quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Os arquitetos do caos

Sanguessugado do redecastorphoto

Os arquitetos do caos na Ásia Ocidental

Vijay Prashad, The Hindu, Nova Delhi

The architects of West Asia’s chaos

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Obama e o rei Salman da Arábia Saudita

Pandemônio, eis o que se vê praticamente sem interrupção, da Líbia ao Iraque. O Presidente Barack Obama dos EUA voou de Nova Delhi diretamente para os braços do rei Salman, novo governante da Arábia Saudita. A dupla tinha muito a discutir. Nem um nem outro pode estar muito satisfeito com a desgraça que seus países fizeram e continuam a distribuir por toda a Ásia Ocidental. Tragicamente, o único caminho que pensam em reforçar é exatamente o mesmo que só aprofundará os problemas e os tormentos nos próximos anos. Claramente o exemplo deles é o Egito, onde a dupla EUA-Arábia Saudita apoiou o golpe do general Abdel Fattah el-Sisi, e agora apoia o governo dele, apesar da repressão contra protestos.

O assassinato de uma jovem socialista, Shaimaa el-Sabbagh, quando depositava uma coroa de flores na Praça Tahrir, no 4º aniversário da revolução contra Mubarak, é sinal da podridão. Não impediu que um destacamento do “Estado Islâmico” (EI) atacasse na Península do Sinai, fazendo 30 mortos, entre militares e civis. Na Líbia, os sauditas e os EUA apoiam o ditador (Khalifa Haftar), como apoiaram no Iêmen (Abdullah Saleh). No Iraque e Síria, EUA e Arábia Saudita não gostaram do que viram e tentaram desfazer tudo. Os sauditas são movidos por sectarismo – sempre contra os xiitas (e a influência do Irã). Por isso, são obcecadamente contra os governos em Damasco e Bagdá, como também se opõem furiosamente aos rebeldes no Iêmen. Obama e o rei Salman não conseguiram resolver os problemas na região: acabaram-se todas as ideias e palpites que tinham a oferecer. Agora, outros terão de indicar o caminho adiante.

Caos na Líbia

Líbia. O Corinthia Hotel é o mais luxuoso de Trípoli. Foi residência de primeiros-ministros sucessivos que temiam pela própria vida naquela capital perigosíssima (o Primeiro-Ministro Ali Zeidan foi raptado desse hotel, em 2013). Também abriga a missão da ONU, que conduziu um Diálogo sobre a Líbia, em Genebra. Dia 27/1/2015, pistoleiros entraram no hotel e mataram guardas e hóspedes estrangeiros (inclusive um mercenário que prestava serviços de segurança aos EUA). O ramo do Estado Islâmico em Trípoli reivindicou os créditos pela operação.

O caos impera na Líbia desde 2011. Dois governos dizem que governam o país – ambos apoiados em milícias e esquadrões-da-morte, ambos com exércitos estrangeiros a lhes dar cobertura. A missão da ONU – da qual o ocidente desertou depois da guerra em 2011 — não conseguiu criar nenhum processo de paz. O governo apoiado internacionalmente do Primeiro-Ministro Abdullah al-Thani enviou delegação a Genebra para unir-se ao processo de paz “conduzido” pela ONU. Os músculos desse processo são os do general renegado Khalifa Haftar, que faz guerra privada, sua, contra as milícias islamistas em Benghazi sob o nome de “Operation Karama” (Dignidade). Mas o governo de al-Thani está na cidade oriental de Tobruk, exilado da capital (Trípoli) e das cidades principais (Benghazi e Misrata). Vive à sombra do Egito e da Arábia Saudita.

O governo de al-Thani é uma concha. É o herdeiro dos que herdaram a Líbia das mãos do ocidente e dos estados do Golfo. As armas em campo não favorecem o grupo governante. Em Benghazi, a maré reinante ainda é comandada por um grupo islamista radical, Ansar al-Sharia, formado depois da queda do coronel Gaddafi. No oeste da Líbia, quem manda é o movimento conhecido como Fajr Líbia (Alvorada Líbia). Inclui o poderoso Escudo Líbio de Misrata e remanescentes do Grupo Islâmico de Combate Líbio. Seu Primeiro-Ministro, Omar al-Hassi, viveu no Hotel Corinthia, de onde teve de ser retirado em segredo por guardas da segurança. O grupo Alvorada Líbia recusou-se a participar das conversações de paz de Genebra. O ator mais poderoso afastou-se do processo anêmico apoiado pelo ocidente. Mostra bem o quanto o ocidente é irrelevante na Líbia contemporânea (a embaixada dos EUA para a Líbia está instalada em Malta). Quem manda na Líbia são Qatar e Turquia, apoiadores estrangeiros do grupo Alvorada Líbia.

É só simples questão de tempo, até que o Estado Islâmico estabeleça bases na Líbia. A cidade de Derna há muito tempo é centro de recrutamento de islamistas radicais. Piada que circula em Derna informa que é a cidade, em todo o mundo, que mandou mais combatentes da liberdade para Iraque e Síria.

Majlis Shura Shabab al-Islam

Em junho passado (2014), o grupo Majlis Shura Shabab al-Islam, um desdobramento do Ansar al-Sharia, aderiu ao Estado Islâmico. Declarou que passava a caçar as marda al-nafous (almas doentes) que ameaçava “esse nosso oprimido Estado Islâmico”. Não é difícil estabelecer laços operacionais entre Derna e Síria-Iraque; os milicianos continuam infatigavelmente a ir e vir o quanto desejem, através da Turquia. Ouvem-se ecos do Estado Islâmico entre Derna e Benghazi, onde os soldados de Ansar al-Sharia beneficiam-se da audácia das declarações de Abu Bakr al-Baghdadi. Do fundo da derrota, arrancam a sensação de vitória.

Ninguém quer paz

Iêmen. Velhas fissuras tribais no Iêmen que isolaram a comunidade dos xiitas zaidistas liderados pela família al-Houthi impuseram-se. Em nome da Guerra ao Terror, em 2004 o velho autocrata do Iêmen, Abdullah Saleh, traiu e matou o líder zaidista Hussein Badreddin al-Houthi. Um acordo político razoável teria posto fim a esse conflito, mas Saleh não quis acordo algum.

Inteiramente apoiado pelo ocidente, Saleh serviu-se de ataques com drones e muito suborno para destruir os inimigos. Atraída pela isca, a Arábia Saudita — que sempre, antes, desprezara Saleh — acabou por ceder aos próprios preconceitos anti-xiitas e aceitou apoiar o ditador em sua guerra contra os zaidistas. Saleh tratou os zaidistas – não a al-Qaeda – como principal inimigo. O grupo terrorista havia desaparecido do Iêmen, mas reapareceu em 2004, resultado de recrutamento nas prisões, experiência na insurgência no Iraque e ódio contra a guerra norte-americana de drones. Mas Saleh não usou todo o seu potencial de fogo contra a al-Qaeda. Seus inimigos estavam noutro lugar.

A “Operation Scorched Earth” [Operação Terra Arrasada] em 2009 levou a uma invasão saudita do Iêmen, para pôr fim à resistência zaidista. Dezenas de milhares de refugiados fugiram da região; não se conhece o número de mortos. Ninguém convocou qualquer processo de paz. Foi luta até o último homem.

Protestos de houthis na capital Sanaa

A Primavera Árabe no Iêmen permitiu que os rebeldes houthis se unissem aos protestos contra o governo de Saleh. A Al-Qaeda, enquanto isso, tomava o controle das cidades de Jaar e al-Husn. Um “diálogo nacional” convocado então não levou a qualquer solução. Os houthis queriam um acordo político. Os governos da Arábia Saudita e do Iêmen conseguiram convencer o ocidente de que os houthis seriam aliados do Irã. A partir disso, todas as atenções concentraram-se em manter os houthis longe do poder. Aí, precisamente é que o “plano” falhou mais fragorosamente; os houthis agora já assumiram o controle de Sana’a (capital do Iêmen). Ainda não se sabe se os houthis serão magnânimos na vitória; mas tampouco se pode adivinhar se os sauditas e o ocidente aceitarão qualquer gesto, mesmo que magnânimo, dos houthis.

Parte de uma guerra maior

Síria. No dia em que o rei saudita Abdullah morreu, o braço armado que representa os sauditas na guerra contra a Síria – o Jaish al-Islam de Zahran Alloush – disparou foguetes contra Damasco. Alloush anunciou por Twitter que faria “chover centenas de foguetes sobre a capital durante o dia todo, em resposta à barbárie que o regime cometera com ataques aéreos no Ghouta”. A guerra entre Alloush e o governo de Bashar al-Assad tornou-se guerra menor, mas nem por isso é escaramuça menos mortal na guerra maior no Iraque e Síria. Os inimigos do Presidente Bashar al-Assad não são absolutamente gentis, e assaltam áreas civis sem descanso e com requintes de crueldade.

Estado Islâmico é mantido por Israel, EUA, Qatar...

Os ataques israelenses dentro da Síria contra o Hezbollah, da resistência libanesa, só complicarão cada vez mais a situação. Confrontos nas Fazendas Shebaa, uma parte do Líbano ocupada por Israel, poderia ter-se convertido em mais uma guerra de Israel contra o Líbano. Enquanto foguetes voavam nas duas direções, o Estado Islâmico distribuiu documento no qual dizia que seria “prematuro” declarar um emirado no Líbano. Beirute respirou aliviada. São raras as boas notícias na região.

Mais para o norte, o Estado Islâmico sofreu duas derrotas militares. Em Kobane – a Stalingrado dos curdos – as Unidades de Proteção do Povo Curdo [ing. Kurdish People’s Protection Units (YPG) finalmente conseguiram expulsar os milicianos do Estado Islâmico. Ataques pela Força Aérea da coalizão dos EUA ajudaram a cortar as linhas de suprimento do Estado Islâmico, embora a sempre porosa fronteira com a Turquia sempre lhes garanta algum socorro.

Também no Iraque, a Brigada Badr, uma milícias de xiitas, atacou o Estado Islâmico na província de Diyala, que foi libertada. Nem o exército iraquiano nem o exército sírio tiveram qualquer função nessas duas derrotas infligidas ao Estado Islâmicos. Mas o Estado Islâmico é difícil de eliminar. O grupo desapareceu dessas áreas, e encontrou outras áreas onde se abrigar. Um ataque pelo Estado Islâmico em Kirkuk tirou a vida de um respeitado líder curdo-iraquiano, brigadeiro-general Sherko Shwany; o Estado Islâmico mostrou que continua no jogo. Empurrado para fora do Iraque e do norte da Síria, talvez assuma afinal a via que o levará ao norte da Jordânia.

O Estado Islâmico manteve preso um piloto jordaniano, tenente Mu’ath al-Kaseasbeh, durante um mês, mas só ameaçou executá-lo depois da queda de Kobane e Diyala. Disse que pouparia a vida do piloto, se a Jordânia libertasse uma quase-suicida-bomba iraquiana Sajida al-Rishawi (a bomba dela não explodiu, num ataque em 2005 em Amã, Jordânia); mas fracassaram as negociações sobre a libertação da moça, e o Estado Islâmico executou dois reféns japoneses. Ao que se sabe, o piloto jordaniano continua prisioneiro do Estado Islâmico. As tensões estão subindo na Jordânia, sobre o papel do reino na coalizão contra o Estado Islâmico. É precisamente o tipo de fissura que o Estado Islâmico quer ver crescendo na Jordânia. Qualquer passo para o sul, fará soar os sinos de alarme na Arábia Saudita.

Mu’ath al-Kaseasbeh; foto maior, de branco

Entrementes, um alto oficial da inteligência jordaniana me informa que já ruiu completamente a tentativa dos EUA para criarem uma força moderada contra o Estado Islâmico. A [operação] Müs’terek Operasyon Merkezi, que a CIA construiu com aliados na Turquia já fracassou. Um depois do outro, todos os grupos rebeldes que a CIA arregimentara trocaram a CIA por outras formações – mais recentemente, foi o Exército Mujahedin que se uniu à Frente Islâmica, grupo que reúne dois outros afiliados da al-Qaeda, Ahrar al-Sham e a Frente al-Nusra.

Verdade é que nem os EUA nem a Arábia Saudita têm qualquer agenda que faça algum sentido na Síria. Permanecem obcecados com derrubar o governo do presidente Assad, mas já estão em pânico ante o crescimento do Estado Islâmico. Quanto maior a audácia do Estado Islâmico em seu território natal, mais potentes os ecos enviados para a Líbia e para o interior da Península Árabe.


 

[*] Vijay Prashad é professor de estudos internacionais no Trinity College. Dentre outros livros, é autor de The Darker Nations: A People’s History of the Third World e Arab Spring, Libyan Winter.

Publica artigos regularmente em Asia Times Online, Frontline Magazinee Counterpunch. É usualmente entrevistado pela TRNN - The Real News Network  sobre Geopolítica e Política internacional; é também Editor-Chefe do LeftWord Books, Nova Delhi. É colunista de al-Araby al-Jadeed e Information Clearing House.

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