segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Vai pra Cuba

Via  SUL 21

Eduardo Mello

Deveria ser um chamado à razão, apesar do que pensam alguns filósofos de rede social. Um verdadeiro desafio intelectual, já que poucos lugares evocam tantas contradições. Para o bem e para o mal, para conservadores e para progressistas. Nem céu, nem inferno. Porque tudo depende da escala de valores, de amores, de cada um.

“Não é que as coisas sejam ruins, tenho bom salário e minha filha ótima escola”, diz a dona do apartamento durante o almoço em Havana. “Lo que pasa es que hoje minha vida é assim; há dez anos, era igual; e se vierem daqui a dez anos, provavelmente será assim também”. Queixou-se do excesso de política. “Gosto do Comandante, mas há vezes em que chego cansada, só quero assistir à novela brasileira, e de repente ele entra em cadeia nacional e fica horas a falar do bloqueio, como se eu já não soubesse”.

A empregada, uma negra sexagenária com rastafári, era um pouco menos alegre. Disse que seguia trabalhando porque sua aposentadoria não servia “nem para comprar um sorvete”. Enfermeira, contou ela que estava no hospital de Santa Clara quando Che chegou com o braço ferido. Avisa, em voz baixa, que serve presunto apenas para nós, pois não gosta dos outros hóspedes – dois tchecos de movimentadas noites.

Era dezembro de 2006, o Comandante Fidel Castro não era visto há seis meses. Começava mais uma edição do “Nuevo Festival del Cine Latinoamericano” e passávamos o dia pulando de um cinema a outro em Havana. A programação tinha de tudo, inclusive filmes americanos. “Dois filhos de Francisco” venceria o prêmio do Júri Popular. Nosso voto foi para “Direito de família”, do argentino Daniel Burmán, que acabaria com o prêmio de Melhor Diretor. O Cine Payret, construído em 1898, lotava as seus mais de 2 mil lugares. Pode ter sido a primeira vez que fomos a um cinema com gente de todas as idades, de todas as cores. Um cinema sem classes.

Ninguém se negava a conversar, pelo contrário. Era a época do Plano Bush, que pretendia apoiar uma espécie de transição no país. Um outdoor mostrava crianças sem pais, com o alerta: “o Plano tirará o sorriso da manhã, o abraço carinhoso da família… Gracias, já vivemos em Cuba libre”. Pergunto sobre tal plano a um artesão em Varadero. “Sou engenheiro industrial aposentado, viajei o mundo, tenho cidadania espanhola, mas não troco a ilha por nada. Transición? Estamos em transição desde 1959, muchacho!”.

Em Sancti Spíritus, um amigo convida para um singelo café em sua casa. Queixa-se dos filhos mais velhos, que “só pensam em ir pra Miami, acreditam no ‘canto da sereia’ do capitalismo, acham que no primeiro dia vão ter carro e apartamento na praia”. Lamenta que estudou mas ganha mais como taxista, porém, e que não pode comprar o melhor leite em pó para seu bebê. “Por causa do preço ou do embargo?”, pergunto. “Los dos”, diz ele.

Tomamos um ônibus para Trinidad, cidade de arquitetura colonial, onde nos hospedamos na casa de um médico e de uma enfermeira, que falaram um pouco do sistema de saúde. Nunca poderíamos imaginar que quatro anos depois seríamos socorridos, na Guiné-Bissau, por um médico cubano. O avô bebe demais e vai dormir aos gritos (“digam aos turistas que queremos nossos dólares, nossos euros!”).

Uma das avós, aparentemente com uns 80 anos, só aceita conversar após o fim da novela (“O clone”…). Busca a garrafa, começa a balançar-se na cadeira, olhando a noite emoldurada na janela. “Eu vivi nessa ilha antes do triunfo de la Revolución, muitas lojas, carros… mas ninguém tinha dinheiro pra nada, isso aqui era o putero dos americanos! Se é pra voltar a ser o que era, prefiro que isso tudo se exploda, la puta que los parió!”, disse ela, exaltada, e tomou mais um gole de rum.

A neta pede desculpas pelas palavras, pelas palavronas da avó, e eu me vejo em um livro de ficção científica. “Ustedes sabem como es, a vovó tem muitos traumas. Ela viveu no tempo do capitalismo”.

Eduardo Mello, diplomata desde 2008, é Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Serviu nas Embaixadas do Brasil na Guiné-Bissau (2010-2012) e no Chile (2012-2014). Atualmente trabalha na Assessoria Internacional da Presidência da República. A coluna reflete apenas as opiniões do autor.

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