sábado, 21 de março de 2015

Paulo Freire não era só um cartaz no 15 de março

Via Sul 21 

Elvino Bohn Gass

Ir às ruas pedir um país melhor, como aconteceu no dia 15 de março, é um movimento que deve ser respeitado por quem defende a liberdade democrática. Não se confunda, pois, respeito com aquiescência a opiniões políticas equivocadas e cinicamente seletivas que, neste dia, tentaram atribuir a uma pessoa, Dilma, ou a um partido, o PT, a culpa pelos males históricos do Brasil. Para respeitar o 15 de março, é preciso retirar dele o viés eleitoreiro (“não tenho culpa, votei no Aécio”), golpista (“impeachment”), violento (“intervenção militar”, bonecos enforcados), anti-democrático (“fim do Supremo”), incoerente (Bolsonaro e alguns do investigados da Lava Jato estavam nas ruas) e desumano (“feminicídio, sim”). Sobra pouco? Ainda assim o exercício do respeito é necessário, porque este “resto” é o que de mais precioso há numa nação democrática: o direito de as pessoas dizerem o que pensam. Este direito também é meu, e exerço-o para repudiar quem sustentou, no dia 15, um cartaz com a aberração “basta de Paulo Freire”.

Talvez alguns dos que protestaram não saibam, mas 15 de março é o Dia da Escola. E Paulo Freire é uma das maiores referências da pedagogia popular moderna do mundo! Talvez os manifestantes também não saibam, mas a contribuição deste brasileiro à educação, fez dele Doutor Honoris Causa em mais de 40 universidades internacionais – entre elas as celebradas Oxford e Harward – e sua vasta obra integra a formação de educadores em todos os continentes.

Aquele cartaz seria apenas uma estupidez se não fosse uma ignomínia contra todo o país e sua cultura. Não por acaso, no Dia da Escola, a Unesco (braço das Nações Unidas par a educação, a ciência e a cultura), escolheu publicar em suas redes sociais, justamente uma frase de Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Sim, para Freire a educação é prática política. Então, quando um movimento autoriza, sem contestação que se diga “basta de Paulo Freire”, é porque sua organização contém a ideia de que basta “da prática” difundida por este educador. Nada pode ser mais equivocado. A maior lição de Freire é que a educação tem o poder de dar fim à opressão da classe dominante sobre a classe trabalhadora, dos patrões sobre os empregados, da patroa sobre a doméstica, do doutor sobre o motorista. Aquele cartaz carregava, portanto, uma espécie de confissão ideológica daqueles que com ele desfilaram. E que, não por acaso, eram brancos, ricos e conviviam “pacificamente” com inúmeros outros cartazes que pediam “intervenção militar”. O absurdo faz lógica entre os seus portadores, afinal, para os militares, a prática desse brasileiro cuja importância o mundo celebra e reconhece, rendeu-lhe cadeia e proibição de suas obras.

Talvez, a única resposta à tamanha estupidez seja mesmo a escolhida pela ONU. Não há transformação sem pessoas educadas. E pessoas educadas não permitem que se enxerte no conceito de democracia qualquer crime contra a honra, a memória ou a cultura de um povo. Aquele cartaz não apenas despreza uma das mais bonitas, generosas e profundas contribuições de um brasileiro ao mundo. Mas revela, também, o caráter anti-democrático de quem fez e de quem permitiu que desfilasse entre as palavras de ordem do dia. Foi apenas um cartaz, mas disse muito sobre o 15 de março.

Elvino Bohn Gass é Deputado Federal (PT-RS) e Secretário Nacional Agrário do PT

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