domingo, 21 de dezembro de 2014

A reaproximação EUA/Cuba é parte da dominação de amplo espectro norte-americana

Via Desenvolvimentistas

Rennan Martins

O histórico episódio não se contradiz com a intenção dos EUA de impor uma ordem unipolar no mundo.

Obama e Raúl Castro surpreenderam o mundo ontem (17), entrando para a história ao anunciar a reaproximação entre Washington e Havana, depois de 53 anos. Nas conversações mediadas pelo Papa Francisco, pavimentou-se o caminho para a normalização das relações entre os países. Houve troca de prisioneiros acusados de espionagem e o anúncio de uma série de medidas que flexibilizam o bloqueio a ilha.

Dentre as mudanças mais representativas temos que as remessas financeiras de indivíduos residentes nos EUA para Cuba serão ampliadas de US$ 500 para US$ 2 mil trimestrais. A lista de produtos autorizados a serem exportados para a ilha aumentará, principalmente os equipamentos de agricultura e materiais de construção civil. Empresas norte-americanas poderão abrir contas em instituições financeiras cubanas e bandeiras de cartão de crédito ianques terão seu uso habilitado no país socialista.

No campo diplomático, temos que o secretário de Estado norte-americano Jhon Kerry foi instruído a retomar as relações com Cuba. Ocorrerá também a revisão do status do país caribenho, hoje incluso na lista de nações que promovem o terrorismo. Por fim, a mais importante das mudanças, a embaixada americana será reaberta em Havana.

O observador desatento talvez interprete essa atitude do presidente Obama como um gesto humanitário, um reconhecimento de que o embargo é ilegítimo e que o povo cubano tem de ter respeitada sua autodeterminação. No entanto, ao analisarmos o quadro internacional e a postura de Washington em relação a outros players, principalmente no que se refere a região eurasiática, fica evidente que a retomada dos diálogos é uma medida pragmática, condizente com a doutrina de dominação de amplo espectro norte-americana.

Desde o final do ano passado a Ucrânia está numa crescente de desestabilização promovida pelos EUA, por lá financiaram mais uma de suas “revoluções” coloridas. Assistimos então o golpe de Estado que retirou da presidência Viktor Yanukovich, oligarca alinhado à Moscou. Kiev passou a ser controlada por uma junta cleptocrata submissa à Washington. Por lá já iniciaram as reformas austeras/liberalizantes receitadas pelo FMI.

Putin, ao notar o Tio Sam expandindo sua presença militar por meio da OTAN, prontamente incorporou a Crimeia, região ucraniana estratégica de população etnicamente russa que se opôs ao golpe promovido pelas forças da ultradireita apoiadas pelo Ocidente. Atualmente algumas regiões do leste ucraniano declararam independência e estão batalhando pela separação em relação ao oeste, onde está a frente do executivo o magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde 2006.

Soma-se a isso as ascendentes sanções econômicas contra a Rússia, instituídas usando-se de pretexto o conveniente abate ao boeing 777, voo MH17, da Malaysia Airlines, o qual a imprensa adestrada não mais comenta por conta dos fortes indícios de que o acontecido fora uma operação de falsa bandeira. Estas sanções estão atingindo fortemente a economia russa, que se viu obrigada a subir os juros básicos de 10,5% à 17%, medida emergencial adotada pelo Banco Central local no intuito de proteger o valor do rublo e conter a inflação.

No Oriente Médio o que vemos é a consolidação do Estado Islâmico, movimento dissidente da Al-Qaeda que foi instrumentalizado pelos EUA a fim de que conseguissem a derrubada do presidente sírio Bashar Al-Assad. Os que antes eram “guerreiros da liberdade” lutando contra a “ditadura brutal” do alauita Assad tornaram-se a escória da humanidade e perigo número um ao Ocidente, mas somente a partir do momento que resolveram dominar regiões do Iraque e Curdistão, de alta importância geopolítica e econômica para o cartel transnacional do petróleo.

Há de se levar em conta também a guerra de preços que a Arábia Saudita, eterno aliado dos EUA, está bancando. A monarquia sunita tem inundado o mercado de petróleo num momento de baixa demanda, o que resulta em uma queda sem precedentes no preço do barril, a qual prejudica diretamente diversos regimes não alinhados.

Esta agressiva atuação norte-americana na Eurásia objetiva controlar os fluxos energéticos da Ásia/Oriente Médio para a Europa e ainda desmantelar a cooperação sino-russa, vista como ameaçadora pelas lideranças neoconservadoras ianques.

É nesse contexto que se insere a mudança radical de rumos dos EUA em relação a Cuba. Há muito que a comunidade internacional condena o embargo a ilha e desde a chegada de Raúl Castro ao poder o regime tem mudado suas diretrizes econômicas, visando a integração com a América Latina e o aumento das trocas comerciais internacionalmente. Símbolo desse giro cubano é o porto de Mariel, projeto financiado pelo BNDES que envolveu mais de 400 empresas brasileiras.

Washington se encontrava isolada em sua posição intransigente em relação a Havana, e inclusive assistindo outros países se aproveitando das oportunidades oferecidas pela abertura cubana. Tomou então a decisão de normalizar paulatinamente as relações com a ilha castrista, no intuito de tutelar as mudanças que ocorrem em “seu quintal” e ainda legitimar de certa forma as intervenções supracitadas na Eurásia.

“Tudo deve mudar para que tudo fique como está”, a célebre frase do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa nos dá a exata compreensão da postura dos EUA frente ao mundo.

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