quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

México rebelde

Via RedeDemocrática

 Da Redação

 

O assassinato covarde dos 43 estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, na cidade de Ayotzinapa, próxima à Iguala, estado de Guerrero, tem levado centenas de milhares de mexicanos às ruas de todo o país em combativos protestos que, não raras vezes, terminam em confrontos com a repressão do velho Estado. Como noticiamos na última edição de AND, os jovens viajavam para participar de uma manifestação em 26 de setembro contra o ex-prefeito de Iguala, José Luis Abarca, quando foram pegos pela polícia e entregues a quadrilha narcotraficante ‘Guerreros Unidos’, que os executou. Os corpos foram encontrados carbonizados, o que causou ainda mais revolta entre o povo.

Rafael Gomes Penelas

TRÁFICO E POLÍCIA

Segundo a Procuradoria do México, Abarca ordenou que a polícia parasse os veículos que levavam os manifestantes. O objetivo era impedir que eles se manifestassem durante um discurso de sua esposa María de los Angéles Piñeda. Houve confronto e seis pessoas morreram.

Em seguida, os agentes policiais capturaram 43 estudantes, que foram encaminhados ao cartel que comanda o tráfico de drogas na região. Eles foram amontoados em três veículos até o lixão de Cocula. Alguns pistoleiros afirmaram que 15 chegaram ao local mortos por asfixia e os demais foram assassinados de forma cruel e selvagem. O procurador-geral do México, Jesús Murillo Karam, declarou que três homens detidos confessaram ter recebido os estudantes da polícia e que a ordem para a execução e incineração dos corpos partiu de oficiais.

De acordo com Murillo, os corpos foram queimados em alta temperatura (1.600º) por cerca de 14 horas. “O alto nível de degradação causada pelo fogo aos restos mortais que encontramos dificulta a extração do DNA para permitir uma identificação”, declarou.

Até o momento, dezenas de policiais foram presos por envolvimento com quadrilhas narcotraficantes, evidenciando a íntima ligação (histórica, aliás) do aparato repressivo e burocrático do Estado com o crime organizado.

REBELAR-SE É JUSTO!

Inúmeras manifestações ocorreram por todo o país envolvendo estudantes, trabalhadores e demais setores dos movimentos populares. Correram o mundo as imagens do protesto na Cidade do México no dia 8 de novembro quando os manifestantes incendiaram a entrada do Palácio Nacional, sede do governo.

No dia 8 também ocorreram manifestações em Chilpancingo, capital de Guerrero. Veículos foram incendiados e coquetéis molotov foram arremessados contra a sede do governo local. No dia 10, um protesto bloqueou o acesso ao aeroporto de Acapulco. Dois dias depois, professores atearam fogo em algumas instalações do Cengresso de Guerrero e, no estado vizinho de Michoacá, educadores bloquearam os acessos ao aeroporto de Morelia.

“Vivos os levaram, vivos os queremos”, canta a população nos protestos. Diversos vídeos foram publicados nas redes sociais mostrando a fúria popular partindo para cima dos agentes de repressão, que foram obrigados a recuar inúmeras vezes.

“AUTORIDADES” DO VELHO ESTADO

A voz das ruas, além de responsabilizar as “autoridades” de Guerrero, também culpa o presidente Enrique Peña Nieto, que recentemente teve sua reputação ainda mais desmoralizada após a revelação de que sua esposa comprou uma mansão avaliada em US$ 7 milhões do Grupo Higa, vencedor de importantes licitações realizadas pelo governo. Este mesmo Peña Nieto, gerente do velho Estado semicolonial do México, não demorou em condenar os “protestos violentos”.

Já o ex-prefeito de Iguala e sua esposa, acusados de participação na morte dos 43 estudantes, foram presos durante uma operação da Polícia Federal no dia 4 de novembro. Abarca e María Piñeda foram encontrados em uma residência no bairro Iztapalapa.

Foto: Sede do governo de Guerrero incendiada por manifestantes

Fonte: A Nova Democracia, Ano XIII, nº 141, 2ª quinzena de Novembro de 2014


Dias de fúria popular no México

Rafael Gomes Penelas

Quando concluíamos a última edição de AND, recebemos a notícia do crime hediondo  cometido contra os estudantes de Iguala, estado de Guerrero, no México. O sequestro dos jovens mostra a que ponto chega a bestialidade das classes reacionárias irmanadas com bandos armados criminosos quando o assunto é sufocar as vozes daqueles que se levantam e protestam por direitos.

No dia 26 de setembro, as forças de repressão do velho Estado mexicano protagonizaram mais um banho de sangue, dentre os muitos que a história do país registra: pelo menos seis pessoas foram assassinadas, entre elas quatro estudantes, e 25 ficaram feridas durante um protesto realizado por alunos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, localizada em Ayotzinapa. Mas os crimes não pararam por aí. Enquanto redigíamos essas linhas, quarenta e três estudantes seguiam desaparecidos.

Segundo a imprensa mexicana, a polícia municipal atirou nos ônibus que transportavam os estudantes e os levaram até a polícia da cidade de Cocula, que teria entregado os estudantes a traficantes do bando criminoso ‘Guerreros Unidos’ para sua execução.

Quatro valas comuns contendo vinte e oito cadáveres foram encontradas nos arredores de Iguala. Segundo depoimentos de membros do “Guerreros Unidos’ presos, eles teriam participado do massacre e confessaram a execução de dezessete jovens. Posteriormente foi apurado que os corpos encontrados nas valas não eram dos alunos, portanto o número de vítimas dessas quadrilhas de narcotraficantes na região é bem maior. Até o dia 17 de outubro, mais seis novas fossas clandestinas haviam sido encontradas.

ÍNTIMA LIGAÇÃO

Investigações e denúncias apontaram a participação de “autoridades” e agentes policiais nas matanças. Em 17 de outubro, foi anunciada a prisão do chefe da quadrilha de traficantes protagonista do episódio em conjunto com a polícia. Até meados de outubro cerca de 40 policiais haviam sido presos por envolvimento com o crime organizado.

Os acontecimentos tomaram tamanha proporção que órgãos internacionais se pronunciaram exigindo explicações, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), a ONU e parlamentares europeus. Sob pressão, Enrique Peña Nieto, gerente de turno do velho Estado mexicano, disse que haverá punição para os culpados e colocou efetivos policiais com 1.200 agentes para averiguar o caso.

A repercussão negativa desses acontecimentos fez com que as ditas autoridades “mostrassem serviço” rapidamente. Em 14 de outubro, o líder do ‘Guerreros Unidos’, Benjamin Mondragón, foi morto durante uma operação policial na cidade de Jiutepec, na região central do país, informou o governo.

Mas os relatos de envolvimento não se restringem apenas às fileiras das corporações policiais. O prefeito de Iguala, José Luis Abarca, e sua esposa Maria de los Ángeles Pineda, estão foragidos, também acusados de envolvimento no massacre. Abarca era acusado de matar três adversários políticos, mas tinha seu processo engavetado e governava tranquilamente sem restrições do poder judiciário. Já Maria é acusada de ter ligações com o narcotráfico. Dois dias após os ataques, Abarca pediu afastamento, consultou um juiz federal de que com sua imunidade ninguém poderia prendê-lo e fugiu com a esposa.

Em 19/10, a página actualidad.rt publicou uma matéria em que o sacerdote Alejandro Solalinde, ativista e militante dos direitos humanos, dizia que os 43 estudantes foram assassinados. “Os estudantes  desaparecidos foram queimados vivos”, disse Alejandro, levantando a suspeita. O sacerdote também disse que as testemunhas da tragédia não querem denunciar porque temem ser as próximas vítimas.

A REBELIÃO SE JUSTIFICA!

Protestos de massas tomaram as ruas em diversas cidades mexicanas durante dias exigindo respostas sobre o paradeiro dos jovens e contra o Estado fascista. As constantes mobilizações envolvem movimentos estudantis, organizações de trabalhadores e outros movimentos populares. Não raro ocorrem enfrentamentos violentos com a polícia, bloqueios de vias, ocupações de prefeituras, bancos e prédios “públicos”. Estudantes de várias partes foram até o estado de Guerrero engrossar os protestos. A ação que teve maior repercussão ocorreu no dia 13 de outubro, quando manifestantes atacaram e incendiaram o complexo oficial do palácio de governo de Guerrero.

Em 25 de outubro, estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa saquearam um supermercado em Chilpancingo.

Uma parte das mercadorias tomada pelos jovens foi entregue aos transeuntes e outra parte levada à escola, onde estavam familiares dos desaparecidos que esperavam por notícias sobre os seus filhos.

Também em diversos países, ativistas de organizações populares realizaram atos públicos de solidariedade.

No Brasil, uma das organizações que se pronunciaram foi o Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) que, em nota, afirmou que “repete-se no México o que ocorreu no ano de 1968, quando a dez dias do início das Olimpíadas que ocorreriam na capital mexicana, tanques, metralhadoras e atiradores de elite cercaram a Praça das Três Culturas, em Tlatelolco, abrindo fogo contra a multidão. Neste trágico e absurdo episódio, mais de 300 pessoas foram covardemente assassinadas. Alguns falam em mais de mil mortos, centenas foram espancados e foi imposto o terror contra os que ousavam protestar em meio aos Jogos Olímpicos.

Repudiamos o Estado fascista mexicano e responsabilizamos o gerente do México, Henrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional, por mais este massacre. Solidarizamo-nos com a dor e a justa revolta dos familiares e amigos dos estudantes assassinados e desaparecidos”.

TRADIÇÃO DE LUTA

“Os alunos que estudam naquela escola são militantes e têm maior conhecimento político que a média. Pelo menos é assim que são vistos pelo governo mexicano”. Assim Juan Carlos Perez, correspondente da BBC no México, qualificou os estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa.

As Escolas Normais mexicanas foram criadas em 1926 com o intuito de formar educadores que exercessem a profissão nas regiões mais pobres do país e torná-los líderes comunitários. Daí vem a conhecida rebeldia e politização de seus alunos. Há muitas décadas é travada uma dura batalha com os sucessivos governos para garantir sua existência. Das 29 que existiram, hoje sobraram somente 13.

Foto: Ato de solidariedade realizado no Rio de Janeiro no dia 22/10

Fonte: A Nova Democracia, Ano XIII, nº 140, 1ª quinzena de Novembro de 2014

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