sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Jornalista comprado ( calma, gente, é na Alemanha!)

Via Rebelión

Telma Luzzani (*)

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Página 12

Líbia, fevereiro de 2011. Os jornais “sérios” do mundo anunciavam, com títulos alarmantes, que Muammar Khadaffi estava bombardeando seu povo, que iria envenenar as águas do país e que pelas ruas corriam rios de sangue. Salvo algumas vozes solitárias, como a de Jordán Rodriguez, correspondente da venezuelana Telesur, os meios de grande tiragem repetiam as notícias sem verificar sua veracidade. Pior ainda: publicavam inverdades sabendo disso, por dinheiro, com o objetivo de criar o clima propício para que a ONU, poucas semanas depois, em 17 de março de 2011, autorizasse os bombardeios da OTAN sobre a Líbia.

Assim o confessa Udo Ulfkotte, um dos mais prestigiosos jornalistas alemães, em seu livro Periodistas Comprados (Jornalistas comprados), um sucesso de vendas. Em seu livro, Ulfkotte admite ter aceito propinas para escrever, entre muitos outros artigos tendenciosos, um onde denunciava supostos planos de Khadaffi para usar gás venenoso contra seu povo. “Em inúmeras ocasiões, coloquei minha assinatura em notas que me foram entregues pelos serviços de inteligência dos EUA, da Alemanha ou da OTAN. Menti, traí, recebi subornos e ocultei a verdade à opinião pública. Não fazia jornalismo, mas sim propaganda. Me envergonho, embora seja tarde para reverter isso.” E advertiu: “Hoje acontece a mesma coisa: há jornalistas subornados para mentir e convencer as pessoas sobre a necessidade de uma guerra contra a Rússia. 

Ulfkotte acabou de completar 55 anos. Estudou jurisprudência e ciências públicas em Freiburg e Londres. Tem 25 anos de jornalismo, 17 dos quais como editor de um dos jornais mais importantes da Alemanha, o Frankfurter Allgemeine Zeitung. Como correspondente de imprensa, viveu no Iraque, Irã, Afeganistão, Arábia Saudita e Egito, e entre outros países do Oriente Médio. Políticamente, se alinha com o nacionalismo de direita, o que explica a fúria que sente pelo que ele considera como a “colonização” da Alemanha por parte dos EUA.  “A Alemanha se transformou em um país bananeiro”, comenta vez que outra. Foi colaborador do ex-chanceler Helmuth Kohl, e na atualidade se identifica com o movimento racista anti-islâmico Pegida.

Segundo seu livro, em parte autobiográfico, há um tráfego de envelopes, que vão da embaixada norte-americana, em Berlim, até as principais redações dos meio alemães. “Passam a informação ou mandam o artigo ou editorial que querem publicar  já redigidos”. Imediatamente, ele oferece uma relação hiper-documentada com nomes e sobrenomes, tanto de jornalistas (entre os quais se inclui), como das organizações que fazem “lobby” para instalar na opinião pública o que será “o senso comum predominante”, coincidindo com os pontos de vista dos EUA ou da OTAN. O esquema, diz Ulfkotte, repete-se nos programas de rádio e televisão. “ Salvo algumas poucas exceções, as redações europeias são sucursais dos serviços da CIA e da OTAN.

Como reagiu o poder midiático?

Quando os advogados do Frankfurter Allgemeine Zeitung souberam que o livro estava sendo impresso,  enviaram uma carta advertindo-me sobre as consequências legais que eu enfrentaria por publicar nomes e segredos. Eles sabem que eu tenho provas de tudo”, disse o jornalista em uma entrevista ao diário Rússia Insider . E é lógico que seu livro, que desde outubro de 2014 é Best-seller na Alemanha, mal e mal é conhecido no resto do mundo. “Nenhuma das empresas midiáticas permite que sejam feitas notas sobre Jornalistas Comprados, assegurou  ao diário russo. Nenhum jornalista pode fazer uma nota bibliográfica sem arriscar-se a ficar sem trabalho. Portanto, estamos diante de um livro que é um êxito editorial em vendas, mas não é permitido a nenhum jornalista escrever ou falar sobre ele”.  

Por que Ulfkotte decidiu dar esse passo? “Não tenho filhos e estou doente”, explicou. “Minha saúde ficou seriamente abalada depois de um ataque com gás no Irã, em 1988. Tive três paradas cardíacas. Pensei durante quatro anos e decidi escrever a verdade  sobre o que fazem os meios e os jornalistas alemães. Agora, estão procurando uma guerra na Europa com a Ucrânia como pretexto. Isso me preocupa. Não quero mais guerras. Não quero ser parte do longo braço de propaganda da OTAN. Não quero apoiar o belicismo. Estou preparado para assumir as consequências”. Em seguida, brincou com o jornalista do Russia Insider: “Talvez tenha que terminar pedir asilo à Rússia, como o ex espião norte-americano Edward Snowden”. 

Sobre o conflito no leste da Ucrânia, Ulfkotte acredita que a manipulação das notícias é massiva. Segundo ele, não há dúvidas de que quando o semanário alemão Der Spiegel publicou a informação de que o Boeing malaio (voo MH 17) foi derrubado sobre a Ucrânia por um míssil russo, o fez sob orientação dos serviços especiais, embora sem apresentar nenhuma prova. Ulfkotte lembra que essa notícia serviu de pretexto para que o Ocidente impusesse sanções econômicas contra a Rússia, algo que para ele deve ser interpretado diretamente como “uma declaração de guerra econômica em grande escala, em seguida complementada com a redução artificial do preço do petróleo e a desvalorização do rublo, tudo orquestrado com a mesma finalidade”.

Três meses depois de editado, o livro de Ulfkotte continua sendo quase desconhecido (fora da Alemanha – N. do T.) Neste final de semana, no quadro da Conferência de Segurança de Munique, a Europa rejuvenesceu sua doutrina militar sob o olho vigilante e os bons conselhos dos EUA, representado por seu vice-presidente, Joe Biden, e seu chanceler, John Kerry. Um dos debates se centrou sobre a entrega ou não de armas à Ucrânia. Os  EUA apostaram pela opção bélica. A chanceler Ãngela Merkel rechaçou o plano de entrega de armas. Contudo, o presidente ucraniano, o pró-ocidental Petro Poroshenko, usou o fórum de Munique para mostrar alguns passaportes russos que supostamente soldados no leste da Ucrânia portavam. Casus belli? Veremos em poucos dias o desenlace.

(*) Jornalista e escritora especializada em política internacional.

Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=195355&titular=periodista-comprado-

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