sábado, 6 de dezembro de 2014

Golpismo, 'comunismo', hipocrisia e reforma política

Via RedeBrasilAtual

Doadores de campanhas não agem por interesse público. Não são 'azuis' nem 'vermelhos'. As distorções históricas do sistema político ainda sustentam um modelo que o país tem o desafio de superar

Mauro Santayana

reforma política

Agora, que a reforma política volta à tona, o que importa é saber se teremos uma de fato, ou se uma reforma de faz de conta

Nas últimas semanas, insatisfeitos com o resultado das eleições, golpistas que nos últimos anos praticavam seu ódio à democracia e às instituições pela internet têm convocado caminhadas pelo país, pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff ou intervenção militar. Para tentar derrubar o governo, os novos golpistas fazem como fizeram os que os antecederam na história brasileira, que praticamente mataram Getúlio em 1954, tentaram inviabilizar Juscelino Kubitscheck em 1955 e derrubaram João Goulart em 1964.

Apelam para o tosco, velho e surrado discurso anticomunista da época da Guerra Fria, que justificou crimes como os milhares de civis mortos e torturados no Chile, na Argentina, na Indonésia, e em conflitos prolongados e estéreis como a Guerra do Vietnã.

Dizer que é comunista um país em que o sistema financeiro lucra bilhões, em que as multinacionais fazem o mesmo e remetem fortunas para o exterior, em que qualquer cidadão pode montar um negócio a qualquer momento, com ajuda do governo e de instituições, como o Sebrae, e em que nossos armamentos são produzidos em estreita cooperação com empresas inglesas, norte-americanas, francesas, suecas, israelenses, é tremenda hipocrisia.

À oposição institucional cabe também agir com responsabilidade. Caso fosse adiante um pedido de impeachment, ou caso venha a ser impedida por outras manobras a diplomação de Dilma Rousseff, a ascensão do vice Michel Temer à Presidência da República corroeria, em vez de ajudar, as chances de Aécio Neves de chegar ao Palácio do Planalto em 2019. E na remotíssima possibilidade de os golpistas terem sucesso por outros meios, jamais entregariam o poder ao ex-governador mineiro. Os mais radicais o desprezam e desconfiam de seu discurso antipetista.

O problema do Brasil não é comunismo, como apregoam essa minoria extremista e alguns golpistas de plantão, em seus comentários nos portais e redes sociais. O que põe a opinião pública em estado de perplexidade é a corrupção. Esse mal nasce de uma acumulação histórica de defeitos no universo político, como o clientelismo e o fisiologismo, que vêm desde o Brasil Colonial. Sua raiz está na busca permanente do poder, por partidos e candidatos, e da necessidade de fontes de financiamento para suas campanhas. No caso da Petrobras, o próprio Ministério Público declarou que o esquema funciona desde 1999 – logo, ainda antes da chegada do PT ao poder.

Quando das manifestações de junho de 2013, Dilma saiu em defesa de reformas que tirassem o país da dependência desse quadro de relações incestuosas entre o governo e o Congresso, e de se criarem mecanismos que permitissem maior espaço para a população manifestar seus anseios e interesses. Suas teses, no entanto, não prosperaram no Legislativo. Agora, que a reforma política volta à tona, o que importa é saber se teremos uma de fato, ou se uma reforma de faz de conta, comandada pelos grupelhos de sempre, com mudanças cosméticas para enganar a população.

O caixa dois não é mais do que uma extensão do financiamento eleitoral privado, e legal. O menos citado caixa um, que poderia ser suprimido por meio do financiamento público de campanhas, como prevê a proposta de reforma política defendida por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tantas outras entidades e movimentos com representação em amplos setores sociais.

No meio desse processo estão pilantras que aparecem para viabilizar “negócios” e “acertos”, extorquem recursos de empresas e irrigam, com parte dos recursos auferidos, candidatos e partidos. Eles não agem em nome do interesse público ou partidário, não são “azuis” ou “vermelhos”, nem “golpistas” nem “comunistas”. Se existisse um termo exclusivo para defini-los, seria simplesmente “corruptistas”, ladrões que se aproveitam das distorções históricas do atual sistema político.

Um comentário:

  1. Caro Sergio,
    Concordo com tudo o que postastes, entretanto deixo uma pergunta:
    Que povo esperas que tenha propostas coerentes?
    O poveco que legitima inclusive ânus como órgão reprodutor, afinal sexo É REPRODUÇÃO, o mesmo que gasta seu tempo assistindo TV, novelas pederastas e pedófilas, BBBs e outras imbbbecilidades?
    No meu entender temos que exterminar os corruptores, os corruptos e os corrompidos, o povo!
    Aí, depois da limpa construamos uma nação, que pode até ter o nome Brasil!
    O que temos hoje é a fossa brasilis e essa não é culpa dos governantes, é do povo também, que sem qualidade prefere participar do butim ou da alienação me vez de ficar forte para inibir os excrementos encastelados no poder!
    O povo até prefere virar "tropas das elites" e servir de sicário do estado bandido, prefere até endeusar picaretas jogadores de futebol como se esses valessem o que ganham, aliás, não valem o que...
    Como mostro, o problema da fossa brasilis é conjuntural e "cujuntural", e para resolver só o exorcismo total!

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