quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Fascismo em doses homeopáticas

Sanguessugado do Portal Fórum

Fundamentalismo antitabagista

Mouzar Benedito

A partir da última quarta-feira, a lei antifumo que era aplicada em parte do Brasil agora vale para o país inteiro. É radical, do jeito que os proibidores gostam.

Mesmo em São Paulo, onde a lei já era aplicada, vem radicalização aí. Por exemplo: num bar que frequento e que era permitido fumar num espaço ao ar livre, fiscais já avisaram ao dono que agora não pode mais, porque tem uma parede ao lado.

Fumar ali não incomoda ninguém. Eu que não fumo há muito tempo e tenho amigos que fumam, marcava encontro naquele local para que eles não tivessem que se levantar e ir até a rua para fumar. Agora acabou.

Vejo nos jornais que muita gente tem aplaudido a tal lei.

Dizem que estão defendendo a saúde não só deles, mas também a saúde alheia. Para mim não é nada disso, é o avanço de uma mentalidade repressora, mais um passo da mentalidade fascista que vai tomando conta da sociedade progressivamente.

Isso do Estado querer controlar as pessoas, em outros tempos era combatido como algo inaceitável, de um mentalidade totalitária que não podia tomar conta do mundo.

Mas hoje, num tempo em que muitas liberdades avançaram, muitos direitos foram conquistados, cresce o número de pessoas que querem é controle sobre os outros.

Às vezes tomando a defesa do que julgam hábitos saudáveis, querem impor seus hábitos e gostos a todo mundo.

Voltando no tempo, lembro-me de quando li o livro “1984”, de George Orwell, um libelo contra um futuro de controle total de pessoas pelo Estado, e fiquei muito impressionado. Anti-stalinista, ele previa um mundo em que câmeras filmariam tudo o que as pessoas fazem, e por isso não se poderia driblar as proibições. E haja proibições! Um ditador autointitulado “grande irmão” ou, na língua de Orwell, “big brother”, seria o controlador de tudo, determinando proibições e punindo com violência os opositores.

E isso, para qualquer pessoa com senso de democracia, parecia uma coisa odiosa.

Pois há anos essa coisa de vigilância dos cidadãos, se possível 24 horas por dia, não só é aceita como até reivindicada. É sintomático o sucesso de um programa de televisão chamado “Big Brother”.

Mas se fosse só na televisão, vá lá. A coisa está generalizada. Querem câmeras de vídeo em tudo quanto é lugar, controlando todo mundo. “É para combater a violência”, informam. Certo, mas parece que ninguém liga mais para o fato de o mundo estar se tornando cada vez mais violento. Em vez de achar alternativas para evitar isso, se contentam em identificar os violentos.

Acho que essa lei antifumo tem algo a ver com essa mentalidade dos “tempos modernos”. O sujeito que não fuma acha que ninguém tem o direito de fumar.

Quando criaram essa lei no estado de São Paulo, a alegação era de que nos bares e restaurantes não se respeitavam os espaços de não fumantes, que acabavam virando fumantes passivos. Mas se o governo tem capacidade para uma fiscalização rígida e feroz em todos os espaços, por que não teria para determinar a separação completa das duas áreas, de fumantes e não fumantes?

Ou então, por que não deixar que os proprietários dos estabelecimentos decidam sobre isso? Num bar, poderia ter na entrada uma placa bem grande: “Aqui é permitido fumar” ou “Aqui não é permitido fumar”, ou “Temos áreas especiais para fumantes e não fumantes”. Assim, entraria num bar ou restaurante quem quisesse, sem direito de chiar. Fumante teria que respeitar os bares de não fumantes e vice-versa.

Mas ao contrário, o mote é proibir, cada vez mais. Proibir, proibir e proibir! Esta é a onda do momento!

O estranho é que as pessoas não percebem o autoritarismo que está por trás de proibições como essa. Se a gente aceitar esse controle, podem vir outros. Beber também faz mal a saúde, não? Pois um grupo de fanáticos antialcoólicos pode chegar ao poder e proibir a venda de bebidas em bares. Ou mais, proibir totalmente o consumo de bebidas alcoólicas, criando o equivalente à Lei Seca que vigorou nos Estados Unidos no início do século XX e acabou virando uma maravilha para o crime organizado, que passou a controlar a produção e venda clandestina de bebidas alcoólicas.

Até políticos que em público esbravejavam contra as bebidas alcoólicas bebiam escondidos, ajudando a florescer o comércio clandestino e controlado por organizações mafiosas, com seus Al Capones.

Bom, pelo jeito, num futuro não distante aceitaremos a Lei Seca aqui. “É para o bem de todos”, pois como sabemos morre uma porrada de gente todos os dias por causa do álcool.

Depois, naturebas assumem o governo e proíbem a venda de carnes vermelhas, que segundo dizem faz mal à saúde. Em seguida, vegetarianos mais radicais, proíbem qualquer carne.

Aí, chega um religioso fanático ao poder e diz que certas religiões que não são a dele são coisas do capeta e proíbe todas, ficando com o monopólio da fé.

Aliás, estados teocráticos repressivos e obscuros que impõem costumes horrorosos de uma religião ou seita não fazem falta no mundo atual. Algumas pessoas falam que “falta Deus” no coração de criminosos, mas o que se vê são assassinatos em massa e guerras em nome de Deus, em vários países do mundo.

Bom, voltemos ao Brasil. Depois de proibição do fumo, do álcool, das carnes e de certas religiões, vem algum hitlerzinho nacional e diz que o povo não sabe votar e proíbe o voto…

Enfim, acho uma porcaria a aceitação passiva dessa progressiva onda autoritária, que não tem partido: o PT imita o PSDB de Serra, ao tornar nacional a lei que ele criou em São Paulo.

Acho esquisito que alguns fumantes “entendem” a radicalidade dessa lei. Pouca gente se dá conta do avanço do fascismo, que não é de se estranhar que venha num crescente impressionante, impulsionado pelas “mídias sociais”, e culminou com xingamentos, ofensas, ameaças e manifestações de ódios e preconceitos nas últimas eleições.

Insisto: sou contra e vou protestar, sempre. Já penso até em voltar a fumar cachimbo.

Quando algum pentelho vier encher o saco, vou gritar: “É crack! Estou fumando crack!”. Aí, em vez de me amaldiçoarem, vão assumir um tom mais compreensivo e talvez me oferecer tratamento clínico, que posso aceitar ou não.

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