sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O emblemático grito de Eric Garner: “Não posso respirar”

Via Rebelión

Luri Tonelo

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

La Izquierda Diario

É doloroso, desesperador, perturba ouvir a voz tensa de Eric Garner, um negro norte-americano com vários policiais montados em cima dele, repetindo várias vezes “não consigo respirar”, pouco antes de perder a vida. A atrocidade policial foi filmada por um transeunte e já se encontra na rede.

A frase da Garner parece ficar rondando nosso espírito uma vez e outra: “Não consigo respirar”. Num mundo onde ficamos com falta de ar por vários motivos, por tantas frustrações e decepções, pelo desânimo por um emprego explorador, pela opressão e violência ideológica dos dominantes, também nós sentimos que não conseguimos respirar  ao ver o vídeo de Eric Garner.

A falência histórica desse sistema, que não pode resolver nenhuma das questões estruturais que nos tiram o ar e o encanto, essa falência é tão estrutural que faz com que qualquer um passe da melancolia ao ódio ao ver o julgamento desse caso. Com um vídeo explícito do assassinato atroz de Garner, a Justiça decidiu não processar o policial responsável por sua morte.

Ou seja, a morte de um homem negro nos Estados Unidos passou o limite da banalização. Num sistema que utiliza a força de trabalho de negras e negros como a mais barata das mercadorias,  e que desgasta e explora até a última gota de suor nas fábricas e postos precários, descartar a vida de outro negro parece ser somente a consequência natural para manter esse mesmo sistema racista de dominação.

A incredulidade nesse sistema está extravasando nos EUA. Com reconfortante entusiasmo, vimos milhares de norte-americanos romperem o silêncio diante dessa atrocidade. Milhares se manifestaram recentemente em Nova York, Los Angeles, Chicago, Boston, Minneapolis, Atlanta, Oakland, com importantes mobilizações na Califórnia, que meios internacionais se apressaram em definir como violentas para deslegitimá-las. O grito de Ferguson se mantém vivo desde a morte de Michael Brown pelas mãos de outro policial.

Nas manifestações, os ativistas fazem, além de passeatas, representações deitando-se nas avenidas principais, encenando a morte de Eric e de outros, entoando o grito de “não consigo respirar”. As manifestações estão se estendendo e demonstraram o nível de racismo que ainda encontramos no coração do capitalismo internacional.

Um dos fundadores da perspectiva emancipadora do socialismo afirmava que a história tinha suas  ironias. A questão negra emerge nos Estados Unidos a partir de distintos casos de assassinato e violência policiais, mas é irônico que o canto de guerra agora seja “não consigo respirar”.  É emblemático por que o racismo oprime de diferentes formas: na violência física policial, na discriminação escolar, nos empregos, na maior exploração no trabalho, mas também na intimidade quotidiana, expressada nas palavras de Garner antes de ser detido, de que estava cansado de todos os dias sofrer aquela mesma perseguição.

Sim, estamos cansados do racismo, da violência, da opressão. Para sorte dos corações que anseiam por outra sociedade e outra perspectiva de vida, desta vez o cansaço não se transformou em resignação, mas numa significativa onda de mobilizações contra a violência e a morte dos negros nos Estados Unidos. A falta de ar de hoje é somente o combustível para uma vontade furiosa de terminar com o racismo e as opressões.

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