quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Tambeíba enchia o saco dos índios de língua tupi

Sanguessugado do Boitempo

 

14.11.02_Mouzar Benedito_Indios[Pictogramas na Cachoeira Resplendor, Pará]

Por Mouzar Benedito.

comentei neste blog sobre aves que existiam aqui antes da chegada dos portugueses, mas cujos nomes em língua tupi foram abandonados. É o caso, por exemplo, de beija-flor, pica-pau e joão-de-barro.

Mas isso não acontece só com aves. Muitos e muitos animais permanecerem com seus nomes tupis (como jacaré, cutia, capivara, paca…), mas alguns passaram a ser chamados por nomes não tupis. É o caso da cascavel, que em tupi é boicininga (palavra que significa cobra que chocalha) e do macaco-inglês, que tem o rosto bem vermelho, e recebeu este nome porque os ingleses que andavam sob o sol da Amazônia ficavam muito vermelhos também. Em tupi o nome dele é uacari (indivíduo velhaco).

Mico não é de origem portuguesa, mas também não é tupi, é genérico de macacos pequenos, vem de uma língua karibe. Aqui nós o chamamos também pelo nom tupi, que é sagui (olhos vivos), ou sauim (de sôo-in, bicho pequeno).

Mico-leão é considerado uma espécie de sagui, seu nome em tupi é saguipiranga ou sauimpiranga (sagui vermelho, mico vermelho).

Outro bicho nosso com nome português é o ouriço-cacheiro. Em tupi, seu nome é cuandu que significa ligeiro e rumoroso; ou cua (cintura) ndu (cauda capaz de pegar, segurar). Outra versão sobre seu nome é que ele significa “o que faz pavor na roça”. Mas parece que o mais lógico é que seu nome signifique mesmo “muitos espinhos”. Pode ser também cuim (compridinho ou língua pequena, ou inquieto). Uma espécie de ouriço-cacheiro é chamado de queiroá ou queiroã, que significa “espinhos eriçados”.

Lagartixa em tupi é aimberê (que é também nome de homem), palavra que significa aquele que se contorce. Já o bicho-preguiça tem um nome onomatopéico em tupi, é aí ou aígue. Nunca ouvi o som que ele emite, mas dizem que é esse.

O nome genérico de morcego é bopi (o que fura a pele), mas tem o andirá, que significa morcego que tem chifre.

Queixada é taiaçu ou tajaçu (dente grande) e também tacuité.

Carrapatos, gafanhotos e outros bichos

Quanto aos insetos, parece que os portugueses renomearam quase todos. Vamos ver alguns deles.

Gafanhoto em tupi é tucura (bicho voraz), e seu nome aparece, por exemplo, no nome do bairro paulistano do Tucuruvi (gafanhoto verde) e na usina de Tucuruí (rio do gafanhoto).

Louva-a-deus é caajara (senhor do mato) ou emboici (mãe da cobra). Libélula (também conhecida como lavadeira ou lavandeira, talvez por “morar” em rios) é jacina (deitada na lua) ou jacatinga, palavra que significa árvore fétida, mas no caso da libélula deve ser “o que tem a cabeça branca” ou “o que tem o peito branco”.

Carrapato é jatevoca (o que racha com o ferrão), jatebuca, jateúca, jatevu, jatiúca (jati é pontudo, jatiúca é o que finca a tromba), e tem o carrapato-estrela, que é chamado de jatebuçu (carrapato grande). Bicho-de-pé é tunga (o que come). Pulga é tungaçu.

E vocês pensam que índios não pegavam aquele bichinho desgraçado chamado chato? Ora, pegavam, sim, e seu nome em tupi é tambeíba (o que se apega aos pelos do també – e també, é o nome da xoxota). Mas é chamado também de quibarana (semelhante ao piolho), já que o nome de piolho é quiba.

Grilo é jaqui ou iaqui (irrrequieto, agitado). Mas aqui entra uma dúvida minha: cigarra, que para os índios não passa de um piolho grandão, é jaquirana (o que é semelhante ao piolho, e a tradução literal seria “semelhante ao grilo”). Mas a cigarra é chamada também de guaruçu, o que é muito esquisito porque guaru é peixe comilão.

E já que o assunto é piolho, a centopeia, que popularmente é conhecida como piolho-de-cobra, em tupi tem o nome exatamente com esse significado: boiquiba (mboy é cobra e quiba é piolho), mas ela é chamada também de embuá, que pode significar pelos erguidos (viria de ambo-ã). Mas será que o “embu” de embuá não veio de mboy, que é cobra em tupi? A cidade de Embu, em São Paulo, deriva dessa palavra.

Percevejo é taminguá (pequeno comedor), tambejuá, pixuca ou pixunga (nome que davam ao fumo de corda de qualidade ruim).

Vagalume é uauá, mas pode ser também muá, uã ou cuici. Só consegui descobrir o significado de uã, que é uma derivação de anga, e significa alma.

Barata é arabé (o que é chato, rasteiro), mas besouro também é chamado por esse nome.

Lacraia aparece como japeguá (que tem “casca” redonda), mas japeguá no guarani falado até hoje no Paraguai é caranguejo e também escorpião.

Vespa é caba, caua ou cava (o que fere). Gusano é ibiraçoca (verme da madeira). Lesma e sanguessuga têm o mesmo nome, cumbe (língua achatada ou longo e achatado) – cum pode ser língua ou longo.

Aranha é nhandu (a que sente, sensitiva), e caranguejeira é nhanduaçu (aranha grande – mas esta palavra pode também significar ema grande, pois nhandu é também nome tupi da ema – neste caso, nhandu significa perna de correr, corredora).

Mosca é mberu, meru, e varejeira é merobi (mosca verde). Muriçoca (o nosso pernilongo) é “meru pequeno”, mosquito, e o borrachudo é pium (mosquitinho). “Beru”, às vezes, tem outra pronúncia, como no caso de Birigui (cidade paulista) e Barigui (parque de Curitiba), e também significam mosquitinho.

Já o barbeiro (chupão) é brocotó ou procotó – o que sacode a gente (quando pica).

Vermes que dão em frutas (e também caruncho) são chamados de açoca ou içoca (o que quebra fruta). Já a mosca do desgraçado do berne, que em vez de furar frutas bota ovos na pele da gente e dos animais, e seus “filhotes” entram pele a dentro crescem ali, provocando dor, chama-se ura (nasce dentro).

Borboleta é panamã (pa: bater; amã: levantar – o que se bate se levantando). Vale panamá também. Pode ser só panã (bater, malhar) ou paná. Borboleta que vive em bandos é panapanã. Em guarani é panambi, palavra usada para mariposa em tupi.

Peixes e outros que vivem nas águas

Entre os peixes, há o caso do dourado, que é simplesmente uma tradução de piraju, nome dele em tupi.

Alguns preservam mais ou menos o nome tupi, ao lado do português, como é o caso da enguia, que em tupi é muçum (significa o que desliza, escorregadio).

Mas muitos receberam nomes que nada têm com os originais do tupi. Arraia é jabebira (o que tem a pele estufada, encaroçada). Bagre é jundiá (cabeça com espinho – alusão à barbatana). Cascudo é chamado acari, cari e juruitaquara (o que fica deitado no buraco da pedra, na loca).

O peixe-boi, que não é boi e sim um mamífero, é conhecido aqui também pelo nome de manati, palavra da língua do povo Taino, do caribe, e significa peito de mulher. Os povos de língua tupi o chamavam de guaraguá, palavra que pode ter três significados, conforme a interpretação: peixe gordo, peixe redondo e morador das enseadas.

E continuamos com os bichos aquáticos. Uçá é o nome genérico de todos os caranguejos de unha pontuda, Significa “olhos na perna”, porque parece que ele tem mesmo olho na perna.Um caranguejo que permaneceu com o nome tupi no Nordeste é o guaiamum (o indivíduo do buraco, ou o encovado).

Camarão, todo mundo deve se lembrar que é poti, pois aparece no gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, potiguar (comedor de camarão). E um líder indígena que participou da expulsão dos holandeses chamava-se Poti e depois foi batizado como Felipe Camarão. Mexilhão é sururu (o bicho tímido, ou encharcado);

E chegamos às rãs, cujo nome genérico em tupi é jia. Sapo em geral é cururu (não só o que nós chamamos por esse nome em português), palavra que significa rugoso. O sapo-boi e o sapo-de-chifre são chamados de intanha ou intão, uma adaptação de ji (rã) tã (forte).

Bom, termino por aqui. E já que terminei falando de sapo, lá vai um ditado caipira envolvendo o dito-cujo, mas em português mesmo: “Sapo não pula por boniteza, pula por precisão”.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo,Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

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