quinta-feira, 12 de março de 2015

Princípio, meio e fim

Via Boitempo

Izaías Almada

Evolução humana[Ilustração de André Almada]

O que viria antes do Big Bang inicial? Segundo vários cientistas, o nada. Mas, também segundo a ciência e outros renomados cientistas, tudo no universo tem princípio, meio e fim, o que incluiria o próprio universo.

Logo, se tudo tem princípio, meio e fim e o Big Bang é o início do universo tal qual o conhecemos (conhecemos?), o que existiria antes do Big Bang, apesar dos que contestam essa dúvida? E qual será o fim desse mesmo universo?

E nessa toada, que tenta encontrar um significado para a vida, sem que tal questão nos leve à demência prematura, não será absurdo afirmar que esse mundinho, tal qual o conhecemos, terá também o seu princípio, meio e fim.

Como será isso? Nenhum de nós tem a menor ideia a respeito, mesmo os cientistas mais estudiosos e interessados no assunto.

Distraía-me com tais “maluquices” enquanto bebericava meu cafezinho no balcão de uma cafeteria de Shopping Center e observava o vai e vem dos vários funcionários que trocavam de turno ou vinham de seus escritórios nas redondezas para o almoço, da azáfama das compras, de mães com seus filhos menores a curtir o final das férias de verão. Posto de observação privilegiado de tipos e comportamentos para quem, como eu, gosta de rabiscar algumas letras de vez em quando.

Foi quando comecei a reparar e contar o número de pessoas que passava com seus aparelhinhos eletrônicos, tablets e celulares menos ou mais sofisticados. Distraídos e pouco interessados com o que passava à sua volta, concentrados nas mensagens que liam ou escreviam, sérios ou com sorrisos iluminados, num balé impensável há dez anos, inseriam-se todos nesse novo mundo que dá também os seus primeiros passos em novas formas de comunicação. E de comportamento.

Comunicação que, paradoxalmente, começa a provocar o isolamento das pessoas. Como?

Não sei quantas vezes vi em mesas de restaurantes: famílias, casais de namorados, quatro amigas ou amigos onde a maioria, senão todos tinham celulares nas mãos e não conversavam entre si. Festas infantis onde boa parte dos adultos fica com um mini cachorro quente numa mão e o celular na outra. Porteiros e seguranças de edifícios (imaginem, seguranças) não largam seus celulares.

Já é conhecida a anedota que após uma reunião de condomínio, dois dos participantes que quase iniciaram um diálogo à saída da reunião combinaram terminar a conversa através de seus ifones. Ou trocar e-mails: o whatsapp era uma novidade.

Quantas horas o leitor passa por dia com celulares de última geração ou mesmo num iPad ou num PC caseiro à procura de saber o que se passa à sua volta, ou misturando trabalho e lazer? Tem caído consideravelmente o número de leitores de jornais diários e revistas semanais. E também a audiência de canais abertos de TV. Baixado o rendimento de funcionários em empresas mais moderninhas.

Não é por acaso que sociólogos e psicólogos e muitos estudiosos do comportamento humano investigam a causa de mudança tão brusca na forma de comunicação do homem contemporâneo.

A linguagem cifrada nas redes sociais, em particular no facebook e no twitter começa a empobrecer a escrita. Seus usuários começam a se viciar em incontáveis entradas diárias na internet e começam a ter dificuldades em comunicação verbal frente a frente. E podem ter a certeza de que não estou exagerando.

Se um de nós consegue reunir amigos e travar um diálogo olho no olho, basta a primeira dúvida surgida quanto a determinado assunto, por exemplo, e pimba, todos aos celulares para entrar no Google e procurar as respostas. A partir desse momento a maioria corre aflita para as últimas do facebook, uma das maiores fontes de narcisismo e hipocrisia criadas pelo homem. Alguém ainda se lembra de como surgiu o facebook? A motivação do seu inventor?

Calma, calma. Como toda invenção do homem, o facebook e o twitter têm também o seu lado bom, não é verdade? Como a imprensa, os aviões, a energia nuclear e muitas outras coisas que também destroem. Mas isso já é uma conversa desinteressante e para muitos, sob certos aspectos, ultrapassada.

Voltemos àquela dúvida inicial: nosso planetinha tem princípio, meio e fim. Qual seria o ponto de inflexão entre o princípio e o fim? Já foi superado e não o percebemos? Estamos entrando nele? Ainda demora?

A comunicação e principalmente a falta dela pode ser um indício. A falta de comunicação costuma gerar falta de informação ou informação propositalmente distorcida ou falsa, chegando a provocar crises, revoluções, guerras, com suas fomes, epidemias e desempregos.

O avanço da tecnologia eletrônica deixa a mundo mais informado e cada vez mais confuso, pois em segundos recebemos notícias que em outros segundos são contestadas, gerando uma “síntese”, que também pode ser contestada em segundos depois. Em quem acreditar? Em qual jornal, emissora de rádio, revistas, telejornais e reportagens sensacionalistas? 

Afinal, a informação, o conhecimento, o saber estão a serviço de quem? Da humanidade como um todo ou de alguns grupos econômicos e países que dominam e controlam a informação como querem, mesmo que possam ser contestados aqui e ali, mas sem que isso coloque em risco o domínio de 1% da população sobre os outros 99%?

E vai piorar, pois estamos apenas no início de uma lavagem cerebral, de um manipular de consciências no varejo, enquanto o poder de fato se consolida com a proteção, no atacado, dos arsenais nucleares instalados em alguns poucos países. Ou é a minha verdade ou não é a verdade de mais ninguém.

Catastrofismo? Falta de assunto? Pessimismo? Novo período de caça às bruxas?

Gostaria de ouvir opiniões mais otimistas.

A ilustração acima, contudo, é bem curiosa, não?

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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