sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como cozinhar um governo

Sanguessugado do Tijolaço

Fernando Brito

caldeirao

O “parecer” do advogado de Fernando Henrique Cardoso foi – ainda que antes da hora – como aquela colher do caldo que se tira da panela para ver se o cozido já está “no ponto”.

O que cozinha, já ficou claro, é o governo – sempre é bom repetir, eleito pelo voto popular – de Dilma Roussef.

É verdade que foi posto a cozinhar faz tempo, mas – passadas as férias de janeiro, porque ninguém é de ferro – o fogo foi, como eras esperado, levantado e arde em volta do panelão como uma fogueira.

Era esperado, aliás, por todos, talvez menos pela senhora Presidente, que deixou de aproveitar a força de um governo que se reinstala para criar um mecanismo de freios e contrapesos que tornasse a situação política, ao menos, equilibrada.

Achou, talvez, que dar o ministério da Fazenda a Joaquim Levy bastaria para a acalmar a matilha.

Embora aqui e ali com medidas corretas – e um lote de tolices junto e misturado – os sinais foram claros, quase uma promessa de que terão todas as políticas que desejam.

Mas isso é inútil.

Não percebeu que o que a matilha deseja não é um ministério, ela quer o governo que não consegue agarrar pela boca das urnas, tal e qual sempre ocorreu, neste país, com a UDN.

Dilma sumiu-se, calou-se e dá a todos a impressão de que está aturdida.

Embora, a si mesma, possa estar vendo como estóica.

O meu caro Ricardo Kotscho, a quem a natureza pessoal e o tempo impedem análises radicais e imprudentes, diz hoje, com toda a razão:

Isolada, atônita, encurralada, sem rumo e sem base parlamentar sólida nem apoio social, contestada até dentro do seu próprio partido, como estará se sentindo neste momento a cidadã Dilma Rousseff, que faz apenas três meses foi reeleita presidente por mais quatro anos? Ou, o que seria ainda mais grave, será que ela ainda não se deu conta do tamanho da encrenca em que se meteu?

Nem ela, nem o PT, que pela sua natureza pequeno-burguesa, não consegue entender que as “instituições republicanas”, no Brasil, refletem a república excludente, elitista e, mais do que nunca nestes tempos, regida pela mídia dominante.

Ou será que não acreditam que, desta vez, as tropas inimigas de um projeto progressista e socialmente justo de Brasil não vão parar, como fizeram os americanos na primeira “Tempestade no Deserto”, às portas de Bagdá?

Que desta vez o alvo estratégico, mais do que ela, é Lula.

É impressionante a falta de reação, inclusive à “porta aberta” que se tornou o seu próprio gabinete, no qual as (in)decisões são tomadas diante da reportagem da Folha, o que reduz, se é que não aniquila, a eficácia que possam ter as mudanças.

Porque quem irá se apresentar para estancar a crise imposta ao Governo se, até ao ser lembrado, já enfrenta contestação de grupos palacianos ou, até, para usar a expressão dos jornais, “resistências” da própria chefe do Governo?

Lamento ter de voltar ao texto do Kotscho:

“É duro e triste ter que escrever isso sobre um governo que ajudei a eleger com meu voto, mas é a realidade.”

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