terça-feira, 25 de novembro de 2014

Segregação! ou Raul Longo e os paulistas (hehehehe)

Sanguessugado do redecastorphoto

[*] Raul Longo

Texto enviado pelo autor

Ilustrações catadas na internet pela redecastorphoto

Vista da Ponta do Sambaqui da janela do Pouso da Poesia

Chega! Cansei desse negócio de defender minorias. E maiorias também!

Que adianta ser negro se segundo o censo o sujeito é maioria? E mulher? Aí é como dizia o Mário Reis: que parte mais fraca é essa, se juntas são uma fortaleza contra qualquer homem? Coitados de nós se cada vizinha defender a outra! Já imaginou?! Não dá nem para tomar umas sossegado e chegar em casa dando esporro, porque no que virou a esquina trançando as pernas o camarada já toma uma camaçada de pau ou de panela da mulherada da vizinhança toda, só por prevenção! Tem jeito isso?

Não defendo mais ninguém, não! Muito menos pobres e oprimidos! Pobre aonde? Segundo a Danuza Leão que sabe bem dessas coisas, pra encontrar pobre hoje em dia só em fila de check-in de voo internacional!

A última oprimida que vi por aí foi àquela paulistana em passeata da Av. Paulista, histericamente pedindo intervenção militar e a volta da ditadura militar porque sente falta de liberdade de expressão. Com claros sintomas escleróticos a jovem xingou a Dilma e o Lula de tudo quanto é nome.

E com toda a razão!

Afinal que país é esse em que não se pode nem expressar livremente e se é obrigado a reconhecer que nunca o povo brasileiro viveu tão bem? Como é que posso falar ao contrário se o governo rouba minha liberdade de expressão melhorando continuamente o cotidiano da vida do povo brasileiro?

Isso é uma puta censura! Muito pior do que a ditadura! Na ditadura não se podia falar mal, mas se podia manter o senso e a sobriedade. Agora, para falar mal tem de se perder o senso e cair no ridículo como aconteceu com a coitada da garota! Não é horrível?

Localização do Pouso da Poesia na Ponta do  Sambaqui, Florianópolis

Daí resolvi aderir e também vou sair por aí distribuindo bofetada nos mais fracos e oprimidos, em toda essa gentinha fedida e diferenciada! E assim, sob a orientação do ex-sociólogo soborbanno (não confundir com suburbano pra não causar revolta nas periferias) resolvi aderir ao movimento e já comecei a segregar como demonstro nessa reprodução de conversa telefônica ocorrida recentemente:

- Oi Raul! É a fulana.

- Fulana?...

- É... A Fulana de São Paulo!

- São Paulo?!!!... Um momentinho.... (voltando): – Difa aí Fulanha.

- Ué!... É a ligação ou você ficou fanho de repente.

- Fão!... É refite!

- Rinite?! Ih rapaz, nem me fale! Com essa poluição de São Paulo isso vive me atacando! Na falta de água a coisa piorou muito porque não dá pra tomar banho e a gente é obrigada a dormir com a poluição grudada no corpo.

- Pra faver xexo deve fer uma nofeira!

- Nem me fale! Atrito de fuligens!

- Imafino!

- Então Raul, por isso mesmo é que estou te ligando. Aí na tua pousada tem água, né?

- Fabe como é? Lugar turísfico sempre falta na tempofada, mas tenho reserfatório de 10 mil fitos e minha Cantafeira nunca seca porque a noite o fornecimento da fágua regurafiza.

- Que bom! Parece sonho!

- É!... Estamos na mesma estiafem, mas apefar de também inoferante em muita coisa o gofernador de Santa Catafina até que não é tão fuim como o daí, e por enfanto não tefe problema no abastefimento!

- Êêê Raul!... Você sempre dando suas alfinetas políticas! Então vamos mudar de assunto que não quero discutir sobre isso. Você tem vaga aí por umas semanas?

- Pra fando?

- O mais urgente possível. Eu e o Nando, meu namorado que você vai conhecer, não aguentamos mais! Mais de mês sem fazer sexo por causa da fuligem, imagine! A última vez foi quando fomos pra Natal. Nordestino pra todo lado, mas ao menos água tinha.

- Fei! E querem fir pra cá para tomar fanho, né?

- Fanho tá é você! Mas a gente quer isso mesmo! Banho de mar também, mas importante mesmo é o de chuveiro. Quanto tá a diária?

- Pra paufista é 400 dófares!

- 400 dólares!

- Por paufista! Focê e seu namorado: oitofentos.

- Ficou maluco Raul! Isso é diária de hotel de Miami!

- Num fei! Perfunta pro Joafim Barfosa!

- Pera lá Raul! Isso não é possível! Que história é essa de preço em dólar? E por que pra paulista? Quanto é pra carioca, mineiro, nordestino?

- Oifenta reais.

- Porra Raul! Por que essa especulação? Já sei!... Paulista é burguês, tem dinheiro! Mas acontece que a gente trabalha, viu? Somos a locomotiva do Brasil!

- Então manda o gofernador infestir em trem elétrico pra Maria Fumaça não enfer de fuligem o feu xexo com o namorado.

- Olha aqui Raul! Isso é a prova de que vocês eleitores de Lula e Dilma não passam de um bando de nazistas cheios de preconceitos. Fascistas! Racistas preconceituosos! Ignorantes, insuportáveis! O Brasil ficaria muito melhor se fossem todos pra Cuba!

- Paulistinha, a culpa não é minha se pela terceira vez vocês elegem o Robin sem Batman que se não conseguiu nem conter o PCC dentro de presídio estadual de segurança máxima, quanto mais o nível dos reservatórios de água!

- Ué... Acabou a renite?

- Renite nada! Tapei o nariz para não sentir o fedor de fuligem de paulista pelo telefone.

- Vai tomar banho!

E bateu o telefone na minha cara antes de confirmar se interessava ou não a hospedagem com banho e tudo por apenas 400 dólares ao dia, na promoção especial para paulistas.

Fazer o quê? Fui tomar banho, mas ela não. Se tenho olfato sensível, não é pra segregar?

Eu, logo depois do banho...

Raul Longo- Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG). Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais:Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.

Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.

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