sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Brasil: um país impossível?

Sanguessugado do Outras Palavras

Alessandra Nilo

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São muitas as medidas necessárias para enfrentar a crise civilizatória em que nos metemos. Investigar os donos dos 20 bilhões de dólares do HSBC seria um bom começo

Por Alessandra Nilo

Enquanto o mundo enfrenta uma combinação de crises sem precedentes: de produção, de padrões de consumo, de relações financeiras e sociais, aqui no Brasil os ‘líderes’ não saem do palanque. A contagem do planeta é regressiva, e prefere-se ignorar a derrocada de princípios que são essenciais para a própria condição humana. Mas não adianta fingir-se de cegos: todos correm juntos e de mãos dadas para um tamanho desastre ético que, num mundo globalizado, não terá fronteiras nem limites.

É verdade que o aumento das informações circulando torna as desigualdades e violências mais evidentes e dificulta justificar o porquê, com tantas tecnologias e com tanto conhecimento disponíveis, as iniquidade persistem enquanto corporações e interesses privados se fortalecem. Hoje é mais fácil entender como os grupos que controlam armas, alimentos, energia, medicamentos, drogas (inclusive as legais) e o setor financeiro transformaram-se em grandes ‘famílias’ de transnacionais com poderes maiores até do que a maioria dos países.

É mais fácil entender, mas continua difícil resolver. Especialmente em países como o nosso, onde a vontade política está em falta e onde antigos heróis morrem de overdose de poder.

A combinação de crises atuais (energia, alimentos, água, financeira, política), portanto, não acontece por acaso. Elas são partes dessa enorme crise de corrupção dos valores baseados nos bens comuns. No Brasil, a síntese é a apropriação do público pelo privado ter se transformado num comportamento corriqueiro e justificável, não apenas em todos os poderes da República, mas também em muitos setores da sociedade.

Da lama ao caos, do caos à lama? Ou vamos nos reinventar?  A história mostra e os fatos atestam que qualquer coisa menos que mudar tudo (o modus-operandi e status quo), resultará apenas no surgimento (de mais) fanáticos fundamentalistas e numa maior concentração de riquezas o que, em cascata, tornará ainda mais distante a agenda mais básica de direitos humanos, sociais, culturais, econômicos e ambientais.

A tensão é palpável e a pressão aumenta na mesma proporção que mais e mais pessoas passam a se perguntar por que, afinal, são sempre elas as que continuam pagando as dívidas públicas para que poucas pessoas continuem ainda mais ricas.

Enquanto essas respostas não chegam (e as reformas políticas e tributárias no Brasil não avançam como necessário), é possível cobrar coisas mais simples. Que tal uma boa investigação sobre os donos dos 20 bilhões de dólares guardados no HSBC? Acho que estamos todos muito curiosos a respeito.

Alessandra Nilo é co-coordenadora da Campanha TTF Brasil – Pela Democratização da Economia. (ttfbrasil.org/https://www.facebook.com/)

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