quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Venezuela, 4 de fevereiro de 1992: o começo da mudança!

Via Brasil de Fato

Uma vez mais, como em tantas situações similares, ações revolucionárias práticas e concretas revelam e desnudam visões conservadoras de setores da própria esquerda em relação a movimentos como aquele liderado por Chávez.

Beto Almeida

Quando o movimento bolivariano cívico-militar, liderado por Hugo Chávez, levanta-se em armas, convocando o povo venezuelano para assumir em suas próprias mãos o destino do país e para fazer Pátria, era como um raio de luz incandescendo corações e mentes, iluminando uma América Latina ainda imersa nas trevas do neoliberalismo, e foi ali que a Venezuela começou a mudar, vigorosamente.

O movimento não tinha atingido, por ahora,  os seus objetivos fundamentais, como disse Chávez  em discurso por rádio e tv anunciando a rendição temporária daquela empreitada, num recuo tático inteligente para poupar vidas. Mas, sua cara de negro e índio, sua fala larga como as planícies do país, altiva como os Andes e caudalosa como o Rio Orenoco já havia penetrado irreversivelmente na consciência do povo da Pátria de Bolívar.  Certa vez, representando a Telesur num evento na Universidade de Madri, um dirigente comunista espanhol me confessou que só depois do golpe de 11 de Abril de 2002, ele e seus camaradas, passaram a acreditar que Chávez era , de fato, um revolucionário. Ou seja, levaram 10 anos para entender o que o povo venezuelano compreendeu num discurso de Chávez de apenas 47 segundos. “Ele é um dos nossos”, me explicou um senhora idosa   -   moradora do Bairro de El Valle, que levava 1 hora para subir aquelas escadas e becos íngremes  com sacolas de compras, quando lhe pedi  que definisse  Chávez para mim    -    com um sorriso nos lábios, ao tempo em que me mostrava o quarto do médico cubano que ela acolhia em casa. “Ganhei um novo filho”, disse do cubano.

Em muitas ocasiões similares,em diferentes países, onde também ocorreram levantes, insurreições  e movimentos revolucionários conduzidos por militares,  também houve perplexidade e confusão na esquerda.  Juan Velazco  Alvarado, general peruano líder da  Revolução Inca,  que estatizou petróleo, aproximou o país de Cuba e da URSS, iniciou a reforma agrária, e que tinha em Hugo Chávez um grande admirador, também foi muito hostilizado pela incompreensão  dos comunistas da Pátria de Mariátegui. Também  o  Tenente-Coronel , Juan Domingo Perón chegou a ser tratado como fascista pelos comunistas argentinos, que chegaram  ao ponto de fazer comícios junto com o Embaixador Braden, dos EUA, pedindo a renúncia do líder peronista, em cujo governo se  estatizaram  as telecomunicações, o petróleo e o gás, a indústria naval, o sistema ferroviário, reduzindo  drasticamente a miséria, praticamente eliminou o analfabetismo, além de criar a Rede Pública de TV e Rádio da Argentina, com forte apoio ao desenvolvimento do cinema platense, que hoje retoma seu brilho fomentado pelas políticas audiovisuais de Nestor e Cristina.

Não foi muito diferente aqui no Brasil. Prestes , em longa entrevista publicado no jornal Tribuna Popular,  comunista, no dia 24 de agosto de 1954, pedia a renúncia de Getúlio Vargas. Poucas horas depois a própria direção do PCB mandou recolher os jornais das bancas quando se anunciou a morte de Vargas e houve uma verdadeira explosão de fúria popular contra os veículos da oposição imperial e oligárquica, não poupando nem mesmo a imprensa comunista. Vale lembrar que em 1930, Prestes recusa o convite feito por Vargas para ser o chefe militar da Revolução, convite aceito pelos outros militares revolucionários que haviam lutado na Coluna e nos outros levantes anti oligárquicos. Prestes, décadas mais tarde, terminaria sua longa e digna  vida  como presidente de honra do partido trabalhista liderado pelo varguista Leonel  Brizola.

Era Vargas

Antes, um levante cívico-militar liderado por Vargas, em 3 de outubro de 1930, havia conseguido o seu intento, colocando abaixo o regime oligárquico de Washington Luis, abrindo a passagem para uma Era de grandes transformações no Brasil, até hoje atacada pelos ideólogos do imperialismo e a oligarquia nativa, como Fernando Henrique Cardoso.

O levante conduzido por Vargas possuía um conteúdo democratizante, transformador, modernizante do País, que logo vê estruturado um sistema de direitos trabalhistas e sociais, com a CLT e Previdência , até mesmo o Ministério do Trabalho, inexistente, foi criado. Surge nova era na Educação, com o Manifesto dos Pioneiros, convoca-se a Constituinte, sepulta-se o voto a bico de pena, as mulheres passam a ter direito ao voto, antes mesmo da “democrática” França. E, quiçá numa mensagem muito atual, Vargas realizou, também,  uma auditoria da Divida Externa, após o que seu valor é reduzido pela metade, informação que até mesmo economistas progressistas não dão destaque, inexplicavelmente.  Todas estas transformações iniciaram-se com a aquele levante de 1930, um movimento cívico e militar, como o de 4 de Fevereiro de 1992..

Em 26 de julho de 1953, outro levante armado, lança-se a tomar o Quartel Moncada , com o objetivo de derrubar a Ditatura de Batista, em Cuba. Liderado por Fidel Castro, o movimento tinha como reivindicação política, entre outras, a  retomada da Constituição de 1940, uma das mais avançadas da América Latina. Nos seus objetivos imediatos o levante armado não alcançou o objetivo, mas historicamente, e legitimado pela história, foi muito mais longe, realizando uma Revolução Social que estendeu sua generosidade a vários continentes, inclusive sendo determinante para a Defesa da Soberania de Angola, para a Libertação da Namíbia, e para a derrubada do selvagem regime do Apartheid.  Mandela disse: “Devemos o fim do Apartheid a Cuba!”.  Que outro povo se levantou em armas para apoiar a libertação africana do colonialismo e sepultar o regime racista  sul-africano? A história não apenas absolveu, como legitimou o movimento de Fidel e a Revolução Cubana, como um verdadeiro patrimônio de toda a humanidade. Por qualquer continente por onde passa , a Revolução Cubana reparte médicos, professores, salva vidas, alfabetiza, distribui vacinas e exemplos humanistas!

O 4 de Fevereiro de 1992 é filho do Caracazzo!

Quando Chávez se lança à derrubada do corrompido e entreguista governo de Carlos Andrés Perez, responsável por sanguinária repressão ao levante popular conhecido comoCaracazzo, em 1989,tinha sobre seus ombros toda esta carga histórica. Sobretudo a herança de Bolívar! E a responsabilidade de mostra-la viva e correndo pelas ruas, não em mausoléus onde a burguesia carcomida Venezuela queria que Bolivar repousasse, inerte e representante apenas dopassado. A leitura dialética feita por Chávez sobre as ideias de Bolivar se comunica criativamente com a consciência popular, dando ao povo venezuelano um horizonte histórico, um sentido revolucionário do que é Ter Pátria! O 4 de Fevereiro de 1992 nasce da fúria popular desatada no Caracazzo. É sua superação história, organizada em nível superior, com um objetivo político definido!

Houve expressão de incompreensão inicial em relação ao movimento de Chávez, alguns dirigentes da esquerda brasileira chegaram a ver naquele audacioso levante de 4 de Fevereiro de 1992 apenas mais uma quartelada, com cheiro a golpismo. Uma vez mais, como em tantas situações similares, ações revolucionárias práticas e concretas revelam e desnudam visões conservadoras de setores da própria esquerda em relação a movimentos como aquele liderado por Chávez.

Imediatamente, Chávez não alcança o objetivo. É preso. Mas, se transforma no homem mais popular da Venezuela,mesmo na prisão. Filas e mais filas de populares se formam em frente ao presídio ,nos dias de visita, para ver a Chávez. Era o povo venezuelano entrando em cena....

Um das reivindicações da Pauta Política do Levante de  4 de Fevereiro era a Convocação da Assembleia Constituinte. Tal como ocorreu com os outros movimentos citados antes,que também possuíam reivindicações  de cunho democratizante, o 4 de Fevereiro alcança os braços da história e Chávez sai da prisão para ser eleito presidente da república, jurando perante a Constituição moribunda a transformá-la, convocando a Constituinte, tal como também ocorreu no Equador e na Bolívia.

Dia da Dignidade Nacional da Venezuela

Hoje, 23 anos depois daquele 4 de Fevereiro,  é importante que a esquerda latino-americana,  mas não só,  observem as lições deixadas pela ação extraordinária de Chávez como dirigente político revolucionário de envergadura universal, apesar de que alguns dirigentes na esquerda ainda imaginem que seria melhor que militares como Chávez ficassem nos quartéis. Imagine-se que desperdício histórico se Chávez não deixasse os quartéis para uma ação revolucionária transformadora da Venezuela.!! E, além do mais, transformando a Venezuela em alavanca protagonista, seguindo a visão bolivariana, de impulso à integração da América Latina e do Caribe, o  que já registra passos concretos, como a criação da Alba, da Telesur, da Petrosul, da PetroCaribe, do Banco do Sul, da Unasul, da Celac, da Operação Milagre que já salvou, em parceria com  Cuba, milhões de cidadãos latino-americanos da cegueira, gratuitamente.

Este é um balanço mínimo que se deve fazer do  libertário levante cívico-militar  de 4 de Fevereiro de 1992, Dia da Dignidade Nacional , quando uma força revolucionária se levanta, retira Bolivar do Mausoléu e o coloca a caminhar junto com as canções de Ali Primera, cantor revolucionário cantado por Chávez, transformando a Venezuela num país sem analfabetos, sem fome, com extraordinários avanços na saúde, da habitação, na redução da miséria. Um dos países com menor desigualdade social e que melhor cumpre as Metas do Milênio da ONU na América Latina. Um país que realizou todas as essas mudanças com estupendo apoio popular, vencendo 15 das 16 eleições, referendos ou plebiscitos que realizou durante o período da Revolução Bolivariana.

Poderoso exemplo para os povos,  a audácia de Chávez e a Revolução Bolivariana, que deu seu salto naquela 4 de fevereiro de 1992, caminha pelas avenidas da história ao lado de outros raios de luz transformadores, como a Revolução dos Cravos, como o Capitão Thomas Sankara, líder da Revolução Socialista de Burkina Faso, na África, chamado pelo comandante venezuelano como o Che Guevara negro. Nesse momento em que a Venezuela, por todas estas transformações, por sua posição soberana e independente, pelo estímulo à integração da América Latina, é alvo de permantes ações desestabilizadoras e golpistas por parte do império, é imprescindível que todos os países da Celac, entre eles o Brasil, assim como as forças progressistas brasileiras, renovem, ampliem, aprofundem e consolidem ações concretas de solidariedade à Revolução Bolivariana, tal como vem fazendo a Presidenta Dilma.

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