sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ao vencedor, as batatas

Via Boitempo

Flávio Aguiar

14.12.08_Flávio Aguiar_Ao vencedor as batatas

A frase famosa do filósofo aloprado (melhor que “maluco”) Quincas Borba, amigo de Brás Cubas e de Rubião, serve até hoje para ironizar alguma disputa meio inútil. Ao invés de medalhas, batatas: é nisto que a vida dos simples se resume.

Mas a frase pode ter outros sentidos.

Quem visita Berlim, tem que visitar Potsdam, ao lado. Por várias razões, e uma delas é Sans-Souci, o mini-palácio erguido pelo rei da Prússia, Frederico II, o Grande (Friedrich II, der Grosse) para disfrutar do verão.

Mini-palácio em termos: os jardins são vastos, e peculiares. Disposto em plataformas ascendentes para quem chega por eles, espelham a alma do rei. Fascinado pela Itália (ainda futura Itália, à espera de Garibaldi), Frederico II quis criar em seu palácio de verão uma réplica da terra de Dante, Maquiavel, Petrarca e tantos outros.

Nas paredes das plataformas (umas vinte) plantou figueiras. Como estas não sobreviveriam ao rigoroso inverno prussiano, construiu galerias vidradas, com portas que se fecham, para protegê-las das intempéries. O resultado foi que as figueiras, alhures árvores robustas, de troncos amplos que necessitam de vários homens de braços dados para serem cingidas, se desenvolveram ali como trepadeiras de troncos finos e galhos frágeis – mas que resistem até hoje.

Porém é verdade que é um mini-palácio. Em comparação com os palácios de verão de outros reis europeus e mesmo príncipes e duques governantes de principados e ducados da futura Alemanha (ah, estes jovens países europeus, em comparação com o nosso Brasil, tão antigo…), Sans-Souci é minúsculo. O palácio de Queluz, residência de verão dos já falidos reis portugueses, de onde partiu para o Brasil D. João VI, levando sua mãe, D. Maria I, uma esposa aloprada (D. Carlota Joaquina), dois príncipes estróinas (D. Pedro, depois Primeiro do Brasil e Quarto de Portugal, e D. Miguel, o safado reacionário), e uma Corte desesperada e, convenhamos, algo corrupta, é dez vezes o de Sans-Souci, e muito mais requintado.

Em Sans-Souci impera a simplicidade algo austera: uma biblioteca pequena, mas riquíssima, uma dezena de quartos destinados aos convidados do rei: filósofos, músicos, artistas, letrados, mais do que cortesãos, os aposentos da rainha, com quem ele, misógino que era, se casou por conveniência, com entrada em separado, cozinha, adega, dependência de criados.

Claro: do lado de fora havia cavalariças, estrebarias, pavilhões para carruagens, um moinho para fornecer  pão, etc. Ah sim, e ruínas. Frederico II achava a Prússia um país bárbaro, porque não ostentava ruínas, como a Itália. Então mandou construir um conjunto delas, para poder descortiná-las da janela de seu quarto e da porta do palácio. Dizem também que era para lembrar a seus hóspedes de que tudo, nesta vida, é passageiro – exceto o cobrador e o motorneiro (êpa, aqui misturei tudo, esta segunda parte é deum ditado relativo aos bondes da minha Porto Alegre dos anos cinqüenta).

Entre os hóspedes frequentes do palácio figurou Voltaire, filósofo contemporâneo de Rousseau mas que, ao contrário deste, gostava de frequentar cortes ao invés de mulheres maduronas. Consta que, perguntado pelo rei se este deveria reduzir os custos da estrebaria para equilibrar as despesas, o filófosofo teria respondido, nada diplomaticamente, que o problema das despesas não eram os cavalos, mas sim os burros que frequentavam o palácio às custas da Coroa.

Pois bem, deixemos de delongas. Quem visita Sans-Souci depara, à direita do palácio para quem olha desde os jardins, com o túmulo do rei. Depor seus despojos ali foi uma saga que durou dois séculos: somente duzentos anos depois de sua morte, após a queda do muro de Berlim, eles ali foram depostos, na companhia próxima de seus cães de estimação, como era sua vontade.

Sobre o túmulo, o visitante vai deparar com uma fileira (ou mais) de batatas, sempre frescas e, portanto, renovadas. É uma singela homenagem da hoje Alemanha a seu rei, conhecido, além de como “o Grande”, “Der Grosse”, como o “Kartoffelkönig”, o “Rei das Batatas”.

Foi em meados do século XVIII que o previdente Frederico II estimulou enormemente a plantação de batatas – originárias da América e chegadas à Prússia através da Espanha – no território sob seu comando. Seu objetivo era fornecer a suas tropas um alimento barato, de fácil cultivo e resistente ao inverno, por serem os tubérculos subterrâneos. Frederico II, herdeiro do trono de seu pai, Guilherme I, conhecido este como “o Rei Soldado”, consolidou militarmente o poderio da Prússia, até então vista como um mero “país emergente”, se tanto.

O plantio das batatas se tornou uma febre nacional, porque Frederico, esperto, não se limitou a estimular e mesmo ordenar a plantação: fez propaganda. Batatas eram boas para tudo: cancro, sangue grosso, sangue fino, doenças da pele, queda de cabelo, falta de ar, taquicardia, azia, nó nas tripas, um universo corporal. Claro: numa população que se alimentava mal, inclusive na classe rica, que dispunha de pouca energia no inverno, a plebéia mas eficiente – e além do mais, sedutoramente exótica – batata fornecia o que o povo e a aristocracia precisavam: uma base de amido para o fortalecimento muscular e de fibras para aviar a digestão. Ainda mais, era de fácil armazenação e ótima para fazer sopas, caldos, acompanhar cozidos, etc.

Além disto, como nos séculos seguintes não houve guerra na Europa que não passasse de algum modo pela Prússia e depois pela Alemanha, no século XX, a batata é considerada como a heroína que evitou milhões de mortes, impedindo que a fome mortífera ceifasse mais vidas, além das milhões ceifadas pela estupidez humana à solta.

E mais: como se não bastassem as batatas, Frederico foi um rei sábio em outros campos: estimulou a escolaridade, a saúde pública, combateu o nepotismo e a corrupção, fez a Prússia progredir economicamente. Avançou em garantir direitos para seus súditos. Era meio autoritário, vá lá; mas quem não era? E até hoje…

Portanto, cara leitora, caro leitor, se fores a Potsdam, vai a Sans-Souci (o palácio Sem Preocupações, na expressão francesa). E se fores lá, leva tua batata e a depõe, como homenagem singela, sobre o túmulo de Frederico. Ele a merece: afinal, em seus termos, foi e é um vencedor.

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Ilustração dos jardins do Palácio Sans-Souci em Potsdam (1750)

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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