terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Futebol. Futebol?

Via CartaCapital

Façamos festa: o Real Madrid está em crise!

"Beijo, Cavalinho". Crédito: AFP | Dani Pozo

“Beijo, Cavalinho”. Crédito: AFP | Dani Pozo

Eu não sei vocês, mas sinto certa alegria ao ver um time bilionário em crise. Ou algo minimamente próximo a isso. É o caso do Real Madrid. Eles não têm conta atrasada, torcida única, cadeira quebrada, tumulto ao redor do estádio, lateral oriundo do Figueirense. Nada. Tudo é uma maravilha. O Santiago Bernabéu é praticamente um museu pulsante. As pessoas levantam na hora certa, aplaudem na hora exata. É como ligar o PlayStation e ter aquela torcida sempre a favor, bem vestida, com assento e educação sempre reservados.

Ser torcedor do Real Madrid é fácil demais. Assim como torcer pelo Barcelona, Bayern de Munique, Chelsea. Nunca falta dinheiro. As estrelas estarão lá. Os estádios sempre lotados. As ações de marketing não precisam de nada além de um espirro. Aqui no Brasil, vendem-se mais camisas do Barcelona para crianças do que qualquer outro time nacional. É triste, mas é o sinal dos tempos. As crianças não querem sofrer. Querem ganhar. Talvez os pais incutam isso em suas cabeças. A geração domada a vencer logo após aprender a fazer xixi sozinha e amarrar os cadarços. Não há tempo a perder. Muito menos partidas.

Reprodução AS.com

Reprodução AS.com

Então, não é só alegria. Eu sinto um verdadeiro prazer ao ver um torcedor merengue ignorar o horário de trabalho, pichar de forma grotesca uma faixa e ir ao campo de treinamento xingar os jogadores. Eu fico esfuziante ao ler que o presidente reunir e cobrou explicações do elenco e do técnico. Eu cheguei a gargalhar vendo torcedores do Real em redes sociais compartilhando a foto de Cristiano Ronaldo aparentemente embriagado, em uma festa privada, horas depois da derrota por 4 a 0 contra o Atlético de Madrid.

Porque isso é a vida. Ou ao menos, isso é a vida dos nossos times aqui no Brasil. Aqui, você ganha um campeonato e dois meses depois tem torcida chutando o carro do treinador. Aqui, você perde um clássico e o atacante é agredido na saída da agência bancária. Aqui, você foge do rebaixamento e comemora como um título. Aqui, os presidentes dos clubes brigam como ginasiais. Aqui, o futebol é uma verdade constrangedora. Alguns se esforçam para demonstrar alguma evolução, mas tudo não vai além da embalagem das arenas. Os clubes brasileiros são como o verso de Vinicius de Morais: a felicidade é a pluma que o vento vai levando pelo ar.

Parece um deboche a mídia espanhola falar em crise. O time que há poucos meses levantou a Champions League pela décima vez. O time que tem o melhor jogador do mundo. O time que, pasmem, ainda lidera o Campeonato Espanhol. Mas no fundo, o torcedor parece ter algo em comum. Ele percebe a falta de paixão em um time. Os cofres cheios, a alma vazia. O Real Madrid sabe que a vitória é algo protocolar. Uma obrigação quase entediante quando os adversários fedem à derrota.

Então, os dois cidadãos segurando a faixa são hoje meus ídolos. Eles encararam o ridículo de protestar contra uma folha salarial de 650 milhões. Eles não se importam com a sala de troféus abarrotada. Eles perceberam aquilo que o futebol moderno propositadamente esconde: a derrota doeu mais neles do que nos jogadores. E isso é a maior frustração que um torcedor pode carregar como uma ferida aberta. A falta de alguém que entenda o motivo do choro e faça valer cada estúpido minuto dedicado ao clube. Ou, em suas próprias palavras, o riso deles, a nossa vergonha.

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