sábado, 17 de janeiro de 2015

Quando é mais fácil comprar uma pistola do que um tomate

Via Insurgente

Esther Vivas

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

Insurgente.org

Associamos os supermercados à abundância de comida, a prateleiras sempre cheias, a uma grande variedade de produtos. Em troca, os supermercados, embora não pareça à primeira vista, podem ser geradores  de fome e escassez de alimento. O exemplo, como paradigma, o temos nos Estados Unidos nos chamados “desertos alimentares”, comunidades urbanas ou rurais onde é impossível comprar comestíveis, a não ser que você vá a um McDonald`s, a um Kentucky Friend Chicken ou a um Burger King. Mas o que tudo isso tem a ver com os supermercados?

Ao longo  das décadas de 40 e 50, nos EUA, à medida que as famílias de classe média e alta se mudavam para os novos bairros periféricos e se consolidavam os grandes centros comerciais, muitos supermercados se “mudaram” com eles, deixando atrás de si lugares praticamente sem comida. Por que permanecer onde estavam os mais pobres, que gastavam pouco dinheiro com comida e davam escassos lucros, se em outros distritos podia-se ganhar muito mais? A resposta para a grande distribuição, desde a Wal-Mart, passando Kroger até Safeway, foi fácil.

Nos Estados Unidos, calcula-se que mais de 23 milhões de pessoas vivem em “desertos alimentares”, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, áreas onde não se pode encontrar comida fresca num raio de uma milha (1,6 quilômetros) ou mais. Indianapolis e Oklahoma City encabeçam o ranking. Em outras cidades, como Detroit, a metade de seus habitantes, 550 mil, padecem desse mal, em Chicago são 600 mil que sofrem, cerca de 21% de sua população; em Nova York, são 3 milhões de pessoas. Para todas elas, o local mais próximo onde adquirir alguma coisa para comer é uma cadeia fast-food ou uma lojinha, onde além de tabaco e licores podem encontrar alguns pacotes de batatas fritas, balas ou refrigerantes. Trata-se de um dos maiores problemas alimentares do país.

Muitos são os que suplicam às grandes redes que voltem para de onde há muito tempo foram embora. Contudo, elas não são a solução, mas sim o problema. Os supermercados, em seu momento, “invadiram” o centro das cidades, baixando os preços momentaneamente (uma grande rede pode permitir-se reduzir os preços em um estabelecimento e subi-los em outro, no final, dá no mesmo, o que resultou ser letal para o pequeno comércio). Fecharam as mercearias, os pequenos armazéns que existiam há muitos anos, e somente restaram as grandes redes, mas quando para estas os lucros não foram os esperados, desmontaram o circo  e foram embora. Agora, em muitas áreas pobres  urbanas e rurais norte-americanas, não restam nem supermercados, nem armazéns, nem comida fresca.

APARTHEID ALIMENTAR

São bairros onde vive gente pobre, sem recursos, pessoas idosas, que não podem pegar o carro e ir comprar nas grandes redes, simplesmente por que não tem carro. Outro que os define é que são bairros habitados principalmente por pessoas negras. Daí que alguns autores falem de “apartheid alimetnar” ou “segregação alimentar”,onde as desigualdades sociais e raciais estipulam o que uns e outros comem. Um exemplo: se dividirmos a cidade de Oakland, na Califórnia, entre a planície, local de residência das pessoas negras e mais pobres, e as colinas, onde se encontram aqueles com maior poder aquisitivo, observaremos que na planície há um supermercado para cada 93 mil habitantes, enquanto que nas colinas há um para cada 13 mil. Um dado mais: o número de lojas de bebidas é inversamente proporcional. O bolso e a cor da pele determinam o acesso ou não à comida.  Como dizia o ativista alimentar californiano Brahm Ahmadi: “Hoje, em muitas comunidades urbanas onde moram as pessoas negras, é mais fácil comprar uma arma de fogo do que um tomate fresco”.

Contudo, não se trata somente de comer ou  não comer, ma sim da qualidade da comida. Dessa forma, os “desertos alimentares” comportam também problemas de saúde para aqueles que sofrem com eles.  A dificuldade para ter acesso  a alimentos frescos  gera maiores níveis de obesidade, diabete e doenças do coração,  segundo o Departamento de Agricultura dos EUA. Em South Los Angeles, residência das comunidades com menos renda e das  minorias étnicas, com 1,3 milhões de habitantes com dificuldades de ter acesso à comida, o percentual de pessoas com obesidade é três vezes e meia  maior em relação às pessoas que habitam a rica West Los Angeles, e o número de adultos com diagnóstico de diabete é duas vezes e meia mais elevado, como analisa um relatório da organização The Community Health Council. Com menos dinheiro, menos comida e comida ruim,  e menos saúde.   

De desertos e oásis

O conceito de “desertos alimentares “ não agrada a todo mundo. Vários ativistas tem criticado seu uso, assinalando que um deserto é um fenômeno natural, enquanto que a privação de comida não tem nada de natural ou acidental, mas sim são consequência de determinadas políticas que excluem os alimentos frescos e saudáveis dessas comunidades. Por outro lado, falar de “desertos alimentares”, segundo os críticos, tira o foco de suas causas reais, as desigualdades sociais, e impede visibilizar as alternativas que estão surgindo em muitos desses locais.

De fato, e tomando a metáfora do “deserto”, embora isso gere debates, em seu seio encontramos alguns “oásis”, e vamos além. Diante das dificuldades em conseguir  comida, moradores e moradoras  se puseram a trabalhar  juntos para dinamizar a economia local, criar hortas urbanas, organizar mercados de agricultores e promover grupos e cooperativas de consumo.  Um caso desses é o People`s Grocery, em Oakland, que impulsionou, entre outras iniciativas, um “mercado sobre rodas”, para levar alimentos frescos à bairros sem acesso aos mesmos., e o êxito dessa experiência fez com que ela fosse realizada em outras cidades.

Hoje, quando alguns pedem o “retorno dos supermercados” para conseguir alimentos  nos bairros mais pobres, e há redes que se propõem a voltar, outros se perguntam se a história não se repetirá. Na cidade de Oakland, cerca de 150 pequenos estabelecimentos tiveram que fechar suas portas depois da chegada dos supermercados.  Atualmente, com o desenvolvimento de alternativas á grande distribuição diante da sua ausência, há os que se perguntam se seu regresso não acabará, como já aconteceu no passado, com essas novas experiências de agricultura, comércio e consumo local. Essa é uma questão que não pode ser desprezada.

Por outro lado, outras experiências emergem por parte de quem menos se espera. Quem diria que o ator Wendell Pierce, que representou um dos personagens mais queridas da série Treme, o trombonista Antoine Batiste, e também o detetive de homicídios Bunk Moreland, companheiro do indomável McNulty, em The Wire, seriam alguns dos promotores  da abertura de vários supermercados em diferentes  “desertos alimentares” de sua cidade natal New Orleans, na Louisiana? Seu objetivo:prover, através da recém criada cadeia Sterling Frms Fresh Food,  alimentos sãos, frescos e saudáveis, especialmente frutas e verduras, aqueles que menos possuem.

E na Europa?

Os desertos alimentares também são uma realidade na Europa. Alguns dos casos mais documentados encontram-se na Grã-Bretanha, onde uma pesquisa conduzida pela Harper Adams University colocou em evidência como muitas áreas do país tinham se transformado em desertos alimentares nos últimos anos, com o consequente impacto negativo na dieta e na saúde  de seus habitantes. Segundo o referido estudo, em escala nacional, entre os anos de 2001 e 2007 tinham sido fechados 29% dos pequenos estabelecimentos comerciais de alimentos, deixando muitos bairros sem locais próximos  onde comprar comida fresca. É um problema especialmente importante para aquelas pessoas com  mobilidade reduzida,  mais idosas, sem veículo e pouca renda.  Como indicam os autores da pesquisa, em um país onde se calcula que em 2060 haverá 7 milhões de pessoas com idades compreendidas entre os 65 e 74 anos, e quase 3 milhões com mais de 85 anos, essa problemática não fará outra coisa que agudizar-se.
No Estado espanhol, a implantação da grande distribuição tem algumas características próprias, diferentes do mundo anglo-saxão, com uma maior presença dos supermercados no centro das cidades. Dessa forma, aguardáremos para ver se os “desertos alimentares “ acabarão por se tornar uma realidade aqui na Espanha também. Alguns estudos feitos até o momento, contudo, indicam que determinadas áreas, especialmente as rurais, já podem ser qualificadas como tais, “já que o índice de densidade comercial por habitante, confirma a existência de territórios rurais com escassa ou nula existência de estabelecimentos comerciais na área de alimentação”.

E ainda, esses estudos constatam as dificuldades metodológicas para sua realização e compilação de dados. Além disso, a crise econômica leva cada vez mais pessoas a uma situação de pobreza  a cada dia, sem dúvida, com as consequentes dificuldades  para fazer frente ao pagamento de moradia, energia e comida.

Haja visto tudo isso, os “desertos alimentares” são, nem mais nem menos, outra das consequências de subordinar a alimentação aos interesses das grandes empresas, sejam elas supermercados, agroindústria, etc.  Quando na valorização da comida somente conta o econômico, a capacidade aquisitiva do consumidor é a única que determina se este vai alimentar-se ou não. De forma que, sem dinheiro não se come...e os supermercados são os primeiros a levar essa máxima à pratica.

Esther Vivas@esthervivas |facebook.com/esthervivas| www.esthervivas.com

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