, como sinal de valor público da discussão. Não caberia à televisão julgar, mas oferecer ao espectador, como um espelho, aquilo que nos vai na alma e como se apresenta na vida social nosso estágio de civilização. Há aqui dois erros graves de compreensão: um psicológico e outro político. No primeiro caso, uma confusão entre desejo e vontade; no segundo, uma falha na distinção entre controle social e governamental.

A psicanalista Maria Rita Kehl, em artigo publicado em 2004, “Face obscura do desejo”, explicou bem a separação entre desejar e querer. Desejamos uma coisa, mas queremos outra. É assim com todo mundo. O desejo, como ensinou Freud, é uma expressão do inconsciente que traz com ele fantasias perigosas, do incesto à crueldade em relação ao outro. Por isso ele é recalcado, porque ameaça nosso vínculo com as pessoas. Para que o desejo se expresse ele precisa passar pelo domínio da consciência, pelo tribunal da razão. Em sua pureza o desejo - e sua realização sem barreiras - merece a qualificação de sinistro. É dessa cisão que muitas vezes os meios de comunicação se alimentam. A existência madura, e isso deveria valer para a telinha, poderia ser definida pela capacidade de trocar o recalque pelo julgamento

É por isso que o público, quando confrontado com pesquisas qualitativas, critica o nível da programação da TV, pede atrações mais culturais e proveitosas para a vida da sociedade. Mas quando liga o aparelho sintoniza em lixo, reality shows, sensacionalismo, “jornalismo policial” travestido em circo de horrores e incitação ao ódio. As emissoras de TV entregam ao público o que eles desejam, não o que eles querem. Por isso sua força avassaladora. A TV é um buraco da fechadura de cenas de que vão da violência ao sexo, do preconceito ao reacionarismo, do individualismo à despolitização.

No campo político, o maior engano está em associar a necessidade de controle a interesses conjunturais. A regulação não é ato de governo, mas em defesa da sociedade. Será que alguém seria contra uma regra, debatida publicamente, que impedisse a veiculação de violência explícita, estímulo ao linchamento, exploração sexual de menores, racismo e incentivo ao preconceito, sobretudo no horário em que crianças estão ligadas na TV? No entanto, é muito fácil falar em autorregulamentação como estratégia de contenção de abusos, num contexto monopolizado e corporativo, enquanto a programação – é só ver os espetáculos hediondos e histéricos das atrações vespertinas e a burrice moral do BBB – infla a telinha de eventos freudianamente sinistros.

A situação pode parecer menor frente aos problemas que a sociedade brasileira vive hoje no campo da política, com uma perigosa crise de institucionalidade e ameaça à democracia. Mas nunca é bom deixar de lado questões como essas, o ovo da serpente espera a hora para eclodir seu potencial desagregador, autoritário e anti-humanista. É só acompanhar como vem se dando a discussão sobre o comando da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Depois da histórica defenestração do homofóbico Marco Feliciano por empenho da sociedade, os deputados rompem acordos e se preparam para virar a mesa, apresentando novamente um pastor convocado nas hostes de Silas Malafaia.

Engana-se quem acha que estão comendo pelas beiradas. Afrontar os direitos humanos é um tiro no coração da democracia.

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