quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

ANTECEDENTES DO MENOR:

Vina Guedes via feicibuqui da Raquel Teixeira

ANTECEDENTES DO MENOR:
Furto, roubo, lesão corporal, ameaça, e mais furto e mais roubo. A lista de condutas praticadas por ele que são descritas, pela lei, como “crime” era, de fato, muito considerável.
É um daqueles casos em que olhamos para o adolescente com total desesperança, sem conseguir deixar de lado o olhar de desaprovação. Um jovem estudante de Direito chegou a comentar: “Num caso desse, só matando”. O que ele não sabia é que aquele adolescente já havia morrido há, pelo menos, 11 anos.
Aquele “bandidinho repugnante”, assim se referia a ele uma das vítimas, “é um lixo, Doutor, ele fede. Isso nem é gente”, fora abandonado pela mãe quando tinha apenas 6 anos de idade. Deixado nas ruas de uma cidade com cerca de 300 mil habitantes, num semáforo. Segundo me disseram, a mãe foi morar com um senhor que, embora tivesse o bom senso de sustenta-la, não aceitava o menino.
A partir de então, essa criança cresceu na rua, praticando favores sexuais aos meninos maiores em troca de alimento, furtando uma coisinha aqui e ali. Sofreu toda sorte de abusos, toda forma de violência que se possa imaginar.
Mas ninguém fala (será por quê?) em prender quem passe de olhos fechados diante dessas inúmeras crianças e adolescentes abandonados à própria sorte, cuja vida só ensinou sentenças de dor, de morte e de revolta íntima.
O Estudante de Direito falou:
Tem que prender esse troço. Não dá pra andar na rua seguro com isso solto, não. Daí perguntei: Ele ameaçou o Senhor de que jeito? Colocou a mão dentro da blusa e falou que se eu não obedecesse eu ia me dar mal.
E o que ele exigiu do Senhor, pode dizer? Ele queria o quê?
Ele queria água e comida.
Senti uma imensa vontade de mandar o doutorzinho para o inferno junto com a lista de antecedentes do menino. Aquela lista de antecedentes não servia à condenação ou à absolvição do menino. Aquele lista de antecedentes condenava a todos nós. Documento inconteste da hipocrisia do mundo e da precariedade, da inconsistência de uma palavra tão recorrente na boca dos “cidadãos honestos”: justiça.

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