terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A vala de Melilla

Sanguessugado do Palvras Insurgentes

Elaine Tavares

É sempre muito comum a alusão à queda do Muro de Berlin, como um episódio chave para a fim do chamado "regime comunista". Sua derrubada foi saudada como um símbolo da liberdade de ir e vir das pessoas, já que os alemães que viviam na parte oriental não podiam atravessá-lo. Mas, se a sua queda abriu caminhos aos alemães orientais outros muros seguiram se erguendo, impedindo o movimento das pessoas, em pleno sistema da "liberdade", como é saudado o capitalismo. A "terra das oportunidades s" tem, igualmente, seus impedimentos aos seres humanos. E quem grita contra isso? Quem se insurge? Poucos. Os velhos ativistas dos direitos humanos. Os que entendem que nem o comunismo, nem o capitalismo podem levantar muros às gentes.

Ainda assim, vimos surgir na Palestina ocupada o aviltante muro que separa famílias, que oprime pessoas, que torna os palestinos prisioneiros em sua própria terra. Quilômetros e quilômetros de barreira, oito metros de alturas, revistas vexatórias, violências. E, na mídia comercial, muito pouco se fala das vidas ceifadas em nome do abjeto "direito" que Israel se deu de impedir as pessoas de circular por seu território.

Também no México, cresceu e se consolidou o muro que separa o país dos Estados Unidos. De lá para o México, os estadunidenses podem passar tranquilos. Já do México para os EUA, nem pensar. E as gentes se arriscam no muro, morrendo como moscas, impedidos de participar do grande banquete do capitalismo da liberdade, alardeado pelos estadunidenses. Uma liberdade que só vale para quem eles querem. Os pobres que ousam também sentar à mesa da fartura capitalista, esses são impedidos com balas e cães.

Outra barreira pouco conhecida é a chamada "Vala de Melilla", uma cerca gigante que separa Melilla, uma cidade autônoma, mas de domínio espanhol, que fica em território africano, às margens do Mediterrâneo, fronteira com o Marrocos. Passar a linha de fronteira desde ali é estar com o pé na Europa, por isso foram criados os mecanismos para impedir o fluxo de imigrantes. Assim, a vala começou a ser construída em 1998, completamente invisível para as mídias comerciais. Era apenas uma vala que foi se aprofundando até virar um imenso fosso de três metros de altura. No ano de 2005, ficou mais funda, com seis metros e nela ainda foi fincada uma cerca tridimensional, em 2007, com três metros de altura. Tem 12 quilômetros e é vigiada por tropas policiais. Seu singelo objetivo é impedir a entrada de negros na Europa.

Apesar de sua tecnologia apurada - tem malhas metálicas que impedem a escalada, sensores de movimentos e câmaras automáticas - dezenas de pessoas se arriscam todos os dias, enfrentando a morte, a prisão e a mutilação, para vivenciar a passagem até o mundo das "oportunidades". Mas, os negros pobres não têm vez. A eles, o caminho está fechado.
E assim vai seguindo esse planeta, cada dia mais fechado para os que nada têm, enquanto os que vivem na opulência se calam, cheios de medo de serem "assaltados" pelas hordas dos desgraçados. O fato é que de todos aqueles que tentam ultrapassar as barreiras da "liberdade", a maioria morre ou é capturada. Ainda assim, alguns conseguem, em 2014 foram mais de dois mil... E estão por aí, no mundo dos opulentos, tentando encontrar o caminho para a vida digna.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.