domingo, 21 de dezembro de 2014

Pepe Escobar: O que Putin não nos contou

Sanguessugado do redecastorphoto

· Análise: certa.

· Resposta ao ocidente: certa

· Putin cool impecável

 [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today

What Putin is not telling us

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin durante a entrevista de 18/12/2014

Embora enfrente o que, analisada sob sejam quais forem as circunstâncias, é uma tempestade perfeita, o presidente Putin teve desempenho extremamente equilibrado na sua maratona anual de conferência e sessão de perguntas e respostas com a imprensa.

A tempestade perfeita desdobra-se em dois fronts: uma guerra econômica aberta – com o país sendo sitiado por sanções; e um ataque de sombras, preparado, urdido, clandestino, contra o coração da economia russa. O objetivo de Washington é claro: quer minar o adversário, serrar-lhe os caninos, para forçá-lo a curvar-se humilhado ante os desejos do Empire of Chaos. E sem parar de vangloriar-se de que esse seria o caminho para a vitória de Washington.

A dificuldade é que Moscou decifrou com acerto impecável o jogo – já bem antes, quando Putin, no Clube Valdai, pôs o dedo na doutrina Obama:

(...) é como se nossos parceiros ocidentais, os próprios pais deteorias do caos controlado não soubessem o que fazer da própria criatura.

Assim sendo, é claro que Putin já tinha ferramentas para compreender o ataque monstro de caos controlado, dessa semana. O Império tem massivo poder de dinheiro; muita influência sobre o PIB de US$ 85 trilhões do mundo, e o poder do banking [da bankerada] por trás disso tudo. Assim sendo, nada mais fácil que usar esse poder mediante os sistemas de banking privado que realmente controlam os bancos centrais, para criar uma corrida contra o rublo. O sonho do“Empire of Chãos” é, pode-se dizer, derrubar o rublo até que tenha caído 99%. A economia russa terá sido convertida em destroços. Que melhor meio para impor à Rússia a tal “disciplina imperial”?

A opção “nuclear”

A Rússia vende petróleo denominado em dólares norte-americanos ao ocidente. A empresa Lukoil, por exemplo, tem de receber um crédito em dólares norte-americanos, num banco norte-americano, para pagar pelo petróleo que os russos vendem. Se a Lukoil tem de receber rublos, então o comprador tem de vender os dólares que tenha depositados e comprar correspondentes créditos em rublos para abastecer a própria conta bancária. Isso, de fato, apoia o rublo. A questão é se Lukoil, Rosneft e Gazprom estão acumulando dólares norte-americanos no exterior e segurando os dólares. A resposta é não. E o mesmo se aplica a outros negócios russos.

A Rússia não está “perdendo suas poupanças” como gargareja a imprensa-empresa ocidental. A Rússia sempre pode exigir que empresas estrangeiras mudem-se para a Rússia. A Apple, por exemplo, pode abrir uma unidade fabril na Rússia. Os recentes negócios firmados entre Rússia e China incluem construção de fábricas chinesas na Rússia. Com um rublo depreciado, a Rússia pode forçar fábricas que foram deslocadas para a União Europeia, a se instalarem na Rússia; é isso, ou essas empresas perdem o mercado. É verdade que Putin, de certa maneira admitiu que a Rússia deveria já ter feito há muito tempo o que só agora fez. Agora, o processo – positivo – é inevitável.

E há uma opção “nuclear” – que Putin nem precisou mencionar. Se a Rússia decide impor controles sobre o capital e/ou impor um “feriado” no pagamento de enormes parcelas da dívida que vencerão no início de 2015, o sistema financeiro europeu conhecerá dias de bombardeio à moda “Choque e Pavor”. Afinal, grande parte dos financiamentos bancários e privados russos são levantados na Europa.

O “calote” da Rússia, por ele só, não é a questão. A questão é a conexão com os bancos europeus. Como me disse um banqueiro de investimentos americano, Lehman Brothers, por exemplo, derrubou a Europa, praticamente tanto quanto derrubou New York City – por causa dos inter-links. E Lehman, claro, tinha sede em New York. O que conta é o efeito dominó.

Se a Rússia servir-se dessa opção “nuclear” financeira, o sistema financeiro ocidental não conseguirá absorver o choque do calote. O que provaria cabal e completamente – de uma vez por todas – que os especuladores de Wall Street construíram um “Castelo de Cartas” tão frágil e corrupto, que a primeira tempestade que se abater sobre ele o reduz a pó.

À curta distância

E se a Rússia faz o calote – e cria a mais alucinada confusão da dívida de US$ 600 bilhões, do país? É o cenário que levou os “Masters of the Universe” a mandar Janet Yellen e Mario Draghi criar créditos nos sistemas de banking para prevenção de “dano indevido” [orig. “undue damage”] – como em 2008.

Mas então a Rússia decide cortar o gás natural e o petróleo para o ocidente (mantendo normal o fluxo para o oriente). A inteligência russa pode criar inferno non-stop nas estações de bombeamento, do Maghreb até o Oriente Médio. A Rússia tem como bloquear todo o petróleo e todo o gás natural bombeado em todos os “-stões” da Ásia Central. Resultado: o maior colapso financeiro da história. E fim da panaceia excepcionalista do “Empire of Chãos”.

Claro que esse é cenário de apocalipse. Mas não provoquem o urso; ursos são muito rápidos.

Putin falou com tanta segurança, tão calmo, tão concentrado – sempre interessado em expor detalhadamente cada ponto – naquela conferência de imprensa, porque ele sabe que Moscou pode mover-se com total autonomia. Claro que, sim, é guerra assimétrica contra um império que está desabando, perigoso. O que pensam da vida aquelas ratazanas intelectualmente subdotadas que enxameiam em torno de Obama Pato Manco? Que convencerão a opinião pública nos EUA – no mundo – de que Washington (de fato, só os cachorrinhos europeus) declarará guerra nuclear, a ser combatida no teatro europeu, em nome do estado falido da Ucrânia?

É jogo de xadrez. O ataque contra o rublo foi concebido para ser o xeque-mate. Não é. Nunca seria, jogado por jogador medíocre. E não esqueçam a parceira estratégica Rússia-China. A tempestade talvez esteja amainando, mas o jogo continua.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

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