quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Os riscos do aumento dos juros

Via Brasil de Fato

O discurso se limita a sugerir cortes e contenção nas despesas correntes (saúde, educação, previdência etc.) ou novos investimentos

Paulo Kliass

Em suas 2 últimas reuniões de 2014, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu por aumentos consecutivos na taxa referencial de juros do governo federal, a Selic. Depois de seis meses de manutenção da taxa no patamar de 11% ao ano, a reunião do colegiado optou por um aumento de 0,25% em 30 de outubro. No encontro seguinte, realizado em 4 de dezembro, ela foi elevado para 11,75%.

Esses aumentos carregam o significado de um maior aperto na política monetária e isso explica o inusitado aumento nas taxas cobradas pelos bancos em suas operações de crédito e empréstimo. A intenção declarada de se manter a taxa de juros elevada é reduzir o volume de dinheiro na economia destinada ao consumo. Com isso, de acordo com a teoria monetarista, haveria menor pressão de demanda sobre os preços da economia, provocando menor impacto sobre os preços. Em resumo, assim a inflação estaria ainda mais sob controle.

Ocorre que a manutenção de juros em níveis estratosféricos provoca redução dos investimentos, da produção e da aplicação no setor real da economia. É o verdadeiro reino do financismo, onde o retorno financeiro obtido pelo capital parasita especulativo é maior do que qualquer empreendimento real e concreto.

Ao apresentar essa faceta de bom mocismo na condução da estabilidade do tripé macroeconômico frente aos representantes da banca internacional, o resultado é a manutenção ou mesmo o aumento do fluxo de ingresso de recursos externos, em sua busca permanente e insana por rentabilidade em todas as praças financeiras ao redor do mundo. Como o Brasil segue na condição de campeão mundial da taxa de juros, o mercado é invadido por esse tipo de capital aventureiro, que não mantém nenhum compromisso com a solidez interna de nossa economia.

Como o discurso de compromisso com o modelo herdado do apogeu do neoliberalismo mantém intacta a política de liberdade cambial, o que se verifica é a continuidade da pressão de ingresso de recursos externos, em especial em dólares. Atraído pela rentabilidade extraordinária oferecida pelas aplicações em nossas praias, esses dólares pressionam a taxa de câmbio para uma situação de sobrevalorização. É o caminho para a inundação de produtos importados, em especial os provenientes da China. O resultado é a sinuca de bico de nossa desindustrialização, com a destruição de empresas, diminuição dos empregos e a internacionalização crescente de nossa economia.

Taxa de juros elevada significa o caminho aberto para a recessão e para o desemprego, como bem advertiu e denunciou a candidata Dilma Roussef em sua campanha eleitoral recente. Ao acusar os candidatos Marina e Aécio de proporem independência do Banco Central e um possível banqueiro para o Ministério da Fazenda, a presidenta pleiteando a reeleição apontava os riscos sociais, econômicos e políticos de tal opção.

O problema é que foi sendo consolidado um novo “Consenso de Brasília”, sempre em torno da falsa necessidade de um aperto duro nas contas fiscais, para se alcançar a meta de um superávit primário mais elevado. Por outro lado, esse mesmo entendimento conservador aponta também para a necessidade de um duro enfrentamento da inflação, que estaria começando a sair do controle. De acordo com essa visão da ortodoxia, o único remédio é o aumento dos juros.

Ora, a realidade nunca mencionada pelos grandes órgãos de comunicação comprometidos até o pescoço com tal alternativa estagnacionista é que o próprio aumento da Selic provoca aumento nas despesas orçamentárias. Como os títulos da dívida pública recebem a remuneração orientada pela própria taxa oficial de juros, o simples aumento acumulado de 0,75% representam o incremento anual de despesas financeiras de R$15 bilhões.

Mas quando os analistas de plantão enchem a boca para exigir austeridade no gasto público e maior eficiência na condução da gestão do Estado, nunca se referem ao fato de que mais de 40% do Orçamento da União estão comprometidos com juros e serviço da dívida pública. O discurso se limita a sugerir cortes e contenção nas despesas correntes (saúde, educação, previdência etc.) ou novos investimentos. Quanto a corte nos gastos parasitas com juros e outras despesas de natureza financeira, permanece o silêncio de sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são como afagos no ego de qualquer blogueiro e funcionam como incentivo e, às vezes, como reconhecimento. São, portanto muito bem vindos, desde que resvestidos de civilidade e desnudos de ofensas pessoais.
As críticas, mais do que os afagos, são benvindas.