segunda-feira, 23 de março de 2015

O indigente mental que atacou Josué de Castro

Sanguessugado do Tijolaço

Miguel do Rosário

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(Desculpai-nos pelos idiotas do nosso tempo, Josué).

Agora já sabemos a fonte ideológica dos dementes que marcham nas ruas com faixas pedindo “militar intervention”.

Essa idiotia coletiva nasce do chorume industrial produzido por gente como Claudio Tognolli, que hoje escreveu um post com tantas mentiras contra os blogs que me recuso a respondê-las.

Me recuso sobretudo porque alguém que escreve o que ele escreveu, no mesmo post, sobre Josué de Castro, autor de um dos maiores clássicos internacionais sobre a fome, merece apenas indiferença e pena.

Mas escrevo alguma coisa porque entendo que o post de Tognolli tem uma função política. Ou mais de uma:

1) Aproveitar o milésimo tiro no pé do governo Dilma. Além de nunca ter feito políticas públicas em prol da diversidade na informação, vaza um texto em que expõe os blogs.

2) Intimidar o governo, para este continuar inerte e aterrorizado e concentrando os recursos institucionais exclusivamente na grande mídia, que patrocina idiotas metidos a serem os donos da língua portuguesa e da verdade.

3) Puxar o saco dos barões da mídia, que se sentem ameaçados, por incrível que pareça, por alguns blogs produzidos quase artesanalmente.

Trecho do post do Tognolli:

“Não vejo problema em se ganhar dinheiro no capitalismo. Não vejo problema em que blogueiros sujos mamem nas tetas do PT, para poder terem o nivel de vida pequeno burguês com o qual sempre sonharam. Esquerda caviar é isso aí. Josué de Castro, recifense, escreveu o seu “Geografia da Fome” e se cevava nos melhores restaurantes de Paris…”

Tem como ser mais previsível e medíocre?

Parece um comentarista do G1 que ganhou vida e passou a escrever num blog.

“Vida pequeno burguesa com que sempre sonharam”…

Não dá nem para acreditar que li uma coisa assim.

A frase sobre Josué de Castro, porém, merece ser condecorada como a estupidez do milênio.

Geografia da Fome, a obra-prima de Josué de Castro, foi traduzida para 25 idiomas. É considerada uma das obras mais importantes sobre o tema da história da ciência!

É incrível que alguém possa imaginar que para se escrever um livro científico e antropológico sobre a fome, seja necessário fazer jejum.

Josué de Castro esteva em Paris porque, entre outras razões, estudava obras e documentos que só existiam nas bibliotecas europeias. Depois voltou como exilado político da ditadura (escolheu a França em meio a 14 países que lhe ofereceram asilo).

Castro foi condecorado por grandes universidades do mundo inteiro, por sua contribuição à ciência e à luta contra a fome.

Foi presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas (ONU).

Esse é o “esquerdista caviar” que, segundo Tognolli, “se cevava nos melhores restaurantes de Paris”…

É incrível que alguém, em pleno 2015, tenha um preconceito ideológico tão imbecil.

Agora entendo o que quis dizer Chico Science quando escreveu: “Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça. Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

Talvez Tognolli ache que Hemingway, outro esquerdista inveterado, devesse ter escrito seus livros em abrigos de indigentes, ou que Gabriel Garcia Marques seja um hipócrita por não ter escrito Cem Anos de Solidão num acampamento de sem-terra…

Drummond, que foi editor do jornal do Partido Comunista, deveria ter escrito seus poemas morando numa palafita…

Graciliano Ramos, Lima Barreto, Jorge Amado, Glauber Rocha, Oscar Niemeyer, e a imensa lista de honrados e célebres intelectuais e artistas esquerdistas ou comunistas da nossa história, deveriam ter produzido suas obras sem beber um vinho, sem entrar num restaurante…

O preconceito antiesquerda no Brasil tornou-se uma doença.

Ora, eu admiro inúmeros autores e intelectuais apesar de terem sido “de direita” ou conservadores: Gustavo Corção, por exemplo.

Houve um tempo em que havia conservadores dignos, que respeitavam seus antípodas ideológicos. Hoje se tornaram essas bestas feras militaristas, fedendo a nazismo.

Mas eu agradeço a Tognolli.

Diante de manifestação tão grotesca de intolerância, preconceito e idiotia por parte de um blogueiro “limpo”, abrigado numa corporação norte-americana (yahoo), fico ainda mais orgulhoso de ser um blogueiro “sujo”.

Só espero que o governo não seja tão covarde (o que também é uma espécie de idiotia) a ponto de se deixar influenciar por esses indigentes mentais.

Eles não escrevem melhor que ninguém. Além de preconceituosos, truculentos, antidemocráticos, a tentativa de difamar Josué de Castro provou que são também monstruosamente burros.

E covardes, sobretudo. Tognolli não tem coragem de criticar a grande mídia. Sua valentia se exercita desafiando blogueiros “sujos”.

O governo tem de criar coragem e fazer exatamente o que eles estão tentando, desesperadamente, evitar, com essas ameaças toscas repletas de calúnias e mentiras: desmamar a grande mídia e disseminar os recursos institucionais pela internet.

Incluindo blogs, sites, portais e revistas de esquerda, por que não? Somos leprosos, por acaso?

Ou a verba institucional do Estado é um direito divino de grandes grupos de mídia que se consolidaram durante o período de “militar intervention”?

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