terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sem hipocrisia

Via Adital

Valdemar Menezes

Desde o desencadeamento da Operação Lava Jato, os brasileiros estão ansiosos para que a investigação do escândalo sirva para desbaratar os esquemas de corrupção que há décadas enlameiam as relações entre setor privado e setor público. O empresário Ricardo Semler , em artigo classificado de "antológico” publicado na última sexta feira, na Folha de S.Paulo, expôs a hipocrisia dos que se dizem horrorizados com o esquema exposto agora, como se fosse inédito na história do País (http://bit.do/UEVf). Igualmente, o colunista Luís Fernando Vianna foi na mesma linha, ao ironizar certas deduções em curso: "depreende-se que o país era um paraíso de lisura até 2003”: http://bit.do/UuWB. Tais esquemas atravessaram governos dos mais diferentes partidos (http://bit.do/Us3y) e (http://bit.do/Ux98), inclusive, em estados e municípios (um dos exemplos seria o escândalo dos trens e metrôs de São Paulo no curso dos 20 anos do governo tucano no Estado).

MATREIRICES

No início da semana, o jornalista Jânio de Freitas apontava manipulações desenvolvidas por segmentos inconformados com o resultado das urnas para usar a Operação Lava Jato para seus propósitos desestabilizadores (http://bit.do/UGpK). Nesse contexto, foi considerado estranho o lance inopinado de se entregar o exame das contas eleitorais de Dilma Rousseff a um inimigo figadal do PT, o polêmico ministro Gilmar Mendes, já que segundo o Ministério Público Eleitoral não lhe caberia essa atribuição, mas a outro magistrado, visto contrariar as normas do TSE (http://bit.do/Uzjj). Como resposta ao estranhamento de vários segmentos da opinião pública, o ministro dá mostras de querer tensionar ainda mais o ambiente (http://bit.do/UGjg). Há setores convencidos de que Gilmar Mendes tentará encontrar meios para não diplomar Dilma e assim impedir sua posse (http://bit.do/UGtN).

BRINCANDO COM FOGO

Contudo, apesar de tantas investidas "fora da curva”, há esperança de que setores ponderados da sociedade entrem em ação para evitar que o País se entregue a uma luta suicida em que ninguém sairá ganhando. É o que poderá acontecer se a manobra prosperar, inclusive a do impeachment (http://bit.do/UGka). O Brasil nem sequer cauterizou as feridas do último golpe de estado, em 1964 (cujo balanço dos crimes, na área de direitos humanos, será apresentado à Nação no próximo mês pela Comissão Nacional da Verdade), e já haveria gente tramando para vulnerabilizar as instituições. Desta vez, não seria necessário chamar os militares, mas, apenas seguir o modelo paraguaio, dando uma tintura legal ao golpe. Só que, no Brasil, as consequências teriam tudo para serem trágicas, pois, uma sociedade que recuperou a democracia a um preço tão elevado (perseguições, prisões, torturas e mortes), dificilmente aceitaria esse desfecho sem resistência.

CONTRADIÇÃO

A verdade é que quando surgem iniciativas para erradicar os labirintos da corrupção (o que só pode ser feito com uma reforma política comprometida com o corte dos vínculos entre empresas privadas e partidos), certos críticos mais flamejantes revelam-se totalmente contrários. Basta ver o próprio ministro Gilmar Mendes: o seu pedido de vistas ao processo que proíbe o financiamento de campanhas eleitorais por empresas (e que já tinha sido aprovado pela maioria do pleno do STF) terminou impedindo que a proibição já fosse aplicada nesta última campanha. Mais incrível ainda porque seu voto não seria capaz de reverter o resultado. A corrente contrária ao afastamento das empresas das campanhas políticas parece temer não só que a disputa fique mais igual, mas que somente os partidos com militantes atuantes - e não apenas com filiados - levem mais vantagem com a proibição do financiamento pelo poder econômico.

http://www.opovo.com.br/app/colunas/valdemarmenezes/2014/11/22/noticiasvaldemarmenezes,3351993/sem-hipocrisia.shtml

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