sábado, 7 de fevereiro de 2015

Novo Facismo

Via Brasil de Fato

De nada adianta retomar a trajetória de conquistas recentes, com sua face inegável embora incompleta, e apontar para a importância da continuidade dos programas de combate às desigualdades e de redistribuição de renda. A história não se escreve de trás para frente nem tem o final feliz dado de antemão

João Paulo 

O momento do “podemos” já passou. Chegou a convocação inadiável para o “devemos”. Se alguém esperava que as eleições seriam o divisor democrático que expressaria a vontade soberana da maioria, esse tempo ficou para trás. As forças conservadoras, na política e na sociedade, já deram a senha do terceiro turno estendido até 2018. Não há concessão, acordo ou negociação que sejam capazes de amainar o apetite da reação. Agora é na rua.

De nada adianta retomar a trajetória de conquistas recentes, com sua face inegável embora incompleta, e apontar para a importância da continuidade dos programas de combate às desigualdades e de redistribuição de renda. A história não se escreve de trás para frente nem tem o final feliz dado de antemão. A hora é de enfrentamento. O que se coloca, hoje, no Brasil, é uma situação explícita de luta de classes, não de confrontação elegante de projetos.

A movimentação golpista tem recebido as mais diferentes formas de apresentação, inclusive de pareceres jurídicos não solicitados (ou encomendados à socapa pelo ex-presidente FHC, num deslustro completo de sua biografia), e de depoimentos irresponsáveis de lideranças da oposição. O cinismo, em sua expressão mais antipática nas intervenções do senador Aécio Neves, deixou de ser um defeito de alma para ser um estilo. Sem falar da imprensa familiar, que retoma sua vocação histórica de criar condições para alimentar no dia a dia a antecâmara do golpismo.

A escolha da presidente Dilma Rousseff, nos primeiros movimentos do segundo mandato, em pôr em prática a agenda da oposição não a livrou de continuar sofrendo o mesmo ataque raivoso de sempre. Isolada pela direita mesmo quando parece atender a seus interesses, a presidente corre o risco de perder a confiança de seus eleitores. Além disso, em sua incitação à batalha da comunicação, elegeu mal seu interlocutor, mirando na mídia em vez de reconstruir a ponte com os movimentos sociais.

A campanha pela destruição da imagem da Petrobras, afora seu inegável impulso privatista, há muito desviou-se do interesse do combate à corrupção para ser uma cunha de inviabilização de um projeto nacional de longo prazo. Assim, além de comprometer o presente, ataca as garantias de futuro que seriam possíveis com os recursos do pré-sal. Uma Petrobras enfraquecida de dimensão pública poderia zombar, em nome de seus controladores e acionistas, da destinação de seu lucro para as áreas sociais, conforme definidos no regime vigente.

As derrotas no campo político institucional alçaram à presidência da Câmara o que há de pior. A pauta da direita conservadora dá a mão aos interesses fisiológicos do baixo clero, abrindo ainda a porta da chantagem política com a ameaça tácita da aceitação de pedidos de impeachment. Nem mesmo o caráter reacionário em termos de comportamento e direitos humanos, que já uniu a sociedade contra outros deputados execráveis, parece pegar em Eduardo Cunha. O que dá ainda mais descrédito à competência da articulação chancelada pelo governo.

O panorama cinzento indica a necessidade de retomada da base popular. Mas não vai ser fácil. A esquerda precisa recuperar a competência em mobilizar a população, em articular bandeiras progressistas consistentes e, principalmente, em assumir o confronto no dia a dia, em todas as frentes. Pode-se esperar como certo o aumento da repressão e a militarização da segurança em torno dos movimentos sociais e das manifestações de rua. Nada que não possa ser enfrentado.

O pensador francês Michel Foucault, nos anos 1970, alertava para uma mudança da cara do fascismo, de um monstro que partia do Estado e sufocava a sociedade com seu tacão, para um padrão de relacionamento entre as pessoas, inspirado pela lógica do mercado, onde reina o cada um por si. O discurso do golpe, do impeachment e do declínio da democracia popular é um feito fascista, fundamentado na defesa de que o bem-estar de alguns só é possível com a impossibilidade da vida de muitos. O esgarçamento da solidariedade social não é um descaminho, mas um projeto.

O novo fascismo pode ser diferente em sua substância, mais melíflua e insidiosa, mas seu enfrentamento não vai admitir derivações. Guerra é guerra

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