sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Revista Fortune revela já em 64 elo entre empresários de SP e embaixada dos EUA para dar golpe

Via Opera Mundi

Publicação norte-americana fazia chamado por investimento estrangeiro no Brasil e causou divergência entre conspiradores paulistas e cariocas

Apenas cinco meses após o golpe que depôs o presidente João Goulart, a tradicional revista norte-americana Fortune publicava uma longa reportagem narrando a parceria entre o então embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, e os empresários paulistas que articularam a conspiração. Enquanto setores civis e militares se armavam e ensaiavam a rebelião, lideranças golpistas foram pessoalmente à embaixada perguntar qual seria a posição de Washington caso fosse deflagrada uma guerra civil no Brasil. “Cauteloso e diplomático, Gordon deixou a impressão de que, se os paulistas conseguissem segurar [o comando da guerra civil] por 48 horas, obteriam o apoio e o reconhecimento dos Estados Unidos”, escreveu a publicação.

Essa é a apenas uma das revelações do artigo publicado por Philip Siekman na edição da Fortune de setembro de 1964, intitulado “When Executives Turned Revolutionaries” (Quando executivos viraram revolucionários), que completava no subtítulo: "Uma história ainda não contada: como os empresários de São Paulo conspiraram para derrubar o governo infectado de comunistas do Brasil". [clique aqui para ler o texto, em inglês] A revista dá voz aos empresários "bandeirantes" para mostrar como os executivos se articularam para financiar a conspiração armada que depôs Jango. Embora voltada ao público norte-americano, a reportagem repercutiu no país, acirrou rivalidades entre os golpistas paulistas e cariocas e foi usada como panfleto para incentivar a vinda de investimentos estrangeiros para o país.


Clique aqui para ler todas as matérias do especial

Entre os fatos mais reveladores do texto de Siekman, a revista procurou destacar o papel central que o Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e seus líderes desempenharam na conspiração. Primeiro, arrecadando fundos dos principais industriais paulistas e cariocas: “No total, cerca de 400 empresas contribuíram para a instituição; e o fluxo de caixa anual não passava dos US$ 500 mil”. E, mais tarde, ao decidir adotar métodos mais diretos: “Células de vigilância começaram a se equipar com armas leves, instalar fábricas clandestinas de granadas de mão, e escolher um local para levar a cabo operações de guerrilha na guerra civil que consideravam inevitável e iminente”. O Ipês foi fundado em 1961 "oficialmente" para defender a livre iniciativa e a economia de mercado; a entidade uniu acadêmicos conservadores, empresários e militares para desestabilizar o governo Jango.

A partir de um ponto de vista do empresariado paulista, Fortune traça o panorama do cenário político, econômico e social do Brasil, concluindo que, sem a intervenção, a situação só poderia ter levado o país ao caos. “De repente e quase milagrosamente”, diz Fortune, eles haviam salvado a nação, interpreta a publicação. Se antes a revista só imaginava duas possíveis saídas para o Brasil — um “Estado totalitarista dominado por comunistas” ou uma “guerra civil sangrenta e complexa” —, os “Paulistas” teriam forjado a terceira via: uma revolta que durou dois dias, pôs Jango no exílio e seus simpatizantes na cadeia. É por isso que, de acordo com a revista, o levante deveria ser merecidamente chamado de “a Revolta dos Paulistas”.

A revista Fortune foi fundada em 1930, meses após o crash da bolsa de NY, pelo editor Henry Luce — o mesmo que criou as icônicas Life e TIME. Pioneira ao especializar-se em finanças e negócios, a publicação existe até hoje e faz parte de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo.

Os principais nomes: Ayres, Mesquita e Resstel

O jornalista Philip Siekman reconta os pormenores da conspiração utilizando como personagens alguns líderes ipesianos e expoentes militares do golpe. Três deles tiveram, segundo a Fortune, papel central: Paulo Ayres Filho, representante da indústria farmacêutica; Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo; e o coronel Rubens Resstel, responsável pelo planejamento da mobilização civil-militar em São Paulo.

Reprodução/Fortune

Para ilustrar o artigo, revista Fortune traz foto de Júlio de Mesquita Filho (centro), diretor-proprietário do Estadão

Anticomunista ferrenho, Ayres Filho é descrito como um dos idealizadores do Ipês e principal incentivador da função marqueteira do instituto: por meio de panfletos, cartilhas liberais, peças publicitárias e vídeos “educativos”, o Ipês deveria influenciar a opinião pública.

Segundo a revista, o diretor do Estadão, Júlio de Mesquita Filho — “um dos recrutas mais proeminentes” e “líder nominal do grupo” —, teve papel fundamental no setor logístico da conspiração, sobretudo às vésperas do golpe, quando as células civis já começavam a se preparar para o confronto. “O grupo Mesquita sozinho gastou cerca de US$ 10 mil em armas, incluindo uma série de metralhadoras”, relata a publicação.

[Retrato de Paulo Ayres Filho, industrial paulista do setor farmacêutico e diretor do Ciesp (Centro de Indústrias do Estado de São Paulo), instituição que compartilhava membros, funções e objetivos com a Fiesp]

O coronel Rubens Resstel, por sua vez, é caracterizado como o elo essencial entre os civis ipesianos e o Exército. Militar graduado e egresso da tropa que lutara na 2ª Guerra Mundial, Resstel teve a função de convencer os altos comandos e a jovem oficialidade de militares que permaneciam céticos e legalista.

Também são citados na matéria como importantes conspiradores civis: Gilbert Huber (proprietário das Listas Telefônicas Brasileiras), Adhemar de Barros (governador de São Paulo), e os advogados João Adelino Prado, Luiz Werneck e Flávio Galvão (jornalista e advogado do Estadão).

Reprodução/Fortune

À direita, o conspirador coronel Rubens Resstel na revista Fortune: "decidimos tê-los no almoço antes que eles nos tivessem no jantar"

Repercussão: rusgas

É difícil dizer se a revista Fortune de fato “sensibilizou” o público-alvo norte-americano e contribuiu para melhorar a imagem dos “revolucionários” brasileiros no exterior. Mas uma coisa é certa: além de repercutir na política e na imprensa nacional, a publicação da reportagem causou reações distintas nas fileiras do Ipês; tanto massageou egos dos empresários paulistas, quanto desagradou seus rivais cariocas.

O historiador e cientista político René Armand Dreifuss, em seu livro 1964: a conquista do Estado, relata a insatisfação das lideranças ipesianas do Rio de Janeiro com a publicação da reportagem e a exposição dos empresários paulistas. Um dos documentos que encontrou em sua pesquisa foi um telegrama endereçado a João Baptista Leopoldo Figueiredo (presidente do Ipês-SP e primo-irmão mais velho do futuro presidente do país), enviado por Harold Cecil Polland, líder do Ipês-Rio. Nele, Polland comenta a “questão muito séria” e “prejudicial”: “Fomos desagradavelmente surpreendidos pelo artigo da Fortune sobre a Revolução, comprometedoramente comentado pela Tribuna da Imprensa e Última Hora”.

No dia 19 de setembro de 1964, o jornal Última Hora, de Samuel Weiner, também repercutiu a reportagem em uma nota na primeira página: “’Fortune’ e a História Secreta da ‘Revolução’”. O jornal destacou as revelações sobre o embaixador Lincoln Gordon, pedindo esclarecimentos a ele e ao governo Castello Branco, o primeiro presidente do regime civil-militar. “É uma história inteiramente diferente da que tem sido contada em discursos e entrevistas dos participantes do movimento, e até mesmo nas reportagens mais indiscretas que se publicaram em nosso País”, escreveu o jornal.

Recado

Logo no início do artigo, o jornalista Philip Siekman já havia dado o tom do problema brasileiro: o ceticismo dos investidores estrangeiros em aplicar seus dólares no Brasil seria uma questão de falta de comunicação. “A história da revolução brasileira, com todos seus aspectos encorajadores, não tinha sido, até o momento, totalmente contada na imprensa norte-americana”.

Ao finalizar a reportagem, Siekman volta a se dirigir aos mesmos investidores, defendendo que, como os industriais paulistas haviam feito a parte deles, os norte-americanos teriam de fazer a deles. “Se o Brasil não morrer na mesa de cirurgia enquanto os novos homens tentam curar as mazelas, o país vai precisar de polpudas infusões de ajuda exterior.” Mais adiante, Siekman incentiva os executivos internacionais a vencerem o ceticismo em relação ao Brasil, mostrando que o governo Castello Branco até já revisara as leis de remessas de lucros, “abrindo as portas para um fluxo normal das filiais à matriz”. “Para os investidores”, diz Siekman, “distância é sinônimo de objetividade, mas também dificulta previsões”.

“No ano que vem, os diretores de uma empresa norte-americana vão ter dificuldades em explicar a seus acionistas por que investiram no Brasil em 1964. Daqui a dez anos, podem vir a achar ainda mais difícil explicar por que não investiram nada”, arremata a revista.

* Colaborou Rodolfo Machado

-------------------------------------

Abaixo, primeira página do jornal Última Hora repercutindo a matéria da Fortune: [clique para ler a edição completa de 19/09/1964]

Genebra 2: paz é secundário.

Sanguessugado do Olhar o Mundo

Luiz Eça

Logo na abertura das cortinas de Genebra 2, o produtor do show foi bem claro.

John Kerry, secretário de Estado dos EUA, já foi informando que o objetivo da conferência de paz seria unicamente a formação de um governo  de transição SEM ASSAD.

Esquecendo que na semana passada, ele e Serge Lavrov, ministro russo do Exterior, tinham discutido um cessar fogo e o desarmamento das forças rivais, classificou essas medidas como meras “táticas diversionistas”, fugindo do verdadeiro gol: a cabeça de Assad.

Voltou assim à política do governo Obama de exigir de cara a defenestração do presidente sírio por indigno do seu cargo, iniciada logo na altura dos primeiros combates.

Nessa ocasião, uma iniciativa da Casa Branca para forçar um acordo de paz poderia ter êxito já que a revolta ainda estava praticamente começando, com pouca participação de guerreiros estrangeiros radicais.

O discurso belicoso de Obama, de olho na idéia de conseguir privar o Irã do seu principal aliado árabe, acabou colaborando para a fogueira transformar-se no incêndio, que já causou 130 mil mortes.

A agressividade do presidente americano chegou ao auge quando pretendeu bombardear Damasco, depois de culpar Assad pelo ataque químico a subúrbios da capital.

Teve de desistir, quando viu que seu pedido de apoio ao Senado seria derrotado pelo voto de senadores democratas progressistas e de ultra-conservadores republicanos, que sempre contestam qualquer proposta de Obama.

Ele foi salvo ao topar a sugestão russa de se destruir o arsenal militar químico de Assad (aceita pelo presidente sírio), que lhe permitiu uma saída honrosa.

Graças aos bons serviços da mídia internacional, acabou sendo visto por muitos como um intrépido defensor da paz.

Agora, em Genebra, o leão americano voltou a rugir.

Mostrou sua força, pressionando Ban-Ki-Mon a retirar o convite feito ao Irã, com pretextos um tanto discutíveis.

Como ponderou Lavrov, caso ser favorável a um governo de transição sem Assad for pré-condição para adentrar os salões genebrinos, os russos também teriam de ser barrados.

Mesmo os representantes do governo de Damasco, ou seja, do próprio Assad, que garante jamais renunciar, por isonomia, não poderiam ser aceitos.

O que seria um absurdo, pois, como diz bem um velho ditado inglês, “it takes two tango.”

De fato, reitera Carl Bildt, ministro do Exterior do governo conservador da Suécia, referindo-se ao episódio: “Paz se promove entre inimigos, você não promove uma conferência de paz entre amigos.”

Mas Kerry não quis saber de nada.

No seu discurso inicial, declarou-se contente, pois sem os incômodos iranianos, seria possível “colocar nos trilhos” os trabalhos da conferência.
Isto é: discutir somente caminhos para a derrubada de Assad (que ele certamente traz no bolso do colete) e obter a aprovação de praticamente todos os 40 países presentes.

Acho que é bem possível o reconhecimento da Coalizão Nacional Síria como “governo sírio no exílio”, de acordo, aliás, com as pretensões dos seus dirigentes.

O que seria engraçado, pois essa organização representa muito pouco:  compareceu desfalcada da metade dos seus membros, o pessoal do Conselho Nacional Sírio – adversários declarados de qualquer acordo com o governo oficial.

Além de exercer apenas influência limitada sobre o moderado Exército Livre Sírio (apoiado pelos EUA), por sua vez sem nenhuma influência nas forças anti-Assad da poderosa Frente Islâmica e da al-Qaeda, senhoras de várias regiões tomadas pelos rebeldes.

Só a al-Qaeda, segundo a inteligência israelense, pôs 30 mil milicianos na guerra civil síria. Estima-se que a Frente Islâmica conta com 60 mil.

Todos contra qualquer acordo com o governo de Damasco.

São detalhes irrelevantes para a política americana.

O que importa é o impacto que Genebra2 produziria na opinião pública mundial, com o peso da posição de 40 países (qual uma nova ONU), exigindo a queda de Assad, por seus crimes, agora mais do que nunca condenáveis, depois das fotos de milhares de presos assassinados nos subterrâneos do regime, reveladas oportunamente dias antes de Genebra 2 decolar.

E o que também será divulgado pelo mundo: a demonstração do amor à paz por parte do Ocidente, seus aliados do Golfo e dos rebeldes ao toparem se reunir com o governo Assad para a discussão do fim da guerra.

Este segundo lance pode ser diminuído já que os enviados de Damasco ameaçam retirar-se antes do último ato, por sentirem que não tem nada a ganhar permanecendo.

Afinal, Kerry está demonstrando excessiva parcialidade.

No discurso de abertura, o secretário de Estado americano investiu fortemente contra o governo Assad, listando todas as suas ações brutais contra os direitos humanos.

No entanto, deixou de lado a citação dos atentados praticados pela al-Qaeda e os radicais islâmicos do exército rebelde.

Recusou-se a incluir na agenda da conferência a discussão de medidas para pôr fora de ação esses terroristas, como queriam os representantes do governo sírio.

Coisa que esperavam ser vista com bons olhos pelo Ocidente para quem o crescente domínio do norte da Síria pela al-Qaeda e similares não deve ser nada agradável.

Todas essas considerações me fazem achar que Genebra 2 não vai conseguir nada de substancial.

Se o objetivo final é a paz na Síria, exigir a renúncia de Assad, já de antemão negada por ele, está longe de ser uma idéia inteligente.

Parece óbvio que só se vai chegar lá por partes, através da diplomacia e não da coação. Começar propondo medidas básicas, porém mais fáceis de serem aceitas pelas partes.

O mapa do caminho para a paz, conforme o papa Francisco, Ban-ki-Mom e outros estadistas de respeito defendem, tem como ponto de partida o esvaziamento dos arsenais, cofres e armazéns dos litigantes.

A proibição do Irã, Arábia Saudita,  Qatar,  Turquia,  EUA e  Rússia de fornecerem dinheiro, alimentos, aparelhagem técnico-militar e/ou armas e munições aos exércitos que patrocinam. Talvez garantindo esse objetivo com uma força de paz da ONU nas fronteiras.

Em seguida, a retirada simultânea dos combatentes do Hisbolá , da al-Qaeda e da Frente Islâmica, é uma idéia teoricamente bem vista pelas nações que apóiam os dois lados.

Sem comida, sem munições, sem arma para reposição e desfalcada dos seus mais agressivos combatentes, a guerra perderia força e as partes ficariam mais propensas a serem razoáveis numa negociação da paz final.

Que poderia começar com a mais democrática das ações: uma eleição livre, aliás, já proposta pelo presidente Rouhani.

Afinal, ninguém pode negar ao povo sírio o direito de escolher seu presidente. O que se deve garantir é que sua posição seja expressa  de forma livre, sem pressões.

Se isso aconteceria num governo de transição – possivelmente sem Assad, que já se declarou candidato às próximas eleições, ou no governo atual, com anistia geral, liberdade e eleições controladas pela ONU, aí sem a candidatura de Assad, são possíveis soluções.

Admito  que seria complicado se chegar a um acordo.

Mas, não impossível.

Tendo vencido uma série de etapas no caminho da pacificação do país, esse processo teria muita chance de se tornar irreversível.

Seja como for, a postura rígida do governo Obama, expressa por Kerry em Genebra, não parece permitir um único passo à frente.

Tudo ou nada costuma dar em nada.

Assad não vai aceitar um suicídio político, cujo desdobramento seria sua transferência do gabinete presidencial de Damasco para o banco dos réus do Tribunal Criminal Internacional, em Haia.

E mesmo que os 40 países de Genebra 2 exijam transição sem Assad, a Rússia e provavelmente a China vão vetar no Conselho de Segurança da ONU.

Impossível supor que Obama e seus estrategistas não estejam a par disso.

Por que então essa volta à linha anterior, já superada, de colocar o fim imediato de Assad como essencial para se pensar em paz na Síria?

Há quem ache que seria uma forma de convencer os congressistas do Partido Democrata e do Pentágono, de que a Casa Branca continua encarando o Irã como um adversário.

Claro, a imagem de um Obama agressivo na política internacional é importante para se contrapor à tradicional acusação de fraqueza dos democratas nessa área.

Dar uma colher de chá à Arábia Saudita e a Israel, grandes inimigos da Síria e do Irã, é outra hipótese válida.

A propósito, lembro outro ditado: o hábito de fumar cachimbo entorta a boca.

Depois de passar anos tocando uma política internacional estilo George Bush e John Wayne, o originalmente pacifista Barack Obama talvez tenha se acostumado a falar grosso, como chefe da maior força militar do planeta.

Espero que não.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Zapatistas celebram 20 anos de resistência

Via Brasil de Fato

Projeto popular enfatiza o fortalecimento da autonomia nas comunidades

Waldo Lao

de San Cristóbal de las Casas,

Chiapas (México)

Acompanhadas por suas bases de apoio e por milhares de simpatizantes de todo o México e de diversos países do mundo, as comunidades zapatistas celebraram nos cincoCarocoles Rebeldes, o 20º aniversário do levante armado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

Foi uma noite longa, com muita música e dança, onde comandantes compartilharam suas palavras. No Caracol II, zona alta de Chiapas, o Caracol mais próximo à cidade de San Cristóbal de las Casas, a comandante Hortensia proferiu: “completamos 20 anos de guerra contra um sistema social injusto, representado pelos três níveis de maus governos, fiéis marionetes do neoliberalismo”.

Ela argumentou que este sistema pretende despojar os povos indígenas de suas terras, de seus recursos naturais e desalojar de seus territórios de origem, assim como os zapatistas: “o mau governo faz o possível para nos perseguir, nos atacar em todos os aspectos, a fim de debilitar e destruir nossa organização e luta pela construção da autonomia”.

Em relação às duas décadas de levante, a comandante comentou: “aprendemos a viver e resistir de maneira organizada e estamos aprendendo a nos governar de acordo com nossas formas de pensar e viver, como faziam nossos pais e avós. Começamos a viver a autonomia.

Nos encontramos, os povos e as zonas zapatistas, para compartilhar nossas ideias e experiências. Assim entre todos, tratamos de melhorar nossos trabalhos e corrigir nossos erros”.

Sobre a defesa de seu território em resistência, argumentou que “os maus governos estão tentando retirar de nós as terras recuperadas em 1994, que estavam nas mãos dos grandes proprietários de terras que tão mal fizeram a nossos pais e avós”.

A comandante finalizou sua intervenção com uma chamada internacional de luta, por um mundo melhor onde caibam muitos mundos: “Temos as melhores armas para combater o mal, para lutar contra a morte e construir a vida nova para todos. Nossas armas são a resistência, a rebeldia, a verdade, a justiça e a razão que está ao nosso lado. Agora é tempo de fortalecer e globalizar a resistência e a rebeldia”.

Autonomia

Após a festa comemorativa, foi realizada, de 3 a 7 de janeiro, a terceira fase do primeiro nível do curso “A liberdade segundo os e as zapatistas”. A chamada escuelita foi um momento de ver e compreender, desde dentro, o exercício da construção real da autonomia, para compartilhá-lo com os de fora, como dizem os zapatistas.

Nas suas comunidades já não obedecem ao governo, nem são manipulados pelos partidos. Dizem que uma das condições para ser zapatista é estar em resistência e não receber dinheiro do governo. Nas comunidades onde convivem zapatistas e não zapatistas – a maioria priistas – fica claro como os projetos assistencialistas do governo, como o Programa de Certifi cación de Derechos Ejidales – Procede, Procampo e Oportunidades, têm conseguido romper com o sentido da vida comunitária.

Os não zapatistas, beneficiados pelos programas de governo, têm deixado de trabalhar a terra e compram dos zapatistas, seus vizinhos, seus alimentos como o milho e o feijão, ironia das ironias.

A estrutura do governo autônomo dos povos zapatistas está dividida em três níveis de governo: a zona onde está a Junta do Bom Governo (JBG), os Municípios Autônomos Rebeldes (MAREZ) e o nível local que corresponde às próprias comunidades ou bases de apoio. Baseia-se nos sete princípios do mandar obedecendo e nas seis formas de fazer política dos povos zapatistas: propor, analisar, estudar, discutir, opinar e decidir, assim como nos regulamentos internos de cada povo. Para os zapatistas, a instância máxima de decisão é a assembleia comunitária.

Seu projeto consiste numa autonomia de autonomias, ou seja, cada povo avança conforme suas necessidades, não sendo um processo igualitário, mas sim que pretende ser equitativo, que abarque um processo de autonomia integral, desde eles e por eles, e que contemple “outras” formas de democracia, educação, saúde, justiça e uma nova forma de cultura política, onde as mulheres participam em todos os projetos dos três níveis de governo, ainda que, como conta uma zapatista: “enfrentamos dificuldades, pois ainda existe machismo dentro da organização. Há companheiros que não entenderam ainda que nós mulheres já temos o direito de participar nas diferentes áreas de trabalho”.

Para impulsionar os trabalhos de autonomia, os zapatistas estão organizados em MAREZ por Conselhos Autônomos, que correspondem às tarefas de justiça, comissão agrária e juizado civil. Promotores e promotoras participam em diversas áreas do trabalho, como saúde sexual e reprodução, assim como as hueseras – mulheres que tratam doenças de ossos e articulações –, parteiras e uso das plantas medicinais – principalmente com a participação das mulheres.

A educação é dividida em várias áreas de conhecimento: matemática, espanhol – tendo em vista que o mais importante é não perder o aprendizado da língua materna-; e vida, meio ambiente e história. Há também as áreas de comércio, vigilância e comunicação, que são os vídeos e rádios comunitárias. Todos os cargos são rotativos, não remunerados e eleitos pelas comunidades: “eleger as autoridades e retirá-las quando necessário”.

Os trabalhos coletivos, organizados por um presidente, um secretário e um tesoureiro – que podem ser assumidos por ambos os sexos – funcionam como um mecanismo de organização, resistência e fortalecimento da identidade. Alguns dos trabalhos coletivos realizados nas comunidades são: a produção de diversos alimentos, a criação de gado, as granjas, a confecção de artesanato, as tiendas – cooperativas que vendem produtos que os zapatistas não produzem – padarias, hortas agroecológicas, onde cultivam sem o uso de agrotóxicos ou transgênicos. Cada projeto corresponde de acordo à necessidade de cada comunidade.

Nesse processo de construção da autonomia, há duas décadas, a contrainsurgência é permanente e não somente se mostra como uma ofensiva militar e paramilitar, mas como ataques: políticos, econômicos, culturais, psicológicos e por parte dos meios de comunicação que se esmeram em reduzir o movimento em meras cinzas do passado, em esquecimento.

Por isso, a luta zapatista é integral e tem que ser construída constantemente. Eles falam: “a maior arma que temos é a resistência. Há que organizá-la em todos os níveis”.

Aos 20 anos da insurreição armada e 30 desde sua formação clandestina nas montanhas de Chiapas, os zapatistas seguem no seu ritmo, escutando e fortalecendo a autonomia desde suas comunidades. Seu tempo não é o nosso, para eles, a hora é a frente de combate do sudeste. Os zapatistas caminham como os Caracóis, devagarzinho, mas para frente.

Tradução: Cecilia Piva.

Adriano Benayon: É a estrutura, enroladores

Via Diario Liberdade

Adriano Benayon

Economistas escrevem copiosos e longos artigos sobre o quanto a taxa de câmbio do real, valorizada, prejudica a indústria local e contribui para a crise das contas externas apontada pelo déficit recorde nas transações correntes (TCs) com o exterior em 2013: US$ 81,4 bilhões.

2. Na realidade, é ainda maior, pois as contas foram contabilizadas como exportadas as plataformas de exploração de petróleo em atividade no País. Sem essa maquilagem, o déficit nas TCs teria sido 10% maior.

3. Claro que a taxa de câmbio do real valorizada pode estimular as importações, mormente num país que está em vias de desindustrialização há decênios, e por incentivar gastos no exterior.

4. Entretanto, faz melhorar a relação de intercâmbio, pois as exportações brasileiras são cada vez mais intensivas de recursos naturais, as commodities, cuja comercialização depende pouco da competição de preços.

5. De fato, foi o grande superávit nas mercadorias, acima de US$ 100 bilhões, que possibilitou o pequeno saldo positivo, de US$ 2,6 bilhões, na balança comercial, em queda impressionante, decorrente do crescente e enorme déficit externo dos produtos industriais: nada menos que US$ 105 bilhões.

6. Na realidade, o déficit industrial chegou a US$ 113 bilhões, se expurgarmos a "mágica" das plataformas. É consequência da desindustrialização do Brasil, dominado pelo capital estrangeiro.

7. A valorização cambial decorre do afluxo de capitais do exterior, que funciona como uma droga, com efeitos altamente prejudiciais à economia, inclusive a própria dependência dessa droga.

8. Por sua vez, os capitais forâneos são atraídos por taxas de juros altas, tendo sido as dos títulos públicos, elevadas, agora, a 10,5% aa. Nos EUA os títulos até dois anos pagam menos de 0,3% aa., e lá a dívida externa, de US$ 16 trilhões, supera o PIB, e a pública ascende a US$ 17 trilhões.

9. O Banco Central, ilegalmente independente na prática, age a serviço dos bancos e empresas transnacionais, inclusive de brasileiros que aplicam diretamente do exterior. As autoridades monetárias servem assim os concentradores, os reais detentores do poder.

10. Entre os prejuízos decorrentes dos juros altíssimos, está o de os juros para as empresas produtivas serem um múltiplo dos títulos públicos, o que eleva o custo de produção de bens e serviços.

11. As grandes empresas e as transnacionais não padecem com essas taxas, pois são favorecidas com benigna TJLP (taxa de juros de longo prazo) aplicada pelo BNDES e por taxas também suaves da Caixa Econômica e de outros bancos públicos.

12. Tudo isso é para fazer crescer os lucros das transnacionais, pois elas nem precisam de crédito - a que têm acesso no exterior a baixo custo - nem dependem de custos de produção baixos, porque, não sofrendo concorrência, aplicam os preços que desejam.

13. Ademais, elevado às nuvens pelos juros absurdos, o serviço da dívida federal absorve mais de 40% da despesa, impulsionado por taxas de juros acolhidas pelo governo, que, assim, perde capacidade de investimento e custeio.

14. Já se vê que as mazelas da economia brasileira são estruturais e não podem sanadas por medidas de política monetária ou fiscal, sem substituir o modelo dependente por um modelo econômico e social que atenda os interesses do País.

15. Assim, submisso ao modelo dependente, o governo não tem autonomia sequer para manejar as taxas de câmbio nem as taxas de juros, nem praticar políticas expansionistas ou contracionistas da moeda e do crédito.

16. O tenebroso art. 164 da Constituição dá todo o poder ao Banco Central para emitir moeda, para passá-la exclusivamente aos bancos privados, deixando sem recursos o setor público e o próprio Tesouro, assim obrigado a endividar-se com os bancos. Não bastasse tudo isso, suas disponibilidades de caixa têm que ser depositadas no Banco Central.

17. As causas do descalabro são, portanto, estruturais, sistêmicas. Como também estas:

a) a administração pública tornou-se incapaz de conduzir o desenvolvimento, com o Estado enfraquecido pelo serviço da dívida, e com as estatais incrivelmente capitalizadas pelo Estado antes de serem privatizadas em favor de grupos concentradores, inclusive estrangeiros.

b) o setor privado nacional continua vitimado pelas políticas públicas, desde que foi condenado a definhar, desde o golpe de 1954, que decretou a entrega do mercado ás empresas transnacionais, sem que tivessem sequer de investir realmente, subsidiadas, de forma absurda, para trazer suas máquinas usadas, amortizadas e mais que pagas no exterior.

c) esses oligopólios e carteis – que continuaram sendo subsidiados pela União, Estados e Municípios e ocupam posições dominantes - são os agentes da transferência de recursos para o exterior, através de diversas contas.

d) essa é a grande fonte da dívida externa, que se desdobrou na enorme dívida interna, cevada com a capitalização de juros, devido às taxas de juros extorsivas; estas, por sua vez, a raiz da dependência financeira, que pretende justificar as altas taxas de juros dos títulos públicos para atrair capitais a fim de compensar os déficits na conta corrente.

e) a ascendência das transnacionais fez delas as beneficiárias dos incríveis subsídios às exportações, instituídos desde o final dos anos 60, as quais não evitaram a explosão da dívida externa daí até o final dos anos 70, que também cresceu com os investimentos públicos na infra-estrutura e nas indústrias básicas, sob dependência financeira (comandada pelo Banco Mundial) e dependência tecnológica, agravadas em função das especificações impostas nas concorrências internacionais.

f) no "modelo brasileiro" – alardeado nos anos dos falsos milagres econômicos – não há como incorporar a maior parte da força de trabalho a um processo produtivo de qualidade, nem elevar o padrão de vida do grosso da população: só cresce a já esmagadora concentração da renda nas grandes empresas e os modestos programas de transferência de renda, na tentativa de sustentar parte do número gigantesco dos marginalizados, a grande maioria da população; tudo como o Banco Mundial gosta, enquanto as transnacionais extraem os recursos naturais do País e transferem para o exterior os lucros, principalmente como despesas, afora as crescentes remessas como lucros oficiais e juros.

17. Colocar o Brasil no caminho da industrialização, com produção crescente de bens de alto valor agregado e intensidade tecnológica é tarefa que não há como realizar sem as mudanças estruturais rejeitadas pela atual estrutura de poder, dominada pelos concentradores, que controlam também o processo político e os centros formadores de opinião, inclusive a mídia.

Brasil, Cuba e o socialismo

Sanguessugado do Miro

Beto Almeida, de Havana

Tem sido extremamente educativo registrar, aqui em Havana, a reação do povo cubano diante da inauguração do Porto de Mariel. Expressando um elevado nível cultural, uma mirada política aprofundada sobre os fenômenos destes tempos, especialmente sobre a reunião de Cúpula da Celac que se realiza por estes dias aqui na Ilha, tendo como meta central, a redução da pobreza, os cubanos revelam, nestas análises feitas com desembaraço e naturalidade, todo o esforço de 55 anos da Revolução Cubana feita na educação e na cultura deste povo.

Mariel, uma bofetada no bloqueio

Poderia citar muitas frases que colhi ao acaso, conversando com os mais diversos segmentos sociais, faixas etárias distintas, etc, mas, uma delas, merece ser difundida amplamente. O marinheiro aposentado Jorge Luis, que já esteve nos portos de Santos e Rio de Janeiro, que vibra com o samba carioca, foi agudo na sua avaliação sobre o significado da parceria do Brasil com Cuba para construir o Complexo Portuário de Mariel.

“Com Mariel, Brasil rompe concretamente o bloqueio imperialista contra Cuba”, disse. E adverte: “Jamais os imperialistas vão perdoar Lula e Dilma”. Ele não disse, mas, no contexto do diálogo com este marinheiro negro, atento ao noticiário de televisão, leitor diário de jornal, informado sobre o que ocorre no Brasil e no mundo, estava subentendido, por sua expressão facial, que ficava muito claro porque Dilma é alvo de espionagem dos EUA.

O tom da cobertura do oposicionismo impresso brasileiro, pré-pago, à inauguração do Porto de Mariel, não surpreende pela escassa informação que apresenta, muito menos pela abundante insinuação de que tratar-se-ia apenas de um gasto sem sentido, indefensável, indevido. Ademais, sobram os rançosos preconceitos de sempre, afirmando que o Brasil estaria financiando a “ditadura comunista”, tal como este oposicionismo chegou a mencionar que seria esta a única razão para empreender um programa como o Mais Médicos, que salva vidas e que tem ampla aprovação da sociedade brasileira.

É necessário um jornalismo de integração

Informações objetivas sobre o significado e a transcendência do Complexo Portuário de Mariel certamente faltarão ao povo brasileiro. Primeiramente, porque o oposicionismo midiático não permitirá sua difusão, numa evidente prática de censura. E, por outro lado, nem o PT ou as forças que sustentam politicamente o governo Dilma e estas iniciativas robustas da política externa brasileira, com tangíveis repercussões sobre a economia brasileira, possuem uma mídia própria para esclarecer o significado de Mariel, ante um provável dilúvio de desinformações sobre a sociedade brasileira.

Primeiramente, deve-se informar que o financiamento feito pelo BNDES, algo em torno de um bilhão reais na primeira fase, não se trata de uma doação a Cuba. É um empréstimo, que será pago. As relações bilaterais Brasil-Cuba registram crescimento contínuo nos últimos anos.

Além disso, está condicionado à contratação de bens e serviços na economia brasileira, além de envolver cerca de 400 empresas, sendo, portanto, um dos fatores a mais que explicam porque há contínua expansão no mercado de trabalho brasileiro, com uma taxa de desemprego das mais baixas de sua história. Ao contrário do que ocorre, por exemplo, na Europa, onde aumenta o desemprego e há eliminação de direitos trabalhistas e sociais conquistados décadas atrás.

Dinamização das forças produtivas

Além disso, Mariel vai ser - por enquanto , Dilma inaugurou apenas a primeira fase - o maior porto do Caribe, com capacidade para atracar navios de calado superior a 18 metros, e também , podendo movimentar mais de 1 milhão de conteiners por ano. Terá um impacto especial para o comércio marítimo também direcionado ao Pacífico, via Canal de Panamá. Para isto, vale lembrar da importância da participação da China, crescente, na economia latino-americana, em especial com o Brasil.

Tanto o gigante asiático como empresas brasileiras, já manifestaram interesse em instalarem-se na Zona Econômica Especial a ser implantada em Mariel, onde também já foi construída uma rodovia moderna, estando em construção, uma ferrovia. De alguma maneira , Havana retoma uma posição de destaque no comércio marítimo internacional, pois já foi o maior porto da América Latina, ponto de conexão de várias rotas, tendo sido, por isso mesmo, uma cidade com mais de 70 por cento de habitantes portugueses, quando Portugal era um grande protagonista na marinha mercante internacional. Havana já teve, também, uma das maiores indústrias navais do mundo.

Cuba sempre impulsionou a integração

O tirocínio do marinheiro negro Jorge Luis é perfeito. Depois de suportar décadas de um bloqueio que impediu os cubanos a compra de uma simples aspirina no maior e mais próximo mercado do mundo, os EUA, a Revolução Cubana, tendo resistido a ventos e tempestades, sobretudo às agressões imperialistas, soube preparar-se para esta nova etapa da história, simbolizada pela existência de uma Celac que vai se consolidando, pouco a pouco. Não sem enfrentar ações desestabilizadoras, lançadas contra os países mais empenhados na integração regional latino-americana, como Venezuela, Bolívia, Equador, e, também, pelas evidentes ações hostis contra Brasil e Argentina.

Cuba investiu parte de seus modestos recursos na solidariedade internacional. Seja no envio de 400 mil homens e mulheres para derrotar o exército racista da África do Sul que havia invadido Angola, como também para promover, em vários quadrantes, com o envio de professores, métodos pedagógicos, médicos e vacinas, a eliminação do analfabetismo e o salvamento generalizado de vidas. É o caso, por exemplo, do programa Mais Médicos, não por acaso tão injustamente desprezado pela oligarquia midiática, que vocaliza os laboratórios farmacêuticos multinacionais. Como defender que salvar vidas merece desprezo?

É certo que todas as economias caribenhas e latino-americanas serão dinamizadas com a entrada em funcionamento do Porto de Mariel, gerando mais empregos, possibilitando novas opções comerciais. É emblemático que China esteja firmando um acordo estratégico de cooperação com a Celac. Para uma economia cercada de restrições, sem capacidade de investimentos, sem engenharia nacional para fazer esta obra por conta própria, o Porto de Mariel, é um imenso descortinar de possibilidades para Cuba.

Os gigantescos navios chineses, de uma China que consolida sua posição como a segunda potência comercial mundial, não podiam mais aportar no velho Porto de Havana, o que resultava numa limitação operacional e logística, com impactos econômicos negativos de grande monta. O Porto de Havana será readaptado para o turismo e a economia cubana, no seu conjunto, recebe, com Mariel um enorme impulso para a dinamização de suas forças produtivas. A atendente do hotel onde estou instalado me confessava hoje o interesse de ir trabalhar em Mariel, porque, segundo disse, o futuro está por ali e são empregos mais promissores.

Mariel e seus impactos internacionais

Realmente, para um economia que perdeu a parceria que tinha com a União Soviética, que resistiu durante o período especial com as adaptações inevitáveis para salvar o essencial das conquistas da Revolução, o que Mariel significará é de extraordinária relevância. E é exatamente na dinamização das forças produtivas da Revolução Cubana que se localizam as chaves para muitas portas que podem ser abertas para uma maior dedicação de meios , recursos e iniciativas visando a integração latino-americana. E, neste quebra-cabeças, a política estratégica implantada por Lula, continuada por Dilma, é, inequivocamente, muito decisiva. Que outro país poderia fazer um financiamento deste porte para a construção de Mariel?

Por último, pode ser muito útil uma reflexão sobre os diversos pensadores, formuladores e também executores de políticas de integração. Desde Marti, aquele analisou a importância da “nossa Grécia”, numa referência ao significado da civilização Inca, mas que também formulou o conceito de Nuestra América, até chegando ao pensamento de Getúlio Vargas, criador do BNDES, o banco estatal de fomento que está financiando a construção do Porto de Mariel, uma estupenda ferramenta integradora.

Tudo converge para a abertura de uma nova avenida para dar trânsito à integração. Seja pela sabedoria dos povos da região que estão sabendo apoiar, com o seu voto, os governos que mais impulsionam estas políticas, seja pelos avanços concretos que estas políticas integradoras têm registrados, apesar da insistência nada profissional do jornalismo de desintegração em reduzir tudo a zero.

Futuro socialista

A força e a necessidade histórica das ideias se vêm comprovadas nesta inauguração da primeira etapa do Porto de Mariel, em plena reunião da Celac, sem a presença de Estados Unidos e Canadá, patrocinadores históricos da desintegração entre os povos. A simbologia da justeza histórica do pensamento martiniano, nos permite, agora, afirmar, também, que José Marti é um dos autores intelectuais de Mariel. E, retomando o otimismo realista do marinheiro Jorge Luis, constatamos que a dinamização das forças produtivas da Revolução Cubana que a parceria entre Cuba e Brasil possibilita, foi estampada na frase final do discurso do presidente cubano, General Raul Castro:

“Mariel e a poderosa infraestrutura que o acompanha são uma mostra concreta do otimismo e da confiança com que os cubamos olham o futuro socialista e próspero da Pátria”. O marinheiro negro captou o significado essencial destes dias. Não por acaso, a Marcha das Tochas, que celebra com chamas que não se apagam, as ideias de Marti, em seu aniversário, ontem - com mais de 500 mil manifestantes, maioria esmagadora de jovens - teve, na primeira fila, além de Raul, os presidentes Evo Morales, Nicolás Maduro, Pepe Mujica, Daniel Ortega. As ideias de Marti, materializadas nestes avanços produtivos e integradores, como Mariel, vão iluminando o futuro socialista de Cuba e, com isto, da integração latino-americana.

* Beto Almeida é membro do Diretório da Telesur

Nós, que amávamos tanto

Sanguessugado do Tecedora

“O país está mostrando a cara há anos, e não vê quem não quer. Só não tentem nos convencer de que vocês não sabem, pois nós sabemos muito bem o que é ter um amor, meu senhor, e depois encontrá-lo em um braço que nem um pedaço do meu pode ser.”

Denise Queiroz

Impossível esquecer aquele dia de 1989, ainda estagiária de jornal, saindo pro trampo e vendo a av. Princesa Isabel mais lotada que em dia de Grenal no Olímpico. O motivo: Brizola ia passar por ali. Levei uma boa meia hora pra chegar ao corredor de ônibus da João Pessoa, tentando abrir caminho entre as milhares de pessoas que, literalmente, entupiam a calçada. O primeiro turno passou, Brizola não venceu e toda aquela gente com esperança de algo melhor votou em Lula, imagino. Talvez alguns, apesar do Brizola ter apoiado Lula, tenham migrado seus votos para Collor, que personificava o populismo e, vendido pela propaganda política como o novo, ganhou alguns votos que, se a política e as emoções fossem lógicas, seriam de Lula.

1989, mais que em 1984, quando das diretas, foi um momento orgástico da democracia. Se tivesse internet há 25 anos, com certeza veríamos milhões de hashtags com os mais diversos desejos de um país melhor. No primeiro turno eram 22 candidatos, com viés ideológico claro, figuras que haviam apoiado, contrariado ou surgido no cenário surreal do, e pelo, golpe civil-militar de 1964. Embora convergente em análise rasa, era clara a diferença entre as propostas de Brizola (PDT), de Lula (PT), de Freire (PCB), de Covas (PSDB) e de Ulisses (PMDB), que estavam no que se poderia dizer de espectro à esquerda, naquele momento. E também se diferenciavam as de Collor (PRN), Maluf (PDS), Caiado (PSD), Chaves (PFL) e Afif (PL), do campo da direita. E todos eles tinham seus apoiadores, seguidores. Era um momento de namoro e o menino poder cortejava a menina democracia. A Constituinte tinha sido uma vitória, mas queríamos mais, precisávamos de mais.

Passados 25 anos, o que temos? Dos 200 milhões de brasileiros, mais de 106 milhões com direito a votar, eleger, a cada dois anos. Mas, deles, cerca de 20%, não comparecem às urnas na data determinada a eleger. Dos que comparecem, cerca de 8 por cento votam branco ou nulo. Então, de cara, temos, em média, 28% de cidadãos que simplesmente lavam as mãos para esse sistema político. É muito.

Quantos daqueles milhares que disputaram espaço na Av. Princesa Isabel para ver Brizola em 1989 ou dos milhões que lotaram as praças nos comícios que ainda tinham shows, hoje escrevem apressados sua insatisfação numa folha de cartolina e vão às ruas para mostrá-la? Ou, na falta de tempo ou ânimo para enfrentar transporte e uma polícia truculenta, usam redes sociais e hashtags?

Será tão difícil entender que aquela multidão que votou para presidente pela primeira vez em 1989, somada à que nasceu depois, está dizendo, "ok, mas ainda é pouco, muito pouco. Todos vocês disseram que iriam fazer, que teríamos um país justo e igualitário, nós acreditamos, fomos lá, ajudamos, votamos e as melhoras nestes 25 anos não são proporcionais ao esforço que fizemos. E não vamos mais muito às ruas, porque agora temos outros meios de dizer isso, mas ainda vamos às ruas e ainda precisamos de tudo aquilo”.

É patético, e revelador, ouvir de gente de governos, de qualquer um deles, que "foram pegos de surpresa pelas jornadas de junho”. É patético que não entendam que o “não vai ter copa” é um grito de desabafo pela exclusão – dos direitos, da participação, da decisão, do espetáculo - e não uma ameaça.

O país está mostrando a cara há anos, e não vê quem não quer. Só não tentem nos convencer de que vocês não sabem, pois nós sabemos muito bem o que é ter um amor, meu senhor, e depois encontrá-lo em um braço que nem um pedaço do meu pode ser.

A Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos

Sanguessugado do Brasil de Fato

O sonho de uma integração latino-americana e caribenha paradoxalmente foi gerado pelo invasor. Antes de 1492 – quando Cristóvão Colombo aportou em Santo Domingo - o continente abrigava inúmeros povos, alguns conformando gigantescos impérios. Há notícias de que muitos desses povos se comunicavam, se visitavam, intercambiavam mercadorias, e até guerreavam.

Elaine Tavares

Começou nesse dia 28, em Cuba, a segunda reunião da Celac, uma realização até então inédita de união dos estados latino-americanos e caribenhos. A proposta do encontro é discutir ações conjuntas que possam ser defendidas por todos os envolvidos e que avancem na consolidação da soberania dos povos, tal como instigou Hugo Chávez, em dezembro de 2011, na instalação da Comunidade: “União, esse caminho é o único caminho. Com suas variantes, com suas diversidades. A unidade entre nossos povos, entre nossos estados, nossas repúblicas, nossos governos.

Aceitando, insisto, e respeitando nossas diferenças. Mas, sem permitir que a intriga vingue entre nós. Sem permitir que a cizânia venenosa venha impedir, mais uma vez, o esforço unitário. Estou seguro de isso não vai descarrilhar, que não vai triunfar a intriga que permitiu ao monroísmo impor-se e sepultar bem fundo o projeto de Bolívar, Morelos, Artigas, Juana Azurduy e Manuela Saenz”.

A história da unidade

O sonho de uma integração latino-americana e caribenha paradoxalmente foi gerado pelo invasor. Antes de 1492 – quando Cristóvão Colombo aportou em Santo Domingo - o continente abrigava inúmeros povos, alguns conformando gigantescos impérios. Há notícias de que muitos desses povos se comunicavam, se visitavam, intercambiavam mercadorias, e até guerreavam.

E, talvez, por não identificarem nenhum inimigo forâneo, não há, pelos menos até agora, registros de que buscassem algum tipo de integração. Cada povo conservava seus deuses, sua cultura, sua língua. Mas, os “estranhos barbudos” que aportaram no Caribe mudaram toda a maneira de ver o mundo que existia em Abya Yala.

O primeiro morador dessas terras a tomar consciência de que havia um inimigo poderoso a exigir uma união das gentes foi o cacique Hatuey, da etnia Taíno, que habitava a ilha de Quisqueya, chamada de “A Espanhola” por Colombo, e depois de Santo Domingo. Pois, Hatuey, observando a selvageria dos espanhóis decidiu rebelar-se contra eles e uma de suas primeiras ações de solidariedade com as demais gentes do continente foi remar até a ilha de Guanahany (Cuba) para avisar os moradores sobre os invasores e iniciar uma aliança.

Segundo Bartolomé de las Casas, essa era a fala do cacique taíno: "Nos dizem esses tiranos que adoram a um deus de paz e igualdade, mas usurpam nossas terras e nos fazem de escravos. Eles nos falam de uma alma imortal, de suas recompensas e castigos eternos, mas roubam nossos pertences, seduzem nossas mulheres, violam nossas filhas. Incapazes de se igualarem a nós em valor, esses covardes se cobrem com ferro que nossas armas não podem romper… Por isso temos de atirá-los ao mar”.

E Hatuey fez a guerra aos espanhóis, que o capturaram e o queimaram vivo. Contam que, na fogueira, um padre perguntou se ele queria se converter. Hatuey perguntou se, convertido ele iria ao céu cristão. – Sim, respondeu o padre. E o cacique taino, cuspindo de nojo, replicou: - Então não, prefiro o inferno, onde não encontrarei gente tão cruel como vós.

Depois dele, muitos outros povos se rebelaram contra a invasão, mas, derrotados, sucumbiram a opressão e Abya Ayala virou uma grande colônia pertencente aos reinados espanhol e português. Foi só em 1780 que, a partir do grito de Tupac Amaru II e Tupac Katari, mais uma vez os povos originários tentaram uma guerra – envolvendo aliança com outras etnias - contra os espanhóis.

Foi um momento memorável que chegou a juntar milhares de índios em batalhas gigantescas. Mas, também aí foram derrotados.  Dez anos depois, Francisco de Miranda, agora das fileiras criollas (espanhóis nascidos na América) apresentou um plano no qual propunha juntar toda a América espanhola numa espécie de confederação. Esse sonho de Miranda foi levado a concretização por Simón Bolívar, nas lutas de independência iniciadas em 1815.

Desde a Jamaica, para onde fora exilado, depois da primeira tentativa de libertar a Venezuela, que não deu certo, Simón percebeu que a liberdade não poderia vir isolada, numa única província. Era preciso uma integração e foi aí que conclamou aos povos do continente: “Temos de formar uma só nação, com um só vínculo, que una suas partes entre sí e com o todo”. A Pátria Grande.

E foi com essa ideia na cabeça que ele peleou por várias regiões da América até conquistar a expulsão dos espanhóis em 1824. Em 1826 fez sua primeria tentativa diplomática para garantir a integração das províncias recém liberadas e convidou todos a um Congresso no Panamá.

Queria fundar ali uma confederação das repúblicas, a Pátria Grande, enfim, buscando garantir, inclusive, a libertação de Cuba e Porto Rico. Mas, Simón encontrou resistência entre os seus próprios generais que, mordidos pela mosca do poder, não queriam abrir mão de suas repúblicas. Foi traído nesse sonho e acabou morto, fugindo de seus ex-aliados. Com ele, também morreu a ideia de uma América integrada e unida. Até porque, no norte, crescia o germe daquilo que mais tarde viria a ser outro foco de opressão: o imperialismo dos Estados Unidos.

E foi a partir dos Estados Unidos e seu projeto de dominação que nasceu o Panamericanismo, a consolidação da proposta de Monroe: a América para os americanos, e aqui, a América era, na verdade, a do Norte, Central e  do Sul. O bolivarianismo colocado “patas arriba”. Para o governo dos EUA, a união dos países se dava na dominação por um só: ele mesmo. Foi assim que a Primeira Conferência dos Estados Americanos, realizada em 1889, na capital dos Estados Unidos, já buscava impor aos governos latino-americanos um tribunal de discussão territorial, relações de comércio unificadas e até uma moeda de circulação regional, tudo coordenado pelos EUA.

Sobre esse evento, que cobriu como jornalista, o grande poeta cubano José Martí escreveu: “Podem os Estados Unidos convidar a américa espanhola para uma união sincera e útil? Convêm a américa espanhola uma união econômica e política com os EUA?” Ele sabia que não. Tanto que, mais tarde, conclamou seu povo à luta contra o monstro que principiava a dominar tudo abaixo do Rio Bravo. E Martí não ficou nas palavras, partiu para a luta armada, na qual caiu morto.

O século XX foi o período de crescimento e expansão do império estadunidense, consolidado justamente com a ideia de “união”. Foi assim que nasceu, inclusive a Organização dos Estados Americanos, logo depois da segundagrande guerra, sempre com a promessa de proteção e ajuda.  Assim, o sonho de Hatuey, Tupac, Miranda e  Bolíviar ia ficando cada vez mais longe. Uma dominação trocada por outra. Nada de soberania, ou no máximo, uma soberania tutelada, na qual as elites locais seguiam no poder, mas sob o comando dos EUA.

E a vida corria tranquila para os Estados Unidos no seu projeto de tomar toda a Abya Ayala para si. Não contavam com a bravura de alguns jovens cubanos que, articulados com movimentos de resistência na ilha de Martí, decidiram afrontar o domínio estadunidense fazendo explodir uma revolução em pleno Caribe, então considerado como um quintal, um espaço de festa e diversão para os ricos dos EUA.

Desde as montanhas de Sierrra Maestra, os “barbudos” impuseram uma derrota espetacular aos Estados Unidos, liberando Cuba de uma ditatura e abrindo novamente a caixa do sonho integracionista, tão decantado pelo mentor de toda a luta: José Martí.  Desde aí, 1959, essa “rugosidade” no plano do império inspirou dezenas de lutas de libertação numa América Latina que seguia dominada. Ainda assim, apesar da resistência da ilha de Cuba e de uma série de movimentos revolucionários que explodiram no continente, os Estados Unidos conseguiram garantir a hegemonia política e econômica. A integração proposta agora por Fidel, não conseguia se fazer.

Os demais países acabaram sucumbindo às ameças estadunidenses, impondo, inclusive, um bloqueio a Cuba, que já dura mais de 60 anos.  Nesse meio tempo os EUA também garantiram governos amigos e de mão-dura em praticamente todo o continente. E, devagar, também foi inculcando a proposta de uma união de todos, mas sob a sua batuta. Assim, no início dos anos 90 surge a proposta da ALCA (Área de Livre Comércio das América), na qual haveria porteira aberta em todas as fronteiras, ainda que só numa direção. Os Estados Unidos comandariam e manteriam as suas porteiras bem fechadas, afinal, livre comércio é bom para os outros.

Chávez e o bolivarianismo insurgente

Mas num continente que já finalizara – na maioria - sua libertação das ditaduras, os movimentos sociais se levantaram firmes. Muitas foram as lutas, em todos os países, contra essa proposta de neocolonialismo. E, no meio dessa batalha que envolvia uma visão dominadora do processo de integração, inclusive, reduzido a sua dimensão econômica, aparece aquele que iria retomar as propostas de uma integração em outros moldes, com soberania e com equidade: Hugo Chávez.

Aliado às lutas já desencadeadas pelos movimentos sociais de todo o continente, ele se integrou a batalha contra a Alca. E aí, não eram mais só os “baderneiros” de sempre – como costumam chamar os lutadores sociais. Era um estado livre e soberano que começava, na prática, a atuar em consequência de um outro tipo de integração. Foi assim que ele propôs a ALBA, para se contrapor ao projeto de dominação dos Estados Unidos. A ALBA seria a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América.

Não apenas trabalhando com elementos da economia, mas garantindo a parceria política e as trocas culturais. Na esteira dessa aliança Chávez propôs a PetroCaribe, um plano de cooperação com os países empobrecidos do Caribe de troca de alimentos por petróleo, a Telesul – uma televisão integradora da vida e da cultura latino-americana, o Banco do Sul, para se contrapor ao FMI, trabalhando de forma a garantir a equidade e a justiça nas relações econômica. E assim, em 2005, ele mesmo, Chávez, foi a televisão para dizer do seu modo peculiar: “La Alca se fue al carajo!” E era verdade.

Logo em seguida, outros países da América Latina começaram a eleger presidentes que se alinhavam com as ideias de Chávez. Lula, no Brasil, Rafael Correa, no Equador, Nestor Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia. Com eles foi sendo consolidada outra vez a ideia de uma integração aos moldes do que sonhara Bolívar. Encontros foram acontecendo até que culminaram na criação da Unasul – União das Nações Latino-Americanas, uma entidade autônoma sem a participação dos Estados Unidos.

Mas a Unasul ainda era um mecanismo de integração só das nações sul-americanas e era preciso avançar mais, incluir o Caribe, o México. Assim em fevereiro de 2010 foi criada a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, com instalação em dezembro de 2011 na Venezuela, na realização de sua primeira reunião. Muitas coisas começaram a mudar a partir daí. Cuba teve de ser incluída em outros organismos, por conta da força de todos os países unidos e vários planos de desenvolvimento passaram a ser traçados envolvendo os países como um bloco.

Mas, em 2012, quando a presidência do órgão esteve com o Chile, a Celac teve de enfrentar a interferência dos Estados Unidos, que não poderia deixar barato essa ideia. Como Sebastián Piñeda não era um governante afinado com o processo bolivariano, o projeto claudicou, com a comunidade tendo mais um caráter de fórum consultivo. Agora, com a direção de Cuba, a entidade se institucionalizou e está tentando produzir documentos que realmente venha interferir no andamento das políticas.

Hoje teve início a II reunião da Celac, desta vez em Havana, Cuba, com a presença de 33 nações. E é a primeira sem Chávez, aquele que impulsionou e revigorou o conceito de bolivarianismo, dentro do qual a soberania e a união das nações era ponto fundamental. O tema central do encontro capitaneado por Cuba é a soberania. Segundo Raul Castro, o documento mais importante que está sendo produzido visa declarar a região como um espaço de paz, livre de armas nucleares. A ideia é, com isso, discutir a presença das bases militares estadunidenses na América Latina, que já chegam a 33. Certamente esse será um ponto altamente polêmico, se considerarmos que a Colômbia, sozinha, tem sete delas e é uma aliada dos Estados Unidos.

A presença de  José Miguel Insulza, o secretário geral da Organización de Estados Americanos (OEA), pode ser um elemento perturbador, como foi a de Edward James Dawkins, no Congresso Anfictionico do Panamá, chamado por Bolívar. Representando a Grã Bretanha, que foi como observadora, ele acabou fazendo negociações em separado com os países e de todo aquele encontro foi o que mais lucrou em negócios e acordos. A medida de chamar Insulza pode parecer simpática, mas ele pode muito bem ser um cavalo de Tróia.

Outro ponto que a reunião deverá tratar é a luta contra a pobreza, a fome e a desigualdade. Como disse Raul Castro, na abertura, os 10% mais ricos da população latino-americana recebem 32% dos investimentos, enquanto os 40% mais pobres recebem apenas 15%. Tendo mais de 15% de toda a superfície terrestre, com 8,5% da população total, a região tem reservas consideráveis de minerais não renováveis, um terço das reservas de água doce, 12% da área cultivável, 21% de bosques naturais e o maior potencial em produção de alimentos.

Talvez, nesse tema, muitos dos presidentes progressistas tenham de explicar por que, ao mesmo tempo em que praticam algumas políticas importantes de distribuição de renda, insistem em destruir comunidades em nome do lucro, como é o caso do Equador, que desaloja gente para atender mineradoras; e o caso do Brasil que tem permitido crescer os conflitos indígenas, dando margem para que os latifundiários, monocultores, sigam exercendo seu poder. Também aí, as divergências deverão aparecer. Muitos dos países na região são os maiores do mundo em produção de minério. Chile, com o cobre, Brasil, com o ferro, México, com a prata, Bolívia e Peru, com o estanho. A região tem ainda 65% das reservas mundiais de lítio, 42% de toda a prata, 38% do cobre, 33% do estanho, 18% de bauxita e 14% de níquel, isso sem contar o petróleo e os mais importantes aquiferos do mundo.

Essas riquezas são as causas da cobiça e ao mesmo tempo poderiam ser a salvação, se utilizadas de maneira a não destruir o ambiente e em favor das gentes. E aí não se trata de transplantar a lógica do desenvolvimento sustentável, que não existe no capitalismo. Haveria que se caminhar para outras alternativas de desenvolvimento, que levasse em conta o equilíbrio do planeta.

É fato que mesmo com toda essa riqueza, a América Latina tem 47 milhões de pessoas na condição de famintas. Segundo pesquisas da ONU esse número diminuiu em três milhões desde 2008, mas ainda assim, é gente demais passando fome, com os pés em tantos recursos. Além do mais é a região que mais produz comida, podendo alimentar o mundo inteiro. Nada justifica esse paradoxo.

De qualquer sorte, mesmo com tantas diferenças, a Comunidade de Estados Latino-Americanas e Caribenhas é uma preciosa novidade, desde o grito de Hatuey. E o desafio sempre será encontrar caminhos de ação conjunta – nesse território de 20 milhões, 453 mil e oito quilômetros quadrados  - em defesa não apenas das economias, mas também das gentes que conformam essas nações. O perfil do encontro, sem a presença abrumadora de Chávez, já veremos, tão logo sejam divulgados os documentos.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mujica: Política abandonou filosofia; virou receituário econômico

Via Vermelho

Vanessa Martina Silva

“Eu tenho uma preocupação permanente. Temos que semear uma cultura de transformação porque dirigentes não mudam a história da humanidade; a história da humanidade é mudada somente pelos povos. Ainda assim, temos responsabilidades”, afirmou o presidente o Uruguai, José Pepe Mujica durante o encerramento da 2ª Cúpula da Celac ao pedir uma mudança na mentalidade dos atuais governos: “não se muda a história por decreto”.

“A globalização é um fato que vai a caminho do desastre e não formos capazes de fazer aflorar uma consciência”| Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

“Temos que defender a vida o que significa deixar pelo caminho as arestas do desperdício, da contaminação e da escravidão do tempo humano. (…) A mudança climática é uma obrigação humana. (…) Todos vamos pagar o custo com a vida humana. Por isso temos que nos integrar. Nenhum país tem peso para enfrentar sozinho esta incerteza”, refletiu

“Será longa esta marcha. Temos uma velha dívida. Vivemos mais de um século olhando para a Europa e os Estados Unidos. [Com a Celac] demos um passo fantástico, mas temos que construir uma inteligência a favor da integração. Integrar fronteiras, comunicação, saúde, segurança, cultura, universidades, pesquisas dos povos latinos”, pontuou.

“A globalização é um fato que vai a caminho do desastre e não formos capazes de fazer aflorar uma consciência”. O mandatário questionou ainda a veracidade de que a região da Celac é uma área livre de armas nucleares: “como pode estar livre de armas nucleares nossas terras quando submarinos nucleares passeiam por nossas águas?”.
Mujica também opinou que “uma das desgraças da política é ter abandonado o campo da filosofia e ter se transformado em um receituário econômico. (…) Se seguirmos pensando somente no nosso, a civilização está condenada”, concluiu o presidente uruguaio.

Igor Ojeda e a Copa: Protestar contra violações é ser de esquerda

Sanguessugado do Viomundo

 

No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda

Igor Ojeda

Assombrosas algumas das reações aos protestos que questionam a organização da Copa do Mundo no Brasil. Não por apontarem incoerências, contradições ou desacordos com os manifestantes, mas por qualificá-los de antemão como terroristas ou “contra o Brasil”. Reações que partem do fígado são muitas vezes assim, acabam turvando a realidade. E esse profundo ciclo de desinformação (intencional ou não), requer, a meu ver, algumas pontuações:

1 – O famoso “Não vai ter Copa” é um slogan, muito mais de sentido simbólico do que prático. Podemos concordar ou discordar, achá-lo adequado ou não, certeiro ou irresponsável. Mas é um slogan. E está sendo espalhado por aí pela metade. Na verdade, ele completo é “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”.

2 – Os protestos convocados não são, em sua essência, contra a realização em si da Copa. Esta não é a reivindicação central. É, como dito, uma palavra de ordem mais de caráter simbólico do que prático. O ponto fundamental das manifestações são as violações a direitos causadas pelos eventos esportivos, que são muitas, inúmeras, e gravíssimas. No mundo onde cresci, violações a direitos são ações de direita. Protestar contra essas violações é uma ação de esquerda. E absolutamente legítima. De qualquer forma, mesmo que o foco principal fosse o cancelamento do evento, por tudo que ele representa em abusos, isso também seria legítimo.

3 – Não existe determinado grupo, organização, partido, ONG ou governo estrangeiro “por trás” desses protestos. Afirmar isso, ainda mais de forma categórica, é extremamente leviano. As manifestações são compostas por uma gama de movimentos e organizações legítimas, que têm em comum a opção por lutar contra os abusos decorrentes da realização da Copa do Mundo.

4 – Os protestos não são dos Black Blocks. Os Black Blocks não são os protestos. Ponto. Não é o caso de entrar no mérito sobre a legitimidade ou não desse tipo de tática neste momento, simplesmente porque os movimentos que questionam os megaeventos esportivos NÃO apostam na violência como forma de luta. Generalizar, tomar a parte como o todo para desqualificá-los é usar o mesmíssimo expediente da direita para desqualificar os atos contra os aumentos das passagens de ônibus e muitos outros protestos legítimos do presente e do passado. Pior ainda quando para tal desqualificação se usa a grande mídia e suas reportagens e imagens “editadas” como principal e exclusiva fonte de informação, como vem acontecendo muito frequentemente.

5 – Há anos, formou-se e consolidou-se, em todas as 12 cidades-sede, Comitês Populares da Copa, que se juntaram na Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop). Eles conformam uma extensa rede de movimentos de atingidos pelos grandes eventos esportivos, movimentos sociais, sindicatos, movimentos estudantis, advogados populares, urbanistas e ONGs que serve para dar coesão à luta contra as violações causadas por tais megaeventos.

6 – Não é de agora: há vários anos esses comitês da Copa e a Ancop desenvolvem um criterioso trabalho de levantamento e sistematização dessas violações. Isso serve para se organizar a resistência e, inclusive, propor soluções para enfrentá-las. Algumas resistências até já foram vitoriosas.

7 – Um extenso e sério dossiê sobre violações aos direitos humanos no âmbito da realização da Copa e das Olimpíadas é um dos resultados desse esforço. Ele pode ser acessado através deste link.

8 – E a lista de violações é bastante longa. Os questionamentos à Copa não estão restritos ao uso de verbas públicas. São muitos abusos concretos, situações reais, que afetaram e vêm afetando diretamente a vida de centenas de milhares – para não dizer milhões – de pessoas em todo o Brasil:

* Os cálculos mais conservadores citam a cifra de quase 200 mil pessoas removidas de suas casas como decorrência da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. São remoções a toque de caixa, feitas, como é de praxe, com violência, cooptação de lideranças, falta de informação aos atingidos, ausência de compensações adequadas. Sem falar nas consequências indiretas que vieram a reboque, a se destacar os grandes empreendimentos imobiliários travestidos de projetos urbanísticos, operações urbanas – bancados por governos em todo o país – que vêm expulsando os mais pobres das áreas valorizadas.

* Desde que o Brasil e o Rio de Janeiro foram escolhidos como sede, respectivamente, da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, uma série de leis e portarias foram e vêm sendo aprovadas e editadas (ou preparadas para tal) como forma de “adequar” a institucionalidade brasileira a esses eventos. São leis que permitem concessões de terras e bens públicos para a realização dos eventos, que proíbem manifestações, que autorizam o uso da Força Nacional contra manifestações civis (!), que cassam o direito de greve (!!) durante o período dos jogos, que não permitem o trabalho de comerciantes e ambulantes ao redor dos estádios etc. No geral, todas essas leis e portarias são feitas na medida para atender aos interesses da Fifa e/ou de grandes empresas. A Lei de Geral da Copa é a principal delas, mas não a única.

* As obras de infraestrutura e dos estádios vêm sendo acompanhadas por inúmeros casos de exploração dos trabalhadores. Já ocorreram duas dezenas de greves de operários, além de mortes causadas em boa parte por conta da aceleração requerida para o término das obras. Para piorar, prepara-se a aprovação de uma Medida Provisória que permitiria a contratação de trabalhadores por curta duração sem vínculo empregatício durante a Copa e as Olimpíadas.

* Sob o pretexto e/ou como consequência dos megaeventos, estádios e aeroportos foram concedidos à iniciativa privada.

* Todas as decisões relacionadas aos megaeventos estão sendo tomadas sem a mínima participação popular, passando por cima de instâncias como o Conselho das Cidades.

* As obras de infraestrutura bancadas com dinheiro público vêm sendo amplamente questionadas por beneficiarem principalmente o capital imobiliário e o transporte individual, por serem um dos agentes dos processos de higienização das cidades e por serem também causadoras de remoções feitas a toque de caixa. Denuncia-se também que verbas públicas vêm sendo destinadas a estádios públicos que posteriormente serão concedidos à iniciativa privada, num processo de elitização que afastará (ou já vem afastando) cada vez mais os pobres da possibilidade de assistirem aos jogos.

Diante de todo esse quadro de violações, está muito longe da realidade falar que os protestos que questionam os megaeventos esportivos foram orquestrados exclusivamente para derrubar a presidenta. Ou que são “contra o Brasil” e “contra o futebol, símbolo da cultura brasileira”, como bisonhamente defendeu um colunista. Muito pelo contrário. São a favor do Brasil. São a favor do futebol, mas não o futebol elitizado que uma Copa do Mundo hoje representa, que impede que o povo chegue perto das benesses do evento-ponto alto do esporte mais popular do planeta. Não se trata de ser contrário a estádios modernos, ou ao futebol-idem. Mas sim defender que tal processo de “modernização” não pode estar atrelado a um processo de elitização.

Mais do que tudo, a realização da Copa e das Olimpíadas está servindo como pretexto perfeito para um dos mais intensos processos de reconfiguração urbana dos últimos anos, acelerando de maneira frenética o avanço do capital imobiliário sobre os direitos da população pobre, que vem sendo sistematicamente expulsa das regiões valorizadas. Revitalização é a palavra do momento. Vale tudo para “limpar” a imagem de uma cidade que receberá jogos da Copa ou das Olimpíadas e atrair… negócios. Não adianta denunciar as atrocidades cometidas pela polícia do Alckmin na cracolândia de São Paulo e achar que esse tipo simplesmente abominável de ação repressiva não tem relação alguma com a maneira como vem sendo consolidada a realização dos megaeventos no Brasil.

Sim, é, claro, desses movimentos pode-se questionar o foco, a escolha da palavra de ordem, o momento dos protestos, suas possíveis consequências políticas, suas contradições. E é evidente que há os que aproveitam para focar os ataques exclusivamente no governo federal. É evidente que setores da direita aproveitam qualquer brecha para capitalizar. Assim como as manifestações de junho, esses protestos ganharam um caráter abrangente e difuso, difícil de ser analisado. Não se prestam a rotulações feitas com o fígado.

De qualquer forma, o que fazer? Ignorar as gravíssimas violações e nefastas consequências da realização dos megaeventos? Esperar de braços cruzados que continuem a ocorrer remoções, que as famílias atingidas prossigam desassistidas, que leis radicalmente antidemocráticas sigam sendo aprovadas, que trabalhadores continuem sendo explorados? Não há brecha maior para a direita do que a forma como esses eventos vêm sendo organizados pelas diversas instâncias de poder. E a direita já está aproveitando, podem ter certeza.

Espantosa a megalomania de considerar que qualquer protesto contra a Copa seja uma armação destinada especialmente a atacar (e derrubar) o governo Dilma. Por mais que tentem fazer crer, a luta de classes no Brasil não se resume a PT x PSDB.

10 coisas que você deveria saber sobre os crimes do franquismo (qualquer semelhança…)

Via Insurgente.org

Joaquim Bosch (*)

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

1. Em 18 de julho de 1936 não começou uma guerra civil. O que aconteceu foi que um grupo de militares deu um golpe de estado contra um governo eleito democraticamente

2. O golpe de estado foi apoiado de forma militar, ideológica e econômica pela Alemanha de Hitler. Quando a rebelião não triunfou em todo o território espanhol, a Alemanha nazista começou a experimentar seu armamento contra civis indefesos, num ensaio do faria posteriormente na Europa.

3. Centenas de milhares de pessoas morreram como resultado da contenda. Ainda continuam enterradas em fossas comuns mais de 100 mil pessoas, que foram assassinadas pelos que se levantaram contra a ordem constitucional.

4. A maioria das pessoas que continua sem identificação nas fossas não tinha ido participar de guerra alguma. Foram exterminadas dentro da estratégia do golpe militar de eliminar qualquer possível dissidência e aterrorizar o conjunto da população.

5. Pinochet confessou sua admiração por essa forma de levantamento militar, e a aplicou no Chile. Foi um dos poucos chefes de estado que compareceu aos funerais de Franco.

6. A repressão não terminou em 1939. Os crimes, torturas e graves violações dos direitos humanos se prolongaram por décadas, até o final do franquismo. O prestigiado historiador Paul Preston assinalou que não existe equivalente na Europa a respeito da intensidade e da duração dessas atrocidades de Estado.

7. A Espanha é o segundo local do planeta em quantidade de desaparecidos, atrás somente do Camboja. A ONU exigiu ao nossos poderes estatais que protejam dos direitos dos familiares das vítimas do franquismo.

8. O Tribunal Supremo considerou que já não podem ser mais investigados penalmente os crimes do franquismo. Remeteu os familiares das vítimas à Lei da Memória Histórica, para que por parte da administração pública se procedesse a exumação dos restos mortais. O governo atual paralisou, ao começo de seu mandato, o cronograma de exumações que já tinha sido iniciado.

9. Resulta vergonhoso que um Estado democrático mantenha sem identificar e sem uma sepultura digna as vítimas mortais de um regime totalitário.

10. Diante dessa situação, todos podemos fazer muito. É perfeitamente possível que os que foram mortos por suas convicções democráticas saiam finalmente das fossas. Temos que gerar um amplo estado de opinião a favor das exumações, e reclamar ao governo que respeite o direito dos familiares de recuperar os restos de seus seres queridos. Não devemos esquecer os que deram sua vida por uma sociedade mais justa. Passem adiante.

(*) Magistrado e porta-voz de Juízes para a Democracia

Brasil: quem aposta na violência

Sanguessugado do Outras Palavras

 

140128-CopaB

Black-bloc é apenas detalhe. Diante da paralisia do governo, e das dificuldades dos movimentos sociais, direita flerta com caos

Antonio Martins

Como 2014 promete emoções fortes… Em São Paulo, por pouco não surgiu, nas últimas horas, a primeira vítima fatal das manifestações contra a Copa do Mundo. Fabrício Proteus Chaves, de apenas 22 anos, correu risco de morte depois de ser baleado sábado, de modo covarde e fútil – no peito e nos testículos – por policiais militares. O secretário de Segurança tenta proteger os que atiraram. De Lisboa, a presidente Dilma Roussef convocou (para fevereiro) reunião de emergência… Porém, o silêncio, diante dos novos atos brutais cometidos pela polícia paulista leva a temer que o governo federal manterá, em relação aos protestos, a atitude de avestruz adotada a partir de outubro. A repressão concentra as atenções sobre o black-bloc. Mas será ele, de fato, um oponente da brutalidade do Estado? Ou, pelo contrário, contribui pra radicalizá-la, ao adotar a violência como arma política e tornar legítima, portanto, a lógica que sustenta a repressão policial? A seguir, três hipóteses sobre os últimos acontecimentos.

1. A PM paulista provoca manifestantes e age para criar um fato dramático

Pelo menos duas cenas demonstram que, na manifestação de sábado, a polícia militar de São Paulo voltou empregar violência gratuita e agir de forma abertamente provocadora. A primeira são os disparos contra o jovem Fabrício. Confira as imagens, em especial a partir do segundo 00:12. Fabrício não “se atira” contra um dos policiais (que havia tropeçado), como alega o secretário de Segurança. Sua queda é claramente precedida pela cena em que outro policial saca a arma e a aponta para o garoto. A conclusão evidente é que sofreu o impacto do tiro e caiu. Depois disso, quando já não poderia representar ameaça alguma, recebeu mais dois disparos, ambos à queima-roupa. No entanto, sem se dar a qualquer esforço de investigação, os jornais sustentamque há “duas versões” sobre os fatos – como se não fosse possível verificar qual delas é verdadeira.

A segunda cena é a ação brutal com que a PM agiu contra manifestantes que haviam se refugiado no Hotel Linson, na rua Augusta, assustados com a tropa de choque. Repare, nos dois vídeos. A tropa de choque entra aos berros, disparando balas de borrachadentro do saguão, contra pessoas que não esboçam resistência alguma (muitas deitadas no chão). Depois, ao conduzirem os detidos ao camburão, os PMs o fazem aos safanões e “gravatas”, chutando até mesmo um fotógrafo da Agência EFE que registrava os fatos.

 

sppresosvagnermagalhaes

Lembre-se: horas antes, a polícia não havia impedido os black-blocs de depredar dezenas de vitrines, fazer barricadas de fogo ou virar contêiners de lixo sobre a rua. Agora, é selvagem contra pessoas pacíficas. Estepadrão bizarro de comportamento repete-se inúmeras vezes, desde as jornadas de junho. Por exemplo, na depredação do terminal de ônibus do Parque Dom Pedro II (25/10) (e também em outros estados, como no quase-incêndio da Câmara Municipal do Rio, em 7/10). Será apenas despreparo policial?

Ou a PM paulista age orientada por interesses partidários? Nas eleições presidenciais de novembro, a presidente Dilma tem amplas chances de vitória. Seus adversários conservadores buscam, para embaralhar o jogo, um fato – qualquer um – capaz de provocar comoção nacional. Gente como Geraldo Alckmin, que liderou a destruição do Pinheirinho, hesitará em reprimir manifestações com violência, se o ganho político puder ser esta comoção?

2. Obcecado pelo cálculo eleitoral, o Palácio do Planalto adota a estratégia do avestruz

O suspeitíssimo comportamento da polícia de São Paulo poderia ser um problema menor, se o governo federal fizesse alguns gestos simples. A presidente Dilma nem precisaria se envolver diretamente. Bastaria que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, responsável por coordenar a defesa da segurança pública no território nacional, declarasse, por exemplo, que está consternado com os tiros disparados contra Fabrício Chaves; ou que julga descabidos os precedimentos da PM no Hotel Linson. A polêmica estaria criada. Voltaria ficar claro que há, no universo da política, visões distintas. Para alguns, as questões sociais são “caso de polícia”. Para outros, as reivindicações populares precisam ser recebidas com diálogo, não a bala.

Mas, desde outubro de 2013, houve uma reviravolta no governo Dilma. A presidente sabe que é acossada por uma mídia hostil. Está, obviamente, empenhada em se reeleger. Porém, julgou que, para isso, o melhor é adotar uma atitude de retranca. Como um time de futebol preocupado apenas em segurar um resultado, seu governo abdicou da ousadia. Nada cria. Deixa todas as iniciativas aos adversários. Torce apenas para que o tempo corra rápido, até outubro.

Talvez não perceba o quanto esta atitude é trágica – porque apaga, aos olhos da população, as diferenças. Assim como ocorre na Europa, há anos, surge a ideia de que os políticos são todos iguais, y no nos representan.

Esta postura contamina, aos poucos, todas as ações do governo federal. Na Economia, leva a Dilma ao Fórum de Davos, para dizer que o Brasil curva-se às ideias ortodoxas (leia análise brilhante de André Singer). Na resposta às manifestações sociais, provoca o encerramento do diálogo com os movimentos (ensaiado com sucesso em junho, mas interrompido em outubro) e a aposta numa estratégia cuja base é o controle policial.

Ao invés de se manter crítico aos comandos das PMs e aos governos que as controlam, o ministro Cardozo afaga-os. Anuncia “ações conjuntas”. Promete “reforços”, “apoio”, “assistência”. Produz-se, então, o cenário dos sonhos, para os interessados em manter a brutalidade da tropa de choque e tentar usá-la com fins eleitorais. Eles se convencem de que poderão continuar a praticar barbaridades. E sabem que estão blindados pela mídia: qualquer episódio desastroso será jogado na conta do Palácio do Planalto…

Estão reunidos os ingredientes para um grande desastre político? Não: falta mencionar a indispensável contribuição dos black-blocs.

3. O Black-bloc reforça exatamente aquilo que diz combater

Desde julho, nenhum movimento social brasileiro obteve, da mídia, destaque comparável ao black-bloc. Em setembro e outubro, dezenas de milhares de bancários fizeram uma greve nacional como há muito não se via. Durou 22 dias e arrancou dos banqueiros um reajuste salarial acima da inflação. Jamais chegou às manchetes dos jornais ou foi destaque nos noticiários da TV. Em novembro, oito mil famílias ligadas ao MTST – mais que a população de milhares de cidades brasileiras – ocupam, na zona sul de São Paulo, uma grande área antes reservada à especulação imobiliária. Lá, organizaram um sistema de convívio alternativo – na alimentação, limpeza, segurança, creches – que perdura e cresce. Quase não há reportagens a respeito, apesar do enorme interesse que despertariam. Mas uma manifestação de 1,5 mil black-blocs gerahoras na TV e dias seguidos de manchetes.

Num certo sentido, é compreensível. O black-bloc surgiu há pouco, no Brasil, e novidades atraem; além disso, fogo, fumaça e gente mascarada são elementos imageticamente fortes. Mas é provável que este não seja o único fator. Para quem quer multiplicar a repressão contra os movimentos sociais, nada mais útil que naturalizar a violência; que apresentá-la como algo praticado igualmente pelos manifestantes e pela polícia; que levar a sociedade a aceitá-la ou desejá-la.

aoq8tozl45wric8mz6mpgua9m-e1390940443449

Um vídeo feito também no sábado, na Praça da República, por onde passou a manifestação contra a Copa, ilustra isso de modo emblemático. Milhares de pessoas assistem a um show musical. Um grupo de black-blocs investe contra o palco, atirando latas de cerveja contra os que lá estão. A multidão revolta-se. Um dos agressores mascarados começa a ser linchado pelos populares. Só escapa porque um segurança intervém, extintor de incêndio em punho. Ainda mais grotesco: o apresentador toma o microfone e exclama: “tem de dar porrada, mesmo”! É ovacionado pela multidão.

No sábado, os black-blocs produziram, em série, atos de violência gratuita como este. Diante do Teatro Municipal, hostilizaram os participantes de uma comemoração dos 460 anos de São Paulo. Testemunhas dizem que estouraram uma bomba. Investiram contra os policiais, com rojões e bolas de gude, antes de serem atacados.

Dizem ser radicais contra a opressão do Estado, mas a cena da Praça da República serve como metáfora do que podem, involuntariamente, produzir. Ao elegerem a violência como método de luta principal contra o aparato repressivo, acabam por legitimá-la. São compreendidos pelos que desprezamos o capitalismo – principalmente por serem jovens e não temerem expor-se ao risco. Mas que resposta sua atitude despertará, entre a vasta maioria que está fora de nossas redes sociais endogâmicas? Até agora, todas as evidências sugerem que não virão aplausos, mas apoio à ação policial, muito mais violenta: “tem de dar porrada, mesmo”!

* * *

A cinco meses da Copa do Mundo e a nove das eleições, há algo muito grave na conjuntura brasileira. O governo Dilma assemelha-se a um grande navio à deriva, que perdeu a bússola política e se orienta apenas pelo meteoro fugaz das eleições. Os movimentos sociais históricos atuam – mas não conseguiram, ainda, apresentar uma alternativa de conjunto, capaz de recompor um horizonte utópico e entusiasmar as maiorias. Grupos como os black-bloc são, evidentemente, incapazes de fazê-lo – e seria tolo esperar isso deles. A direita política e midiática, esta sim, parece saber muito bem o que quer.

Em São Paulo, por pouco não surgiu, nas últimas horas, a primeira vítima fatal das manifestações contra a Copa do Mundo. Fabrício Proteus Chaves, de apenas 22 anos, correu risco de morte depois de ser baleado sábado, de modo covarde e fútil – no peito e nos testículos – por policiais militares